domingo, 23 de março de 2014

Emil Cioran, o pensador do não


Em foto de 1946, Emil Cioran (1911-1995) aparece ao lado do também romeno Mircea Eliade com duas mulheres jovens, como os dois na ocasião.

Pouco provável que naquele momento o rapaz sorridente imaginasse que se tornaria, duas décadas depois, o principal filósofo cético moderno.


Emil Cioran

O ceticismo, mais que descrença, é uma corrente de pensamento pragmática que pressupõe um estado de dúvida latente. Na falta de qualquer lampejo de certeza, aí, sim, a incredulidade.

Um sistema que teria sido fundado pelo filósofo Pirro (318 aC-272 aC), que, por sua vez, o teria trazido de uma estadia para estudos na Índia.

No auge da expansão islâmica, o mundo europeu conheceu o persa Al-Ghazali (1058-1111), autor de A incoerência dos filósofos, um cético que influenciou pensadores futuros como René Descartes (1593-1650).

Grosso modo, o ceticismo pressupõe que o homem não tem capacidade de atingir a certeza absoluta sobre uma verdade ou conhecimento. Ou seja, tudo é sempre relativo.

No extremo oposto ao ceticismo como corrente filosófica encontra-se o dogmatismo, representado pelas diversas correntes filosóficas idealistas, como o marxismo, cada qual com seu rolo compressor de verdades pré-concebidas...



O cético questiona tudo o que lhe é apresentado como verdade e não admite a existência de dogmas, fenômenos religiosos ou metafísicos.

Mas não nega por negar. Usa o pensamento crítico e, se possível, a prática científica para comprovar a relatividade de quaisquer de suas teses. Há até corrente cientificista.

Cioran veio de família cristã ortodoxa nobre da Transilvânia.

Aos 17 anos, em Bucareste, iniciou amizade com os compatriotas Eugène Ionesco (1909-1994) e Mircea Eliade (1907-1986). Os três formaram uma trinca inseparável por toda a vida.


Cioran, Ionesco e Eliade

Mais tarde, em Paris, se juntou ao trio o dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989). Não era uma amizade apenas intelecual, de chazinhos da tarde ou coisa parecida. Eram amigos de farra mesmo, que terminavam quase sempre em grandes bebedeiras.


Samuel Beckett

Beckett, Ionesco e o espanhol Fernando Arrabal (1932) foram os principais autores do chamado “teatro do absurdo”.

Na verdade, tal identificação nunca existiu entre os próprios autores. Foi criada pelo crítico húngaro, radicado na Inglaterra, Martin Esslin para identificar autores teatrais com características comuns dos anos 1940 em diante. E assim ficou.

As primeiras fixações filosóficas de Emil Cioran foram com as obras dos alemães Immanuel Kant (1724-1804), Arthur Schopenhauer (1788-1850) e Friedrich Nietzsche (1844-1900).


Friedrich Nietzsche

Depois migrou sua atenção para as obras dos também alemães Max Stiner (1806-1956), Ludwig Klages (1872-1956) e Martin Heidegger (1889-1956), e do russo Lev Shestov (1886-1936).

Também teve um período de ódio e paixão pela obra do francês Henri Bergson (1859-1941).

Na juventude – em um país comunista – expressou simpatia pelos “inimigos” Hitler e Mussolini. Mas a violência propagada pelo nazismo e pelo fascismo, como a do comunismo, logo o fez mudar de ideia e se posicionar contra qualquer tipo de autoritarismo.

Foi um dos primeiros a prever que Stalin se tornaria um dos maiores criminosos políticos da história moderna, ao lado de Hitler e Mussolini.
 

Viveu como professor, com rendimentos modestos, pois sempre recusou cargos superiores nas instituições de ensino às quais serviu. Seus livros, ainda hoje admirados por círculos intelectuais restritos, sempre venderam pouco.

Deu aulas primeiramente nas universidades do seu país, depois na Alemanha Oriental e na Hungria. Até que migrou para a França, em 1937, de onde não saiu mais.

