sábado, 8 de fevereiro de 2014

A dança tribal da arquitetura moderna

Nos anos 1930, após ser fechada sucessivas vezes pelo regime nazista em ascensão, a escola de design, artes plástica e arquitetura de vanguarda Bauhaus foi extinta em solo alemão.

Walter Gropius, seu fundador, migrou com parte do grupo para os EUA, onde teve excelente acolhimento.
Primeiro prédio da escola Bauhaus

Dizem as más línguas que o grande arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright ficou para lá de enciumado com a presença dos gringos e não suportava mais ouvir falar deles.

Mas os europeus admiravam a obra de Wright até mais que os americanos. Groupius quis imediatamente conhecê-lo. Interlocutores armaram num encontro no escritório do norte-americano, em Chicago.

Qual não foi a surpresa da turma de Groupius ao encontrá-lo com uma garrafa de bourbon pela metade, de casaco, sem camisa, com a gravata desatada, cueca, sapato e meias, dançando bêbado em torno das pranchetas.

Os alemães quiseram saber se tratava de algum ritual nativo. “Não”, disse Wright, “é assim que fazemos arquitetura por aqui”.

Frank Lloyd Wright

Saudadas as primeiras más impressões, com o tempo Wright aprendeu a digerir os Bauhaus e Groupius, Mies Van Der Rohe & Cia idem a ele...

O arquiteto norte-americano Frank Lloud Wright (1867-1959) e os alemães da Bauhaus tiveram papel de destaque na renovação da cultura industrial nas primeiras décadas do século XX.

Wright pertencia à escola de arquitetura de Chicago. Cerca de 500 projetos seus foram construídos, dentre os quais vários arranha-céus, associando forma e paisagem (inclusive urbana).

São edifícios com finalidades diversas: escritórios, galpões de fábricas, templos, escolas, hotéis, museus e vários tipos de residências.

Ele costumava cuidar de cada detalhe da construção.

Inclusive os elementos a serem empregados no interior das construções, tais como mobílias e vitrais. Até os elevadores de seus edifícios eram especialmente construídos para compor com o conjunto.

Experimentou novos materiais de construção e deu novas finalidades aos antigos.

Os projetos residenciais realizados por Wright entre 1900 e 1917 são conhecidos como “casas de pradaria”, assim denominadas porque sua conformação era considerada complementar à paisagem ao redor.

Tinham estruturas horizontalizadas, baixas, com telhados inclinados, silhuetas simples e limpas, com chaminés disfarçadas, saliências e terraços, utilizando-se materiais rústicos encontrados pela vizinhança.

Essas casas foram as primeiras a apresentarem o sistema de planta aberta, ou seja, a estrutura livre das paredes, permitindo múltiplas opções de divisões internas.

A maneira como Wright organizava o espaço interior nos edifícios residenciais e públicos foi uma das características únicas de seu estilo, visível e reconhecível na escolha dos materiais estruturais e de acabamento, bem como na disposição das aberturas.

A Westcott House, concluída em Ohio, em 1908, personifica não somente o projeto inovador do estilo de “casas de pradaria” como reflete sua paixão pela cultura e arte japonesas.

Outras casas de Wright consideradas obras-primas do período foram a Robie House, em Chicago, e a Coonley House, em Illinois.

Robie House
Coonley House

Depois desta fase, seus principais trabalhos foram a Casa da Cascata (também conhecida por Casa Kaufman e considerada a residência moderna mais famosa do mundo) e a sede do Museu Solomon R. Guggenheim, em Nova York, com o qual criou um novo paradigma na arquitetura de museus.
 
Casa da Cascata

 A Bauhaus, por sua vez, vinculava à arquitetura a indústria, o design, o artesanato, as artes e ofícios, aproximando-se da indústria alemã e da produção serial.

A escola foi fundada por Walter Gropius em 1919, na então República de Weimar. Após uma mudança nos quadros do governo, em 1925 a escola mudou-se para Dessau, cujo governo municipal naquele momento era de esquerda.

