sábado, 8 de fevereiro de 2014

Gertrude is a rose is a prose is a proesia

Cena 1:

Em 1931, um jovem visitante estava ao piano na sala de uma conhecida casa de Paris que costumava receber norte-americanos candidatos a escritores e artistas. Muitos haviam passado por aquele endereço.

Há semanas ele estava por ali, sem saber para onde ir e o que fazer da vida. Publicara um romance, dois livros de poemas, mas não estava convicto da qualidade de sua obra. Esse dilema o perseguiu por toda a vida.

Na sala da casa tinha como ouvintes suas duas anfitriãs. Um casal de mulheres, diga-se de passagem.

A certa altura, aquela com a qual tinha mais afinidades, a mais máscula do par, inquiriu do seu jeito provocativo:

Paul, é um desperdício um homem com teu talento ser apenas escritor.

– Como ser “apenas escritor”?! Saiba você que para chegar a uma mísera página trabalho durante semanas, meses. Será possível que você acha que escrevo num piscar de olhos.

– Não seja reativo, querido. Não se esqueça de que também sou escriba.

– Mas tua literatura é diferente, é uma não-literatura.

– Não me diga que você concorda com aqueles que dizem não passo de uma piadista inspirada.

– Por Deus, Gert, vamos parar com isso. Não estou com disposição para discutir.

– Então se volte para a música. Você é um excelente pianista, tem conhecimentos, técnica e sensibilidade para compor. Por favor, não se torne presa do silêncio como a maioria dos escritores. Que pelo menos você possa ser ouvido.

Cena 2:

Lá estava ele em mais uma das visitas intempestivas. Sempre aparecia à casa de surpresa, bêbado e cheirando mal. Desta vez não foi diferente.

Vinha com um ferimento na perna. Estrepara-se durante um safári.

Tinha uma capacidade ímpar de se ferir. Por estilhaços de granada durante a guerra. Por ter se metido a entrar numa arena de touros na Espanha. E o ferimento mais comum: por ter sido abandonado por mais uma de suas lindas namoradas.

Estava febril. Não se sabia se por decorrência do ferimento ou da bebedeira. De qualquer forma necessitava de cuidados.

A primeira providência foi reunir umas trocas de roupas de coubessem em seus quase 1m90, para que pudesse se desfazer daquele seu uniforme de caçador surrado, cheirando a urina e merda de animais.

Após ter tomado banho, ele trouxe um calhamaço de folhas soltas e entregou à sua amiga, a anfitriã máscula. Ela leu página por página. Depois veio com as habituais considerações:

– Isto é uma reportagem?

– Claro que não, Gert. É um conto!

– Mas a linguagem não é de ficção.

– Ah, não tente me irritar...

– Engano seu, Hank. Sempre fui tolerante com teus escritos.

– Vê problemas no conto?

– Não. Mas deveria ver, Hank. Se teu conto não me incomoda, é porque não é grande coisa. Literatura não é como fazer crochê ou dar tiros em animais.

– Meus leitores, que não são poucos, não costumam reclamar.

– Mas deveriam. Quem não reclama carece de entusiasmo. 

– Ah, Gert, possa cochilar um pouco? Estou com uma dor de cabeça terrível. Depois conversamos.

– Depois, sempre depois...

– Poxa, não vê que estou devastado pela bebida.

– E a literatura, Hank? Quando você começará a escrevê-la?

– Estou no quarto romance e você vem me fazer essa pergunta.

– Você nunca escreveu romances, vocês sempre escreveu reportagens. Aliás, isso que você me deu para ler é mais uma. Não seja preguiçoso, Hank. Faça literatura de fato. É mais trabalhoso, mas será mais honesto com aqueles que te admiram.

Ambas as cenas ocorreram na década de 1930 na residência do casal Gertrude Stein (1874-1946) e Alice Toklas (1877-1976), em Paris.

