sábado, 8 de fevereiro de 2014

Quando a realidade é mais ousada que a ficção

O escritor inglês Frederick Forsyth foi piloto da Royal Air Force (RAF) na 2ª Guerra Mundial.

Depois cobriu os bastidores da guerra fria como correspondente da Agência Reuters em vários países, dentre os quais a Alemanha Oriental e a Tchecoslováquia.

As informações sobre o mundo da espionagem reunidas durante o período que foi jornalista foram mais tarde utilizadas em seus romances e novelas policiais.

Uma das obras que lhe trouxe maior notoriedade foi O Dia do Chacal, sobre as articulações da extrema direita francesa para assassinar o general Charles De Gaulle, em 1963.

Frederick Forsyth

Além de vender milhares de exemplares, o romance resultou em dois filmes longa-metragem.

E passou a obra mítica quando, no início dos anos 1970, um dos exemplares foi encontrado no quarto do hotel onde se hospedara um terrorista cuja identidade até então era desconhecida pelos vários serviços secretos que o caçavam.

O jovem Ilich Ramírez Sánchez, quando ainda não era o temido "Chacal"

Antes que se soubesse que o nome do terrorista era Ilich Ramírez Sánchez, e que se tratava de um cidadão de classe média alta venezuelana que frequentava até a high society londrina, o romance rendeu ao terrorista o apelido de “Chacal”.

“Carlos” era o verdadeiro nome de guerra de Sánchez. O apelido "Chacal" foi-lhe dado pela imprensa, com base no título da novela de Frederick Forsyth que ela andava lendo.

Mas, convenhamos, o terrorista real – o “Carlos” da pesada – foi muitíssimo mais interessante que o personagem inventado por Forsyth...


Ao contrário de outro esquerdista sul-americano que também pegou em armas, o argentino Ernesto Che Guevara (1928-1967), o venezuelano Sánchez procurou agir em silêncio, a seguir suas próprias regras e nunca foi bem-visto pela esquerda internacional.

Mesmo seu conterrâneo Hugo Chaves, o garganteador-mor da esquerda populista, não nutria simpatia por ele.

Guevara tornou-se um mito, mas jamais foi um homem da ação direta, inclusive porque a saúde frágil não lhe permitia.

Também não foi um ideólogo. Os escritos do brasileiro Carlos Marighella, fundador da Ação Libertora Nacional (ALN) sobre guerra de guerrilhas são muito mais relevantes que os de Guevara.


Então por que o estrangeiro Guevara se destacou entre os companheiros dos irmãos Castro durante a revolução cubana? Porque dentre todos foi o mais conivente e o que menos trouxe problemas à suserania da família à frente do novo governo.

Outro guerrilheiro importante da revolução cubana, Camilo Cienfuegos, foi morto em circunstâncias, no mínimo, estranhas. Outros dirigentes importantes da revolução também “desapareceram”.

Até que os Castros decidiram que era o momento de se desfazer de Guevara, que estava se tornando um peso morto para o governo, já que mandava e desmandava sem muita aptidão para as funções executivas para as quais fora escalado.

O argentino foi então induzido a se tornar um mercenário a serviço de Cuba. Mas não conseguiu se firmar na África. Ao voltar-se para a América do Sul, na tentativa de criar um movimento insurgente na Bolívia, resultou no fiasco que todos conhecemos.

Bin Laden, o grande terrorista recente, foi um grande estrategista e articulador (evidente que não estou aqui avaliando as questões éticas relacionadas a qualquer tipo de terrorismo).

Provinha de uma das famílias mais ricas da Arábia Saudita e, como a maioria dos bem-nascidos, não botava a mão na massa. Mandava, como os Castros em Cuba.

Os EUA o mataram porque tinham que dar uma resposta política ao atentado de 11 de setembro, por ele idealizado.

Eliminaram mais o mito, por razões políticas, inclusive internas, não propriamente pela ameaça real.

O venezuelano Sánchez, diferente de Guevara e Bin Laden, embora fosse também um bem-nascido, foi o protagonista de todas as suas ações.

Aliás, foi com ele que a guerrilha islâmica atual aprendeu que nas ações terroristas, mais que os resultados práticos o importante são os resultados propagandísticos. Nenhum terrorista, como “Carlos”, soube usar tão bem a mídia a seu favor.

Até o episódio do hotel em Paris, quando matou dois policiais desarmados e descobriram, entre as coisas deixadas, o exemplar do romance Forsyth, mantinha dupla identidade.

