sábado, 8 de fevereiro de 2014

O voo leve da ave na trova de Bernart de Ventador

Prossegue a sequência de artigos que prometi, na edição anterior, sobre a poesia cantada dos trovadores medievais, em especial os da região da Provença (os chamados occitano trobaritz), no sul da França.

A língua occitana ou provençal, também conhecida como langue d'oc, é uma língua românica falada no sul da França (ao sul do rio Loire), assim como em alguns vales alpinos na Itália e no Val d'Aran, na Espanha.

O nome da língua vem de òc, a palavra occitana para sim, em contraste com oïl, (o ancestral do francês moderno oui), francês do norte — a langue d'oïl.

A palavra òc provém do latim hoc, enquanto oïl se origina da voz latina hoc ille.

A palavra occitano é derivada da região histórica da Occitânia, que por sua vez é derivada de Aquitânia, uma antiga região administrativa do Império Romano.

Na edição passada comentei a imponente e provocativa poesia do trovador guerreiro Bertran de Born.

Agora comento a poesia leve e sensual de Bernart de Ventador (1130-1200).

Imagem de Bernart em iluminura

Can vei la lauzeta mover (Ao ver a ave leve mover) é uma de suas canções mais conhecidas.

É sobre o sentimento do amante por um amor não correspondido, tornando-se triste e melancólico...


Ouçam-na e vejam a letra, a seguir, com versão de Augusto de Campos, após cada estrofe. Aqui não é cantado todo o poema. Apenas as duas primeiras estrofes e as duas últimas:




Can vei la lauzeta mover

Can vei la lauzeta mover
de joi sas alas contra•l rai,
que s'oblida e•s laissa chazer
per la doussor c'al cor li vai,
ai! tan grans enveya m'en ve
de cui qu'eu veya jauzion!
Meravilhas ai, car desse
lo cor de dezirer no•m fon.

Ao ver a ave leve mover
Alegre as alas contra a luz
Que se olvida e deixa colher
Pela doçura que a conduz
Ah! Tão grande inveja me vem
Desses que venturosos vejo!
É maravilha que o meu ser
Não se dissolva de desejo

Ai, las! tan cuidava saber
d'amor, e tan petit en sai,
car eu d'amar no•m posc tener
celeis don ja pro non aurai.
Tout m'a mo cor, e tout m'a me,
e se mezeis e tot lo mon;
e can se•m tolc, no•m laisset re
mas dezirer e cor volon

Ah! Tanto julguei saber
De amor e menos que supus
Sei, pois amar não me faz ter
Essa a que nunca farei jus.
A mim de mim e a si também
De mim e tudo que desejo
Tomou e só deixou querer
Maior e um coração sobejo

Anc non agui de me poder
ni no fui meus de l'or'en sai
que•m laisset en sos olhs vezer
en un miralh que mout me plai.
Miralhs, pus me mirei en te,
m'an mort li sospir de preon,
c'aissi•m perdei com perdet se
lo bels Narcisus en la fon.

Eu renunciei a me reger
Desde o dia em que os olhos pus
No olhar que vi transparecer
No belo espelho em que reluz
Espelho, pois que te vi bem
Morri na luz do teu reflexo
Como, perdido de se ver
Narciso no seu próprio amplexo

De las domnas me dezesper;
ja mais en lor no•m fiarai;
c'aissi com las solh chaptener,
enaissi las deschaptenrai.
Pois vei c'una pro no m'en te
vas leis que•m destrui e'm cofon,
totas las dopt'e las mescre,
car be sai c'atretals se son.

Nas mulheres não sei mais crer
Nenhuma agora me seduz
Se ela não quer me conhecer
As desconheço em minha cruz
Nenhuma delas me convém
E o que elas fazem não tem nexo
De nenhuma quero saber
Desprezo a todas do seu sexo

D'aisso.s fa be femna parer
ma domna, per qu'e•lh o retrai,
car no vol so c'om deu voler,
e so c'om li deveda, fai.
Chazutz sui en mala merce,
et ai be faih co•l fols en pon;
e no sai per que m'esdeve,
mas car trop puyei contra mon.

Bem feminino é o proceder
Dessa que me roubou a paz
Não querer o que deve querer
E tudo o que não deve faz
Má sorte enfim me sobrevém
Fiz como um louco numa ponte
E tudo me foi suceder
Só porque quis mais horizonte

Merces es perduda, per ver
(et eu non o saubi anc mai!),
car cilh qui plus en degr'aveI,
no•n a ges; et on la querrai?
A! can mal sembla, qui la ve,
qued aquest chaitiu deziron
que ja ses leis non aura be,
laisse morir, que no l'aon!