Gertrude Stein e Alice Toklas

A primeira com Paulo Bowles (1909-1999), a segunda com Ernest Hemingway (1899-1961). Ambos norte-americanos, como as duas...


Bowles acabaria por se desprender do silêncio e passou a conciliar seu trabalho de ficcionista com o de compositor. Em sua casa em Tânger, Marrocos, criou série de peças para dança e canto.


Bowles em Marrocos saboreando haxixe

Ao estimular o amigo Bowles a compor, talvez Gertrude se referisse ao próprio trabalho. Augusto de Campos destacou a “melodia de timbres” dos seus textos.

O compositor norte-americano Virgil Thonson musicou dois textos dela: Capital, Capitals e Four saints in three acts.

A residência de Bowles e de sua esposa, a também escritora Jane Auer, era outro abrigo de referência para escritores e artistas norte-americanos em viagem, só que no norte da África.

Nas décadas de 1940 e 1950 o casal recebeu Allen Guinsberg, Willian Burroughs, Gregory Corso, Truman Capote, Tennesse Williams, Gore Vidal, entre outros.

Ali rolava muita conversa, drogas e sexo. O casal Bowles mantinha um relacionamento aberto. E gostava de compartilhar algo mais com seus visitantes.

Gertrude Stein e Alice Toklas eram mais discretas. Sexo era algo que só dizia respeito às duas.

Além de Bowles e Hemingway, pela casa delas passou a nata da vanguarda das primeiras décadas do século XX:

Pablo Picasso, Matisse, Georges Braque, Juan Gris, Apollinaire, Francis Picabia, Ezra Pound, Jean Cocteau, Vaslav Nijinski, Henry Miller, James Joyce e outros.

Dizem que as duas eram de uma tolerância infinita. Seguidas vezes Hemingway terminou as noites por lá para curar seus porres. Isso sem nunca ter produzido uma linha de ficção que agradasse a Gertrude.

Hemingway sem cerimônia

Ela dizia que até o ócio, para os artistas, tinha que ter finalidade prática. Aceitava a todos em sua residência, mas desde que não estivessem na vã vagabundagem. Com exceção de Hemingway, claro.

Tinha aparência masculina e autoritária. Questionava seus amigos com autoridade e exigia sempre mais deles.

Ela própria foi uma das escritoras mais experimentais do século XX.

Sempre procurou trabalhar com novas técnicas de composição. Detestava se repetir.
Ela e Joyce se admiravam, mas brigavam muito.

Principalmente porque o irlandês não se vergava à sua forte personalidade. Mas bastava fazerem as pazes que ela voltava a se referir a ele, com uma ponta de ironia, de “meu queridinho”.

Uma última briga os afastou para sempre. Joyce passou a chamá-la de "Imperatriz de Paris! e disse que jamais poria os pés do “covil de Lesbos”. Gertrude, por sua vez, o incluiu no rol dos “trapaceiros”.

O "trapaceiro" Joyce

Gertrude tinha vastas idiossincrasias. Queria dissipar de sua vida, sobretudo intelectual, as ditas emoções “femininas”. Então raspou a cabeça e adquiriu, propositadamente, uma imagem próxima à do imperador romano César.

Stein, a "Imperatriz de Paris"

Todos seus amigos eram homens. Quando chegavam acompanhados por suas esposas, ela mal as comprimentava. Enquanto Gertrude discutia e bebia com os homens, Alice recepcionava as mulheres em um ambiente à parte.

Dizia que a principal influência para sua literatura não viera de escritores, mas de um pintor: Paul Cézanne (1839-1906). Das telas impressionistas do francês teria vindo seu estilo de escrita repetitiva e hipnótica.

Deixava os editores pirados com sua pontuação personalíssima, com as suas frases inacabadas que eram retomadas mais adiante.

A prosa/poesia de Gertrude é abstrata, com o propósito de corromper a semântica e a lógica castiça adotada.

Antes dos dadaístas e surrealistas, praticou o “automatismo psíquico”.

