domingo, 23 de março de 2014

A canção de amor de Thomas Stearns Eliot

Anthony Burgess (1917-1993) não foi só um dos principais escritores ingleses do século XX, como também um dos principais conhecedores da literatura de seu país.

Na sua opinião, altamente respeitável, os principais escritores modernos da Inglaterra foram três estrangeiros:

O polonês Joseph Conrad (1857-1924), o irlandês James Joyce (1882-1941) e o norte-americano Thomas Stearns Eliot (1888-1965), mais conhecido por TS Eliot.

T.S. Eliot fotografado por Man Ray

Conrad e Eliot eram imigrantes. Joyce nem residiu na Inglaterra; mas enquanto viveu esta mantinha o exército ocupando sua pátria e fez o que pode para transformar os irlandeses em súditos da rainha.

Eliot foi um dos principais poetas modernos de língua inglesa. Foi também importante dramaturgo e crítico literário...



Nasceu em St. Louis, Missouri, EUA, e mudou-se para a Inglaterra em 1914.

Era o principal amigo do também norte-americano Man Ray em Londres – na edição anterior publiquei sobre ele o artigo As a man Ray –, na casa do qual se hospedava quando ia à Inglaterra.

Embora tenha adotado cidadania britânica, a grande influência sobre a formação de Eliot foi o pai do simbolismo francês, Charles Baudelaire (1821-1867), que por sua vez foi grandemente influenciado por um norte-americano: Edgar Allan Poe (1809-1849).

Charles Baudelaire

A ida de Eliot para a Inglaterra se deu por intermédio de outro norte-americano, o grande poeta e crítico literário Ezra Pound (1885-1972), que editava em Londres a revista Poetry.

Ezra Pound
Na qual publicou, em 1915, o poema The love song of J. Alfred Prufrock, composto por Eliot aos 22 anos.

As imagens utilizadas, a linguagem e os recursos construtivos do poema causaram impacto, num período em que a então modorrenta poesia inglesa era ainda fortemente influenciada pelo romantismo.


No poema, o personangem Prufrock lamenta sua inércia física e intelectual, as oportunidades que perdeu ao longo de sua vida e a falta de um progresso espiritual, recorrente de amor carnal que não conseguira atingir.

A estrutura do poema foi imensamente influenciada por Dante Alighieri.

Há ainda referências a Shakespeare e outras tantas obras literárias: essa técnica de alusão e citação foi muito usada na poesia posterior de Eliot, inclusive no seu poema mais célebre – The waste land – escrito sete anos depois.

Eu e meu amigo Paulo Amaral – postei sobre ele e Renato Pompeu na edição anterior o artigo Dois cabras cobras que trocaram filhos por obras – adorávamos o poema.

Já havíamos produzido sobre o refrão – “In the room woman come and go / talking about Michelangelo” – um poema gráfico, juntamente com Daniel Soares.

Paulo, na época, andava um bocado preocupado. O tratamento ao diabetes – disfunção que o matou alguns anos depois – que dera resultado por um tempo se mostrava insatisfatório.

As crises de hipoglicemia eram cada vez mais frequenes e violentas. Ele sabia que seu corpo não resistiria por muito tempo.

Para piorar, seus problemas de saúde estavam prejudicando seu trabalho como professor e arquiteto, colocando em risco seu meio de sobrevivência. Enfim, começava a ter a clara noção de o círculo estava se fechando.

Começamos trocar mensagens sobre as possibilidades de traduzir o refrão do poema de Eliot. Aquilo durou um bocado de tempo. Passamos, então, a dissecar o poema, parte por parte.

Quando nos demos conta, o poema estava vertido para o português.

The love song of J. Alfred Prufrock começa com uma citação do próprio Eliot de um dos cantos da Divina Comédia, de Dante Alighieri:

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mais tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma per cìo che giammai di questo fondo
Non tornò viva alcun, s’i’odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.

(Se eu cresse que minha réplica pudesse
Tornar ao mundo na pessoa que sou
Esta chama estaria intensa mas fosca
Nem por de menos nem mais a gosto
Não sou alguém de vero ou falso
Nem por temor da infâmia respondo)

*  palavras de Guido de Montefeltro a Dante no Inferno, Divina Comédia, Canto XXVII
               
A canção de amor de J. Alfred Prufrock

Vamos lá, você e eu
Quando a tarde se expande contra o céu
Como anestesia no sangue de um doente
Vamos lá, por incertas ruas desertas
Murmúrios recolhidos, incertos
Impaciência noturna em noitadas nas pensões
Restaurantes às moscas fedendo ostras
Ruas que se trançam como tramas tediosas
Para levar até você a irresistível questão
Ó, não responda, “O que é isto?”
Vamos ver o que é

Na sala as mulheres lá e cá
Andam falando de Michelangelo

A neblina amarela que se esfrega às claras na vidraça
A fumaça amarela que esfrega as fuças na janela
Lambida de língua nos cantos da tarde
Ela se farta das poças d’água sem jeito nas sarjetas
Coloca-se bem abaixo das falanges que descem da fuligem
Cai do terraço
Dá um súbito salto
Ao ver que esta é apenas outra noite de outubro
E torna à casa e nela quase se enclausura

