sábado, 8 de fevereiro de 2014

Artes e manhas do diabo na literatura


A literatura, desde os seus primórdios, é repleta de seres demoníacos. Todos os grandes livros sagrados têm os seus.

Um dos mais populares é Satanás, a encarnação do mal da tradição judaico-cristã, contra a qual os pastores de algumas igrejas evangélicas vociferam enfaticamente nos dias de hoje em seus cultos.

O demônio mais reverberado pela literatura ocidental é Mefisto (ou Mefistófeles), associado à lenda alemã de Fausto, um alquimista alemão da Idade Média que teria feito um pacto com o “coisa ruim”.
Fausto assina o contrato com Mefisto

Com o intuito de compilar tudo quanto se acreditava e dizia acerca de Fausto, Johann Spiess, livreiro e escritor de Frankfurt, compôs no ano de 1587 a primeira narrativa literária dessa personagem: Historia von dr. Johann Fausten.

O livro visava à doutrinação luterana.

A primeira obra famosa sobre o mito foi uma peça do dramaturgo inglês Christopher Marlowe (1563-1593) – The tragical history of the life anda death of Doctor Faustus –, encenada em 1592.

Retrata o dilema do novo homem ocidental, então dividido entre a religiosidade medieval e o humanismo renascentista...


Foi publicada pela primeira vez em 1604, oito anos após Marlowe ter sido esfaqueado numa viela londrina após uma briga.

Suposto Cristopher Marlowe em desenho

Além de grande poeta, o autor inglês, cujo nome Raymond Chandler escolheu para nomear o protagonista de seus romances policiais, gostava dos meios barra pesada da Londres da época.

A peça, escrita parte em versos e parte em prosa, narra a história de um homem que vende a alma ao diabo por poder e conhecimento.

Quase dois séculos depois, no ano de 1760, foi a vez do escritor alemão Gotthold Lessing (1729-1781) criar uma nova versão dramática do Fausto, na qual ele encarnaria o heroísmo do intelecto humano, capaz por si mesmo de triunfar sobre o mal.

A obra de Lessing foi publicada, mas dela não restou um único exemplar completo.

O mito de Fausto se tornaria um dos preferidos do romantismo alemão, que vai de meados do século XVIII ao século XIX.

A personagem apareceria em obras como o Fausts Leben (A Vida de Fausto, 1778), escrita por Maler Müller, e o Fausts Leben, Taten und Höllenfahrt (Vida, feitos e danação de Fausto, 1791) escrita por F. M. Klinger.

O enredo do inglês Marlowe serviu de base para a obra principal sobre o mito, de Wolfgang Goethe (1749-1832).

Retrato de Goethe

Sem dúvida, o Fausto de Goethe prepondera sobre os demais.

É um poema épico que relata a tragédia de um homem de ciências que, desiludido com o conhecimento do seu tempo, faz um pacto com Mefisto, que o enche de energia satânica insufladora da paixão pela técnica e pelo progresso.

Foi a obra de toda a vida de Goethe. A primeira versão foi composta em 1775, mas era apenas um esboço intitulado Urfaust (Proto-Fausto, ou Fausto zero) que só foi publicado em 1887, décadas depois da morte do autor.

Doze anos após a composição do Urfaust, houve ainda outro esboço, feito em 1791, que era intitulado Faust, ein fragment (Fausto, um fragmento), e também não chegou a ser publicado.

A versão definitiva só seria escrita e publicada por Goethe no ano de 1808, sob o título de Faust, eine tragödie (Fausto, uma tragédia).

Em 1826 ele começou a escrever a segunda parte do poema, publicado postumamente sob o título de Faust. Der tragödie zweiter teil in fünf akten (Fausto. Segunda parte da tragédia, em cinco atos).

O enredo é simples. No afã de superar os conhecimentos de sua época, Fausto evoca espíritos e, por fim, Mefisto, com o qual negocia viver por vinte e quatro anos sem envelhecer.

Durante esse tempo, conforme o contrato assinado com seu próprio sangue, serviria o diabo a Fausto, em troca da sua alma. Entregue aos prazeres durante este tempo, é finalmente ao término dele levado para o inferno.