Sua linguagem foi se tornando cada vez mais sincrética. Passou a utilizar como temas os próprios recursos expressivos experimentados. Radicalmente, "arte pela arte".

Eliminou o parágrafo, a frase. Seus últimos experimentos foram vocábulos com poucas sílabas, o “inglês básico”, conforme ela própria dizia.

Escreveu todo um livro voltado à utilização das formas verbais, radicalmente experimental.  

Mário Faustino foi um dos primeiros a divulgar a obra de Gertrude Stein no Brasil, em seu suplemento dominical no Jornal do Brasil. Isso nos anos 1960.

No mesmo período, os poetas concretos a incluíram no seu seleto grupo de autores de referência. Tardiamente, é bom que se diga.

Também nos anos 1960, Brenno Silveira e José Paulo Paes verteram para o português algumas contos de Gertrude no livro Três vidas.

Livio Tratenberg musicou trechos de Four saints in three acts.

Adriana Calcanhoto incluiu em seu disco A fábrica do poema um trecho de Portrait of Picasso.

Para muitos, Gertrude e o “trapaceiro” Joyce maltrataram a língua inglesa, desfigurando-a, mas deram uma injeção de vida ao idioma superior à maioria dos autores modernos de língua inglesa.

Gertrude foi bastante influenciada por Willian James (1842-1907), um dos criadores do pragmatismo, juntamente com Charles Sanders Pierce (1839-1914).

Willian James era irmão do escritor Henry James

O mesmo James também influenciou o movimento futurista italiano. Fillippo Marinetti (1876-1944) fez questão de apresentá-lo a Vladmir Maiakovski, em sua visita à Rússia.

Mais tarde Marinetti remeteria a Maiakovski obras de James traduzidas para francês, idioma que o poeta russo dominava.

Pierce influenciou outros movimentos de vanguarda, dentre os quais a poesia concreta brasileira. Em seus estudos sobre signos chegou as conclusões muito próximas dos estudiosos do formalismo russo, como Roman Jacobson (1896-1962).

Durante a Primeira Guerra Mundial, Gertrude e Alice fizeram questão de permanecer em Paris.

Compraram um automóvel Ford, a que chamaram "Auntie", e usaram-no para ajudar a Cruz Vermelha a transportar feridos.

Também trabalharam clandestinamente para a Resistência, conseguindo que os ocupantes nazistas nunca descobrissem que eram judias.

Antes de morrer, na cama do hospital onde estava internada, Gertrude teria perguntado a  Alice:

– Queridinha, qual é a resposta?

Uma vez que a companheira não lhe respondeu, insistiu.

– Então, qual é a pergunta?!

Seu humor nonsense permaneceu intacto até o fim.

A seguir, trecho do conto Melanctha com a tradução (que contou com apoio da minha filha Ana) na sequência de cada parágrafo.

Note as repetições hipnóticas do texto que remetem a um outro tipo de percepção do que se sucede, para além de uma simples leitura.

die. Dr. Campbell said he would come back to help Melanctha watch her, and to do anything he could to make 'Mis' Herbert's dying more easy for her. Dr. Campbell came back that evening, after he was through with his other patients, and then he made 'Mis' Herbert easy, and then he came and sat down on the steps just above where Melanctha was sitting with the lamp, and looking very tired. Dr. Campbell was pretty tired too, and they both sat there very quiet.

morte. Dr. Campbell disse que voltaria para ajudar Melancha a cuidar dela, e para fazer qualquer coisa a seu alcance para que a morte de 'Mis' Herbert fosse mais fácil de ser suportada. Dr. Campbell voltou naquela noite, quando terminou de atender aos seus outros pacientes, tranquilizou 'Mis' Herbert, e então ele foi e sentou-se nos degraus logo acima de onde Melanctha se sentava com a lâmpada, parecendo estar muito cansada. Dr. Campbell também estava muito cansado e ambos sentaram-se em silêncio.