Era, por um lado, um comandante em ascensão da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e, por outro, um comportado estudante venezuelano mantido pela família em Londres.

Participava de eventos sociais londrinos, no papel de um gordinho tímido que tinha dificuldades de se relacionar com as mulheres. O “Carlos” de verdade era um garanhão e de uma audácia que não media consequências.

Evidente que os atentados de 11 de setembro nos EUA, articulados por Bin Laden, dificilmente serão superados como ação de impacto destrutivo.

Mas nenhum guerrilheiro conseguiu empreender tantas ações de alto risco quanto “Carlos”. Isso num período em que era caçado por todos os serviços secretos, inclusive pela KGB soviética.

Logo que sua identidade foi revelada, após o episódio do hotel, sequestrou os 62 delegados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e se mostrou explicitamente para as câmeras.

Daí por diante inverteu tudo: passou a propagandear a própria imagem.

“Carlos” conseguiu se indispor com todas as searas políticas, à esquerda e à direita. A própria FPLP acabou por expulsá-lo.

Tornou-se um terrorista solitário e criou a Organização da Luta-Armada Árabe (na verdade, um exército mercenário de esquerda).

Quando prenderam sua linda amante alemã Magdalena Koff, também terrorista, o homem ficou furioso e praticou uma dezena de atentados contra alvos franceses, com dezenas de vítimas, por motivação pessoal.

Magdalena Koff

Os países comunistas fecharam-lhe de vez as fronteiras. Nos anos 1990 encontrava-se no Sudão, não na condição de protegido, mas como refém do governo local.

O governo sudanês o tinha como moeda de troca e acabou por vendê-lo à Direção de Segurança Territorial (DST), polícia secreta francesa, que por uma década procurara capturá-lo ou matá-lo.

Foi a julgamento em Paris, em 2011, e condenado a prisão perpétua.

“Carlos” mudou a forma de atuar do terrorismo internacional, elegendo alvos humanos inocentes como trunfos.

Seu pai era um advogado venezuelano comunista. A mãe vinha de uma família burguesa católica. Quando os pais se separaram, foi com a mãe para Londres e matriculou-se numa universidade da elite local.

O pai queria que estudasse na Universidade de Sorbonne. Não acatou conselhos de nenhum dos dois. Quando se deram conta, estava na Universidade Patrice Lumumba, em Moscou.

A essa altura falava correntemente espanhol, árabe, russo, inglês e francês. Em Moscou, não seguiu nenhuma das recomendações do regime e foi praticamente expulso do então país comunista.

Já como militante da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), começou a ganhar notoriedade quando assassinou o empresário Joseph Shieff, da Federação Sionista do Reino Unido e Irlanda.

Em 1975, executou o sequestro que lhe deu fama mundial: o dos onze ministros de países-membros da Opep, que estavam reunidos em Viena, Áustria.

Fora apenas o início. Comandou (ou executou sozinho) uma sucessão de atentados. Em todos, sempre conseguia fugir das polícias secretas.

Quanto aos colaboradores de “Carlos”, a lista é extensa: vários países do leste europeu, o líbio Muammar Al-Gaddafi, o iraquiano Saddam Hussein, o sírio Hafez Al-Assad, o cubano Fidel Castro, as Brigadas Vermelhas da Itália, o M-19 colombiano e o grupo Baader-Meinhof alemão.

Mas todas essas alianças foram eventuais. “Carlos” agiu sempre com independência e, em várias ocasiões, os aliados tornaram-se seus inimigos.

Sua retirada de ação foi decorrente do fim da guerra fria e dos problemas de saúde. Os serviços como mercenário de esquerda não eram mais solicitados. Até que o governo sudanês decidiu entregá-lo ao serviço secreto francês.

Em dezembro de 1997 recebeu a sentença de prisão perpétua e, no julgamento de 2011, pela série de atentados com vítimas em território francês, foi novamente condenado.

Para seu reduzido círculo de admiradores, foi um combatente anti-imperialista romântico; para os muitos que o odeiam, foi um assassino de sangue frio.

O link para documentário sobre “Carlos”, a seguir, apresenta a fita do lado oposto. Parece um capricho com esta figura ímpar que nunca se submeteu a qualquer governo ou organização política.

Tudo bem, o interessam as informações e algumas imagens do seu engenho propagandístico destruidor:


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