sábado, 8 de fevereiro de 2014

Literatura de verdade


É salutar que o mercado editorial seja pujante, mesmo que por meio de muito lixo impresso, para que a produção literária viceje?

Em outras palavras, que se venda livros (mesmo que porcarias) para que os originais de quem faz literatura de  verdade saiam das gavetas – ou dos arquivos dos computadores – e venham a público?

Sei não.

Hoje temos grandes livrarias, venda online de livros e a possibilidade de comercializá-los digitalizados. Mas as oportunidades de publicação de novas boas obras, em particular as mais inventivas, estão cada vez mais restritas.

Publica-se muito mais que nas décadas anteriores, mas apenas aquilo que tem viabilidade comercial garantida.

Ou seja, obras ou autores já consolidados, biografias a dar no pau, livros religiosos ou de autoajuda, literatura fantástica de quinta categoria e outras abobrinhas que dependem mais de um bom aparato de marketing que de qualidade para serem aceitos pelos editores.

Autores novos – ou nem tanto, como o meu caso – bancam as próprias edições ou recorrem a concursos para ter vaga visibilidade.

Mas nada vendem.

E quando vendem são meia dúzia de exemplares por meio de eventos de lançamento, nos quais a aceitação se dá por parte de amigos e familiares que os adquirem “para dar uma força” e muitas vezes nem leem.

Resumindo, a literatura de verdade, aquela que viabiliza a permanência do processo cultural, que possibilita novas maneiras de expressar pensamentos e opiniões, permanece no limbo.

Qualidade literária não se mede propriamente pelo que se faz, mas pelo que não se faz. Como diria Augusto de Campos: evidencia-se pelo número de recusas e não pelos acertos cosméticos.

Diria Ezra Pound (sempre ele!):

"Salvo raros casos de invenções nas várias ciências, nas artes plásticas, na arquitetura e na música, o indivíduo não pode pensar e comunicar seu pensamento, os governantes e os legisladores não podem agir efetivamente ou estruturar suas leis sem as palavras.


"De modo que a solidez e validade das palavras ficam a cargo dos malditos e desprezados litterati."

Quando o trabalho deles se deteriora, se torna inexpressivo, malformatado e inexato, ou então excessivo ou empolado, todo o mecanismo do pensamento e da ordem social e individual fica arruinado.

Os grandes escritores – malditamente famosos ou malditamente desconhecidos – não precisam de identidade política, projetos de marketing, apoio governamental, apelo comercial ou o raio que o parta.

Pouco importa se o autor é maluco de pedra, homem ou mulher, veado ou não veado, feio ou bonito, branco, preto, azul ou cor de rosa, se se entope de álcool e drogas, se é direitista ou esquerdista, se age movido por vaidade pessoal ou não.

Como diria a figura abaixo:


Paulo Leminski e poema de sua autoria
 O xis da questão é mais objetivo, mecânico até.

Na medida em que teu trabalho for exato, fiel à consciência humana, à verdade mais digna e latente, à natureza do homem como exato na formulação dos seus desejos, será durável, “útil”...


Ezra Pound diria mais:

“Mantém a precisão e a clareza de pensamento, não apenas em benefício de uns poucos diletantes e ‘amantes da literatura’.”

Ou seja, mantém também sadio o pensamento fora dos círculos literários e na existência não-literária, na vida geral do indivíduo e da comunidade.

Não se trata, portanto, de escrever e publicar um livro, pô-lo para consumo nas vitrines e conquistar pareceres favoráveis.

É algo muitíssimo mais abrangente que tais picuinhas.

Alguns amigos me questionam:

Por que tanto esforço para publicar um livro? Afinal, não se vende nada, ninguém lê nada, etc.

É por isso mesmo que o esforço se faz necessário.

Espero ter expressado com clareza meus motivos. Assim sendo, O homem que sabia ouvir está por aí.

Outros livros estão a caminho, meu ou de quem quer seja, para dar vez à literatura de todos os tempos e de todas as culturas, vindo à tona mediante muito trabalho e seleções criteriosas.

Este meu livro é a escolha que me coube em meio a tantas recusas.

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