"You look awful tired to-night, Dr. Campbell," Melanctha said at last, with her voice low and very gentle, "Don't you want to go lie down and sleep a little ? You're always being much too good to everybody, Dr. Campbell. I like to have you stay here watching to-night with me, but it don't seem right you ought to stay here when you got so much always to do for everybody. You are certainly very kind to come back, Dr. Campbell, but I can certainly get along tonight without you. I can get help next door sure if I need it. You just go 'long home to bed, Dr. Campbell. You certainly do look as if you need it."

"Você parece muito cansado hoje a noite, Dr. Campbell," finalmente disse Melanctha, com sua voz baixa e delicada, "Você não quer se deitar e dormir um pouco? Você é sempre bondoso demais com todos, Dr. Campbell. Eu gostaria que você ficasse e me ajudasse a cuidar dela esta noite comigo, mas não me parece certo que você tenha que ficar aqui quando você tem tanto para fazer por outras pessoas. Certamente é muito gentil da sua parte voltar, Dr. Campbell. Tenho certeza de que posso continuar sem você. Também posso buscar ajuda no vizinho, caso precise. Vá para casa descansar, Dr. Campbell, você certamente precisa.

Jefferson was silent for some time, and always he was looking very gently at Melanctha. "I certainly never did think, Miss Melanctha, I would find you to be so sweet and thinking, with me." "Dr. Campbell," said Melanctha, still more gentle, "I certainly never did think that you would ever feel it good to like me. I certainly never did think you would want to see for yourself if I had sweet ways in me."

Jefferson ficou quieto por um momento, sempre olhando gentilmente para Melanctha. "Nunca pensei, Miss Melanctha, que você fosse tão doce e tivesse tanta consideração por mim.” "Dr. Campbell," disse Melanctha, ainda mais delicadamente, "eu certamente nunca pensei que você viesse a gostar de mim. Eu nunca pensei que você gostasse de ver por conta própria que meus modos são delicados.”

They both sat there very tired, very gentle, very quiet, a long time. At last Melanctha in a low, even tone began to talk to Jefferson Campbell.

Ambos se sentiram muito cansados, muito sutis, muito quietos, por longo tempo. Finalmente Melanctha, num tom ainda mais baixo começou a falar com Jefferson Campbell.

"You are certainly a very good man, Dr. Campbell, I certainly do feel that more every day I see you, Dr. Campbell, I sure do want to be friends with a good man like you, now I know you. You certainly, Dr. Campbell, never do things like other men, that's always ugly for me. Tell me true, Dr. Campbell, how you feel about being always friends with me. I certainly do know, Dr. Campbell, you are a good man, and if you say you will be friends with me, you certainly never will go back on me, the way so many kinds of them do to every girl they ever get to like them. Tell me for true, Dr. Campbell, will you be friends with me."

"Você é certamente um homem bom, Dr. Campbell, eu sinto que quanto mais o vejo a cada dia, Dr. Campbell, mais quero ser amiga de um homem bom como você, agora você sabe disso. Você certamente, Dr. Campbell, nunca faz coisas como os outros homens, coisas que me parecem muito feias. Me diga a verdade, Dr. Campbell, como você se sente sobre ser sempre meu amigo. Eu certamente sei, Dr. Campbell, você é um homem bom e se você disser que quer ser meu amigo, você certamente não voltará atrás da mesma maneira que muito deles fazem com todas as garotas que acabam gostando deles. Me diga a verdade, Dr Campbell, você vai ser meu amigo?"

"Why, Miss Melanctha," said Campbell slowly, "why you see I just can't say that right out that way to you. Why sure you know Miss Melanctha, I will be very glad if it comes by and by that we are always friends.”

"Ora, Miss Melanctha," disse Campbell lentamente, "veja bem, eu não posso dizer tão diretamente para você”. Com certeza você sabe, Miss Melanctha, ficarei muito feliz se tudo se endireitar e possamos ser sempre amigos.”

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