sábado, 1 de março de 2014

Boca e ouvidos do inferno na trova provençal

Marcabru (1130-1150) era da linhagem do “mal-dizer” da poesia provençal. Diferente do grande poeta Bertran de Born, que cantava para estimular os guerreiros, produziu trovas satíricas para debochar dos mesmos e das batalhas.

Falou mal de senhores feudais – e logicamente foi perseguido por isso – das damas, dos amores, dos amantes e de tudo que era enaltecido pelos colegas trovadores.

De sua obra restaram 45 poemas. A maioria obcena e de críticas viscerais. Mas de uma sonoridade ímpar.

Desenho de Marcabru em iluminura

Embora sua poesia fosse essencialmente política, Marcabru dominava plenamente os recursos técnicos da trova provençal  e teve grande influência sobre os poetas do estilo clus trobar (escur, coubert, ou seja, difícil) que o sucederam.

O clus trobar, do qual mais tarde seriam mestres Arnaut Daniel e Raimbaut d’Aurenga, será abordado nas futuras edições deste blog...



O estilo se caracteriza por versos bem elaborados, com palavras inventadas, novos ritmos, diversidade de figuras de linguagem e rimas nada óbvias.

É também uma poesia de síntese e concisão. Evita a verborragia comum entre os trovadores.

Verborragia essa tão característica na obra de um poeta “inspirado” de menor importância dos nossos dias, porém altamente reverenciado pelas esquerdas: o chileno Pablo Neruda (1904-1973).

Concisão e precisão seriam os motes do russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930), este, sim, um grande poeta de esquerda. Valores que foram igualmente enaltecidos pelo norte-americano Ezra Pound (1885-1972), com sua “matemática inspirada”.

Para prosseguir nesta comparação ideológica rasa: Pound seria o grande poeta de “direita” dos tempos modernos e Maiakóvski, de "esquerda". Ambos anos-luz superiores a Neruda.

Voltemos à trova provençal e ao personagem desta edição: Marcabru. Deixou poemas no idioma ocitânico e no idioma catalão. Provinha dos condados provençais da Espanha, na região hoje abrangida pela Catalunha.

Quanto às melodias de seus 45 poemas, apenas três chegaram até nós por meio de partituras, todas com forte influência da rica música popular dos invasores árabes.

Enquanto os poetas do seu tempo cultivaram o amor platônico e simbólico por suas eleitas, Marcabru as desejava reais, nuas, de carne e osso.

Àquelas que o rejeitavam por ser filho de pastores, lançava série de diatribes e as colocava no antro das meretrizes.

Pelo que se sabe, da mesma forma que nosso “Boca de Inferno” baiano (Gregório de Matos), Marcabru tinha uma verve influente e não poupava ninguém.

Qual nas fábulas, é comum em sua poesia a utilização de diferentes animais para descrever os defeitos dos homens e mulheres por ele espinafrados.

Abordou, entre outros temas, o desprezo da elite dos condados pelos pastores e agricultores, embora dependesse deles para se alimentar.


Fez denúncias de senhores feudais que enviavam seus homens para as cruzadas a fim de, na ausência deles, se aproveitarem de suas esposas. 

Casos similares narrados por Marcabru na Idade Média ocorreram no Brasil contemporâneo, na época do predomínio do velho Partido Comunista Brasileio (PCB) sobre nossa parca e porca esquerda.

Dirigentes do “Partidão” enviavam militantes para longas estadias na URSS, a fim de fazer aquilo que os senhores feudais faziam com as esposas dos seus guerreiros no tempo de Marcabru.

A seguir, uma primorosa versão de Augusto de Campos para sua canção Ecoutatz (Cuidado!), um poema irado sobre as torturas do amor, com trechos violentos e tiradas de humor negro.