Tendo, porém, encontrado o amor de Margarida, dela tenta obter a salvação, mas foi inevitável o destino a que se comprometera.

Mefisto vem de mefítico, que significa sulfuroso, pestilencial e inimigo da luz. Trata-se de um tipo ignóbil, mas não como o Satanás bíblico. Tem alto estilo, humor refinado e está mais para um ser escatológico que para a encarnação do mal.

É a esse demônio com cara de modernidade que escritores como Baudelaire, Edgar Poe, Thomas Mann (Dr. Faust), Dostoievski (implícito no romance Os irmãos Karamazov) e Guimarães Rosa (implícito em Grandes sertões: veredas) se referem ao diabo em suas obras.

O poeta russo Alexander Puchkin (1799-1837) escreveu, em 1826, Diálogo com Mefistófeles.

Retrato de Alexander Puchkin

O dramaturgo alemão Cristian Dietrich Grabbe (1801-1836) compôs, em 1836, a tragédia Don Juan und Faust (Don Juan e Fausto).

No século XX, o poeta francês Paul Valéry escreveu a peça Mon Faust (Meu Fausto), mas não a concluiu.

O poeta português Fernando Pessoa escreveu Fausto: uma tragédia subjectiva, inusitadamente narrado na primeira pessoa.

Fausto também foi tema para as peças musicais de vários compositores clássicos com Wagner (Faust), Berlioz (La damnation de Faust), Schumann (Szenen aus Goethes Faust), Liszgt (Faust-Symphonie) e Gounod (Faust).

Na música popular, Sympathy for the devil (Mick Jagger e Keith Richard) dos Rolling Stones é a canção mais conhecida.

No cinema, em 1926 foi lançado na Alemanha o filme Faust – Eine de deutsch volkssage, dirigido por F.W. Murnau, baseado na obra de Goethe.

Em 1994, na República Checa foi lançado o filme Faust, dirigido por Jan Svankmajerse.

Em 2011, o diretor russo Alexander Sokurov lançou sua versão de Fausto, também baseada na obra de Goethe.

Um dos mais peculiares escritores faustianos foi o norte-americano Ambrose Bierce (1842-1913), cuja principal obra satírica foi O dicionário do diabo.

Ambrose Bierce
Bierce fez do cinismo, misturado ao humor negro, sua marca registrada. Família, nação, raça humana: nada escapava de suas estocadas.

É um dos melhores contistas da literatura norte-americana, ao lado de Edgar Allan Poe e H.C. Lovecraft.

Aos 71 anos, Bierce seguiu em viagem para o México a fim de fazer cobertura jornalística da guerra civil. Ao tentar contato com Pancho Villa, foi preso e fuzilado pelo seu exército, sob suspeita de ser espião.

A seguir, alguns tópicos do dicionário de Bierce:

Apatia: Seis semanas de casamento.

Bruto: Ver marido.

Circo: Um local onde cavalos, pôneis e elefantes possuem permissão para ver homens e mulheres agindo estupidamente.

Cliente: Uma pessoa que habitualmente faz uma escolha entre dois diferentes métodos de ser legalmente roubado.

Cremação: Processo onde carnes geladas da humanidade são queimadas.

Dentista: Um prestidigitador que coloca metal em sua boca e retira dinheiro do seu bolso.

Depressão: Estado da mente produzido por uma piada de jornal ou pela contemplação do sucesso de outrem.

Futuro: Período da vida em que nossos negócios prosperam, nossos amigos são verdadeiros e nossa felicidade é assegurada.

Homeopatas: Os humoristas da medicina.

Impunidade: Riqueza.

Pintura: A arte de proteger superfícies lisas da ação do tempo e expô-las para a crítica.

Revólver: Um argumento usado por maníacos temporários.


Sozinho: Em má companhia.

Tédio: Uma pessoa que fala quando você quer que ela escute.

Túmulo: Um local onde os mortos são colocados para esperarem a vinda de um estudante de medicina. 

Virtudes: Certas abstenções.

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