sábado, 8 de fevereiro de 2014

A dama do puteiro

Em 1993, a revista americana Guitar Player elegeu uma mulher brasileira como um dos 100 melhores instrumentistas do mundo, por seu desempenho com a viola caipira e os violão.

Com voto de Eric Clapton a brasileira recebeu o Prêmio Spolight, como instrumentista revelação do ano.

A exímia violeira era uma cabocla do pantanal matogrossense analfabeta, com 69 anos, desconhecida pelo público brasileiro até então.

Helena Meirelles

A partir daí passou a ser observada e valorizada...


Foi chamada para participar de programas de televisão sobre música sertaneja.

Num deles apresentou-se com a dupla Tonico e Tinoco, uma das melhores do gênero, e em outro, com a também excelente dupla Pena Branca e Xavantinho.

Entre 1994 e 1997 gravou três CDs, nos quais toca viola capiria, bandolim, rabeca e violão.

Mas foi com a viola que se consagrou, dedicando a vida inteira ao som que traduzisse a alma do homem pantaneiro.

A seguir, Helena Meirelles toca e interpreta Me pega por favor, do seu CD Flor de Guavira:


Arredia e desconfiada, apresentou-se em vários tipos de palcos no Brasil e no exterior, após receber o prêmio da Guitar Player.

Mas nunca deu muita trela. Nem ao fato de ter recebido voto de um dos melhores guitarristas de todos os tempos.

Num dos show, em grande teatro de São Paulo, lotado, indagaram a ela a respeito no final, sobre como tinha se sentido por tão boa receptividade.

“Um lugar bonitinho, mas com umas luzes muito fortes na minha cara. E um povo muito silencioso, demasiado comportado. Não gostei! Prefiro tocar em puteiro, sob a zorra da peãozada.”   

Contava que nunca foi desrespeitada nos bordéis, mas cansou de ver os peões na zona mexerem a cerveja com o cano do 38 e bater nas mulheres com guaiaca e espora.

Helena Meirelles era filha de um peão paraguaio e de uma brasileira. Os pais proibiram que aprendesse a tocar. Por isso, fugiu de casa aos 15 anos e nunca mais voltou.

Cresceu rodeada de peões, comitivas e violeiros pantaneiros.

Aprendeu a tocar sozinha.

Teve 11 filhos com parceiros diversos. Viveu com o primeiro marido por oito anos, depois não fez mais questão de ter companheiro fixo.

Sua música seguiu os ritmos de sua região, com influências paraguaias e argentinas, entre eles o chamané, a guarânia e o rasqueado.

Sua técnica de solos era distinta do que se tem por habitual à viola caipira. Usava três tipos de afinações diferentes, às quais nomeava “paraguaçu”, “três cordas” e “rio abaixo”.

Priorizava as variações rítmicas de palhetadas.

Não havia notícia conhecida, até seu aparecimento, sobre esse jeito peculiar de tocar e solar, ao mesmo tempo. O mais comum é um violeiro fazer o acompanhamento base para o solista.

Helena fazia as duas funções de uma só vez.

É mais ou menos o que Nelson Cavaquinho fazia ao violão ao acompanhar seus belíssimos sambas.

A carreira de Helena ainda durou 10 anos. Do momento que a a Guitar Player a revelou, aos 69 anos, até sua morte.

Helena a caráter durante show

Mas teve a preocupação de formar novos violeiros que dessem continuidade à sua técnica. Seus principais seguidos são Milton Araújo e Rainer Miranda.

Morreu em 2005, aos 81 anos, de pneumonia. Tocou até dois antes de ser internada num hospital de São Paulo.

Detalhe: não quis ter empresários. Embora analfabeta, ela própria administrava sua carreira. Segundo os que com ela conviveram era muito profissional, correta, mas também exigente.

Em 2004, foi laçado o documentário Helena Meirelles, a dama da viola, com direção de Francisco de Paula

Veja o documentário em duas partes, a seguir:

Parte 1.

Parte 2.

Para ouvir mais interpretações de Helena Meirelles, cliquem aqui.

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