Para facilitar a associação, transcrevo as estrofes originais seguidas da versão de Campos:

Ecoutatz

Dirai vos senes duptansa
D’aquest vers la comensansa
Li mot fan de ver semblansa
– Escoutatz! –
Qui ves proeza balansa
Semblansa fai de malvatz


(Direi logo sem tardança
Para doer na lembrança
Meu verso que não se cansa
– Cuidado! –
Quem diante do amor balança
Cansará de andar errado)

Jovens faill e fraing e brisa
Et amors es d’aital guisa
De totz cessals a ces prisa
– Escoutatz! –
Chascus em pren as devisa
Ja pois no’n sera cuitatz


(A velhice enruga o rosto
Mas o amor, sempre disposto
A todos cobra o seu gosto
– Cuidado! –
Todos pagam esse imposto
Que nunca será quitado)

Amors vai com la belluja
Que coa’l fuec en la suja
Art lo fust e la festuja
– Escoutatz! –
E non SAP vas qual part fuja
Cel qui del fuec es gestatz


(Amor é como fagulha
Adormecida na hulha
Que o fogo desembrulha
 – Cuidado! –
Não pode fugir o pulha
Que pelo fogo é fisgado)

Dirai vos d’amor com signa
De sai guarda, de lai guigna
Sai baiza, de la rechigna
– Escoutatz! –
Plus sera dreicha que ligna
Quand ieu serai sos privatz


(Direi do amor como isca
Que ora olha e ora pisca
Ora beija, ora mordisca:
– Cuidado! –
Será mais reto que risca
Se eu estiver a seu lado)

Amor soli’ esser drecha
Mas er’ es torta e brecha
Et a coillida tal drecha
– Escoutatz! –
Lai ou non pot mordre, lecha
Plus asoramens no fai chatz


(Outrora o amor era honesto
Agora é torto e funesto
É como um gato molesto:
– Cuidado! –
Ou te morde ou lambe, lesto
Com língua de lixa armado)

Greu será mais amors vera
Pos del mel triet la cera
Anz sap si pelar la pera
– Escoutatz! –
Doussa’ us er com chans de lera
Si sol la coa’l troncatz


(Sua lei é traçoeira
Toma o mel e deixa a cera
Só para si pela a pera
– Cuidado! –
Para tê-lo na coleira
Melhor é vê-lo castrado)

Ab diables pren barata
Que fals’ amor acoata
No il cal c’autra verga’l bata
– Escoutatz! –
Plus non sent que cel qui’s grata
Tro que s’es vius escorjatz


(Quem ao falso amor se ata
Com o diabo contrata
Dá o dorso à chibata
– Cuidado! –
Quem muito se esgaravata
Acaba sendo escorchado)

Amors es mout de mal avi
Mil homes a mortz ses glavi
Dieus non fetz tant for gramavi:
– Escoutatz! –
Que tot nesci del plus savi
Non fassa, si’il ten al latz


(O amor nada tem de belo
Mata a gente sem cutelo
Deus não fez pior flagelo
– Cuidado! –
Ao fero fará farelo
O amor, se não for domado)

Amors a uzatge d’ega
Que tot jorn vol c’om la sega
E ditz que no’l dara trega
– Escoutatz! –
Mas que puej de leg’ em lega
Sia dejus o disnatz


(Amor faz ao modo da égua:
Todo o dia te carrega
E nunca mais te dá trégua
– Cuidado! –
Que lá vai de légua em légua
Correndo desenfreado)

Cujatz vos qu’ieu non conosca
D’amor s’es orba o losca?
Sos digz aplan’et entosca
– Escoutatz! –
 Plus suau poing qu’uma mosca
Mas plus greu n’es hom sanatz


(Eis como o amor se aparelha:
Ele é cego e olha de esguelha
Leve língua, atenta orelha
– Cuidado! –
Morde mais doce que abelha
Porém custa a ser curado)

Qui per sem de femna reigna
Dreitz es que mais li’n aveigna
Si cum la letra’ns enseigna
– Escoutatz! –
Malaventura’us em veigna
Si tuich non vos em gardatz!


(Quem de mulheres é amigo
Com razão sofre castigo
A Escritura diz comigo:
– Cuidado! –
Ficarás ao desabrigo
Se não fores avisado)

Marcabru, fills Marcabruna
Fo engenratz en tal luna
Qu’el sap d’amor cum degruna
– Escoutatz! –
Quez anc non amet neguna
Ni d’autra non fo amatz


(Marcabru, de Marcabru’a
Foi engendrado em tal lua
Que sabe o amor como atua
– Cuidado! –
Ainda que do amor não frua
Não ame nem seja amado)

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