Piedade já não pode haver
No universo para os mortais
Se aquela que a devia ter
Não tem, quem a terá jamais?
Ah! Como acreditar que alguém
De olhar tão doce e clara fronte
Deixe que eu morra sem beber
Água de amor em sua fonte?

Pus ab midons no•m pot valer
precs ni merces ni•l dreihz qu'eu ai,
ni a leis no ven a plazer
qu'eu l'am, ja mais no•lh o dirai.
Aissi•m part de leis e•m recre;
mort m'a, e per mort li respon,
e vau m'en, pus ilh no•m rete,
chaitius, en issilh, no sai on.

Já que ela não me quer valer
E não se move com meus ais
E nem sequer me dá prazer
Que a ame, não lhe direi mais
Parto e abandono todo o bem
Matou-me e, morto, lhe respondo
Me vou, pois ela não me quer
A amargo exílio, não sei onde

Tristans, ges no•n auretz de me,
qu'eu m'en vau, chaitius, no sai on.
De chantar me gic e•m recre,
e de joi e d'amor m'escon.

Tristão, não devo mais dizer
Só sei que vou, não sei aonde
Calo o meu verso e o meu viver
Da alegria e do amor me escondo

É uma canção de extraordinária beleza e delicadeza. Uma das mais perfeitas que tive o prazer de ouvir. Nove séculos depois de composta, continua a nos tocar profundamente.

No suave balanço das vogais abertas e fechadas, sob consoantes fricativas, o poeta expressa o voo melódico da ave, com languidez e melancolia.

A influência da música árabe é evidente, como em todo cancioneiro provençal.


Bernart foi por excelência um poeta do amor cortês.

Aborda a perturbação do amante na presença da mulher amada. Traça o retrato do amante mártir.

A afirmação de que o tormento passional não é uma forma de desgraça, mas um testemunho de que o poeta ama verdadeiramente como ninguém.

A pintura da mulher como criatura de beleza incomparável. Seguida de declarações de vassalagem com a promessa de servi-la e honrá-la.

As melodias são perfeitamente casadas às letras.

Grande poeta, deixou um lastro de imagens que foi, posteriormente, consagrado pela poesia de Dante Alighieri e, mais tarde, pela tragédia passional da poesia de Luís de Camões, incluindo  o lindo trecho sobre o mito de Inês Pereira em Os Lusíadas.

A vida de Bernart foi repleta de desavenças amorosas.

O poeta era de família humilde, filho de criados do senhor feudal Eble III de Ventadorn, que também foi importante trovador. O próprio Eble o teria instruído na arte da composição.

Suas primeiras canções foram dirigidas à esposa deste, Margarita de Turenne, por quem se enamorou profundamente. Razão pela qual foi expulso do castelo.

Então seguiu para a corte de Eleonor da Aquitânia (de origem provençal), na Normandia, pela qual também se apaixonou.

Imagem de Eleonor da Aquitânia

Futura rainha da Inglaterra, Eleonor foi esposa do rei inglês Henrique Plantageneta – casamento do qual viria a nascer Ricardo Coração de Leão.

Bernart conheceu glória e prestígio em vida. Muitos dos trovadores de seu tempo o mencionaram em suas canções e se basearam nas suas obras – traduzidas ou adaptadas, ainda na Idade Média, para várias outras línguas.

Um dos principais representantes da vertente do trobar leu, ou trovar suave, leve, da poesia provençal, Bernat teve entre seus continuadores o trovador alemão Walther Von Vogelweide (1170-1230).

Foi um grande viajante, frequentando várias cortes europeias e expandindo os horizontes da poesia e música provençal.

A poesia de Bernart é idealista, apaixonada e sensual. Mais do que apenas referências a um amor platônico, como era comum na época.

Usou passagens de clara sensualidade, ora descrevendo o corpo de sua dama, ora demonstrando o desejo que ela lhe causava.

São constantes em sua obra referências à mitologia greco-romana, com metáforas bem estruturadas e métrica perfeita.

Para Bernart, cantar é amar, sofrer, morrer e renascer.

Depois de muitas andanças e ameaças, devido às suas paixões proibitivas, terminou a vida num monastério.

Bernart é um dos poucos poetas provençais cuja música de suas trovas chegou aos nossos dias. Dos 45 poemas de sua autoria reunidos, 18 mantêm as músicas intactas.

Vejam aqui os poemas de Bernart cujas músicas foram preservadas.

Vale lembrar que a cruzada cristã contra a cultura albigense, considerada apócrifa pela Igreja Romana do Ocidente, dispersou os trovadores e destruiu muitos dos registros de sua produção.

Um comentário:

  1. Há também a bela interpretação dessa canção neste link: http://www.youtube.com/watch?v=2l-H6eG2SsY&list=FLZbuBNR_fP-MT-Y06mwAjvg

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