E decerto haverá tempo
Para a fumaça amarela que se escorrega pelas ruas
Esfregando as ancas nas janelas
Haverá tempo, muito tempo
Para preparar tua cara e espremer os cravos
Existirá bastante tempo para tentar e tramar
Tempo para todos os tipos de trampo
Erguer o fardo, jogar no prato uma questão
Tempo para você, tempo para mim
E tempo ainda para umas cem digressões
Umas cem visões e revisões
Antes de tomar teu café com pão

Na sala as mulheres lá e cá
Andam falando de Michelangelo

E decerto existirá tempo
Para se questionar, “Me atrevo?”, “Me atrevo?”
Tempo para subir e descer escadas
Com a mancha da careca espelhada na cabeça –
Eles dirão: “Como teus cabelos estão brancos!”
Teu casaco de inverno, tua corrente colada ao peito
O black-tie modesto, o colarinho fincado com alfinete
Eles dirão: “Como tuas pernas e braços estão finos!”
Poderá desafiar um distúrbio do universo?
Em um minuto existirá tempo, muito tempo
Para decisões e revisões com mais um minuto ao reverso

Para ter tudo pronto, conhecer outro tanto
Reconhecer a noite, a manhã, o entardecer
Ter medido cada dia com colheradas de sal
Vozes moribundas em agonia profunda
Baixar o volume da música em uma sala sem som
De que maneira ir adiante?

E já que tenho os olhos abertos, conhecerei a todos
Olhos que se fixam numa frase formulada
Quando estão desperto se espetam
Quando alfinetados se insinuam na parede
Então, só para começar
Escarro as baganas dos meus dias e idas
De que maneira ir adiante?

E já que tenho os braços prontos, abraços, prantos
Braços braceletes, despidos
(Na semi-luz reluz os pêlos)
Perfume de vestido
Que me faz querer ver tudo
Braços se embaraçam, xale com casaco
De que maneira ir adiante?
Por onde me acho?

Devo dizer: tenho vivido no escuro das vielas
Assistindo a fumaça que sobe das janelas
Aspirando o pó das veias de um homem sem mangas
Devo ter um par de garras esfarrapadas
Para correr conciso o fundo silencioso do oceano?

E à tarde, à noite, dormir pacificamente
Alisando os dedos de serpente
Anestesiados... dedicados... doentes
Estendidos pelos pisos, aqui bem perto da gente
Devo, depois do chá, do bolo, do confete
Ter ainda energia para um momento de crise?
Embora tenha chiado, orado quase chorando
E mantenha a careca (menosprezada cabeça) degolada num prato
Com pranto de profeta – sequer um grande assunto
Assisto centelhas de grandeza
E vejo centenas de homens fúteis
Com seus casacos e casos que me deixam puto

E teria tido algum valor, depois de tudo
Depois das xícaras, da marmelada, do chá
Por entre louças, conversas loucas
Teria ainda assim valido a pena
Dar uma dentada no assunto
Comprimir o universo como uma bolha de chiclete
Girar em torno de uma questão opressiva
Para dizer: “Sou Lazarus, venho dos mortos
Venho a você dizer tudo. Tenho dito!”
Porei os olhos num traseiro
E mais direi: “Isto não quer dizer tudo
Isto é, tudo”

E teria tido algum valor, depois de tudo
Teria ainda assim valido a pena
Depois do abandono, das badernas
Depois dos romances baratos, das xícaras de chá
Dos desencantos pelos cantos
O que mais poderia ser dito?
Como se uma lanterna mágica varasse os nervos de uma tela
Teria ainda assim valido a pena
Limpar a bunda com teu xale
E atravessar a vidraça dizendo:
“Isto não é tudo
Tudo isto é o que nada significa. Tudo!”

Não! Eu não sou Príncipe Hamlet, nem significo muito
Sou só um criado lorde servindo de tudo
Propago o progresso, aceno uma cena ou duas
Advirto príncipes com argumentos fúteis
Tento ser contente com textos
Políticos, caudalosos, dementes
Cheio de altas sentenças, mas um bocado obtusos
Às vezes me sinto farto
E sobretudo tolo

Estou velho... Estou velho...
Hei de afundar meus abusos num atraso sem fundo

Partirei meus cabelos ao meio? Passarei a comer pêssegos?
Vestirei calças de flanela branca e andarei como um fresco?
À margem das sereias ainda canto: “Cada dia uma”, “Cada dia uma”

Não penso que elas me encantarão

Eu as vejo vagando mar adentro das ondas
Penteando os cabelos brancos nas vagas que se vão

Enquanto o vento trava um tranco contra a proa
Eu me seguro na imagem do mar
Pelas garotas da praia com suas miudezas sem ângulo
E por todas as vozes humanas que aclamam o afogamento



T. S. Eliot escreveu isto para que os fonemas e as diferentes figuras de linguagem a eles atribuídas componham significados. É música e cinema de palavras/imagens.

Repetições, ecos, non sense e ironia/humor que derivam do especialíssimo Jules Lafourgue (1860-1887), com conotações apocalípticas e cáusticas próprias do também especialíssimo Eliot.

J. Alfred Prufrock é um senhor de meia idade. Mas é todo o mundo, um Here Come Everybody joyceano.

Eliot se dirige a uma segunda pessoa que pode ser a amante de Prufrock, todas as mulheres ou todas as pessoas do mundo.

É um bom poema, muito embora o inglês, o mais sintético dos idiomas ocidentais – próximo do que foi um dia o belíssimo provençal – seja, sob alguns aspectos, intraduzível.

Especialmente quando se trata de um poema que prima pelas conotações fonêmicas.

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