Primeiro prédio da escola Bauhaus

Uma nova mudança ocorreu em 1932, para Berlim, devido à perseguição do recém-implantado governo nazista.

Em 1933, após uma série de perseguições por parte do governo hitleriano, a Bauhaus foi fechada.

A escola foi considerada pelo regime nazista uma frente comunista, especialmente porque muitos artistas russos trabalhavam ou estudavam ali. Um dos seus professores era grande pintor russo Kasimir Kandinski.

A Bauhaus teve impacto fundamental no desenvolvimento das artes e da arquitetura do ocidente europeu, e também dos Estados Unidos e Israel nas décadas seguintes – para onde se encaminharam muitos artistas exilados pelo regime nazista.

Arquitetura resindencial da Bauhaus
Antecipação ao que seriam, hoje, as salas de conferência
Designs vários
Design de móvel
Sala de estar de apartamento

A Cidade Branca de Tel Aviv, em Israel, contém um dos maiores acervos de arquitetura Bauhaus em todo o Mundo.

A escola Bauhaus também influenciou imensamente a América do Sul, inclusive o Brasil, por meio do curso de Engenharia e Arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e do arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik (1986-1932).

Quem reformulou o curso de arquitetura no Rio foi Lucio Costa, que trabalhava com

Warchavchik. Da Escola Nacional de Belas Artes saíram Oscar Niemeyer, Flávio de Carvalho, entre outros cobras da arquitetura e do paisagismo nacional.
 
Gregori Warchavchik

Niemeyer se dispôs, no início, a trabalhar como voluntário (sem ganhar um centavo) no escritório de Costa e Warchavchik. Na segunda metade da década de 1950, começaram a projetar Brasília. 

Oscar Niemeyer e Lúcio Costa
 As ideias de Le Corbusier (1887-1965), idealizador da arquitetura moderna na França, também estariam na base inicial da formação de Niemeyer.

Voltando à Bauhaus. A escola alemã, cuja maior parte dos integrantes era de esquerda, procurou também estabelecer planos para a construção de casas populares baratas por parte da República de Weimar.
Mas também havia espaço para outras expressões artísticas: a escola publicava a sofisticada revista Bauhaus (com excelente design gráfico) e uma série de livros chamados Bauhausbücher. O diretor de publicações e design era Herbert Bayer.

Capa de um dos exemplares da revista Bauhaus

Frank Lloud Wright, no final da vida, enfrentou os dilemas da modernização norte-americana voltada exclusivamente para as vicissitudes do mercado.

Ele idealizava uma arquitetura para uma civilização de massa moderna e democrática.

Sua obcessão era estabelecer relações entre a arquitetura e a existência concreta das formas de vida social.

Era um idealizador, não um homem a serviço do capital apenas. Sua arquitetura pretendia ser o abrigo das relações humanas, entendidas como o enfrentamento direto com o ambiente a ser instaurado pelas mudanças econômicas.

Família, comunidade e trabalho criariam o sentido da existência em um mundo moderno a ser construído, preservado dos impulsos alienantes e de abstração da sociedade de massas.

Seu elogio à máquina – similar ao de Le Corbusier com a ideia de que a casa deva ser uma “máquina para se morar” – era no sentido de suavizar (humanizar) a tecnologia.


Tanto Wright como a turma da Bauhaus pretenderam atrelar à indústria um sentido criativo, próximo das "artes e ofícios" da virada do século.

No Brasil, intuo que a aproximação maior com a obra de Wight tenha se dado por meio do arquiteto paranaense Vilanova Artigas (1915-1985).

Vilanova Artigas

Em sua busca pela conformação de amplos espaços de sociabilidade, suavizando inclusive ambientes muitas vezes hostis, ou ao menos caóticos, de cidades como São Paulo.

Artigas vem de outra academia renovadora da arquitetura nacional, a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Envolveu-se com ps artistas de vanguarda do Grupo Santa Helena, integrado por Alfredo Volpi (1896-1988).
 

Como professor da Escola Politécnica, fez parte do grupo de professores que deu origem à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU).

Tornou-se um dos professores mais envolvidos com os rumos desta nova escola.

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