A partir daí, Cioran passou a publicar apenas livros escritos em francês. Muito apreciados por escritores – seus principais leitores – não só pelo conteúdo, mas principalmente pelo estilo e sofisticação da linguagem.

Antonhy Burgess (1917-1993) disse que James Joyce e Joseph Conrad foram os melhores escritores ingleses do século XX. Joyce era irlandês e Conrad, polonês.

Henri Michaux (1899-1984), que era também imigrante, repetiu a ironia e afirmou que Cioran fora o principal escritor “francês” do século XX.


Henri Michaux

Depois que foi forçado a migrar para a França, Cioran recusou-se a escrever em romeno por razões políticas (contra o totalitarismo vigente em seu país). Até as cartas enviadas a familiares passaram a ser escritas em francês.


Seu primeiro livro em francês, Précis de decomposition (Breviário de decomposição), teve grande repercussão em Paris, nos meios citados, claro. Mas Cioran já iniciara, a essa altura, seu processo de gradativo distanciamento social.

Passou a recusar prêmios literários e homenagens que lhe eram conferidos. Mas ia às homenagens para os amigos Ionesco, Eliade e Beckett, segundo ele estritamente para tomar uísque de graça.

Não atendeu mais a nenhum jornalista. Isolou-se num pequeno apartamento alugado no Quartier Latin, onde viveu até o fim, evitando o contato com o público.

Seu convívio com pessoas se resumia aos alunos, aos amigos Eliade, Ionesco, Beckett e, mais tarde, aos poetas de vanguarda Paul Celan (1920-1970) e Henri Michaux.


Paul Celan
Coincidência ou não, todos seus amigos eram imigrantes radicados em Paris (como ele): Eliade, Ionesco e Celan eram romenos, Beckett era irlandês e Michaux era belga.

Além de combater o autoritarismo, Cioran passou a concentrar suas críticas no pensamento sistemático e na especulação abstrata, defendendo as reflexões pessoais e o lirismo na filosofia.

Para ele, a filosofia se encontrava num território intermediário entre a poesia e a prosa. Considerava-se escritor e, não, "filósofo" ou "pensador". Razão pela qual seus textos, ao contrário da maioria dos filósofos, são de alta qualidade.

Apesar de isolado do mundo no centro de Paris, e da ênfase cada vez mais pessimista dos seus últimos trabalhos, os amigos próximos diziam que continuava uma pessoa alegre, de ótimo papo e muito bom de copo.

Suas obras, no entanto, retratam frequentemente uma atmosfera de tormento e tortura, e situações propensas a expressar sentimentos violentos.

Ante a questão da morte e do sofrimento, tornou-se ardoroso defensor da alternativa do suicídio.
 

Dizia, do seu modo nada sutil, que a possibilidade do suicídio, sempre à mão, era o que motivava muitos indivíduos, como ele, a continuar vivendo e trabalhando.

Tais ideias foram exploradas profundamente em seu livro Sur les cimes du désespoir (Nos cumes do desespero).
 

As obras de Cioran abrangem temas controversos como o poder mítico do pecado original, o sentido trágico da história, o fim da civilização, a negação da consolidação pela fé, a obsessão do absoluto e a vida como expressão do exílio metafísico do homem.
 

Embora não parecesse, definia-se como um “mero escritor apaixonado pela história”. Dizia ter interesse, sobretudo, pelos períodos tidos como "decadentes".

"Uma vez que o homem se mantém em contato com suas origens e não se dissocia de si próprio, ele resiste à decadência ou se torna um tranquilo parceiro dela.”

E acrescentou: “Hoje, o homem caminha para a sua própria destruição por meio da auto-objetivação, da produção excessiva, da reprodução impecáveis, do excesso de autoanálise e transparência, em busca de um triunfo artificial que jamais será atingido".

No que diz respeito a Deus, era lacônico: "Depois de Bach, talvez tenha sido o segundo coadjuvante da humanidade."

Sobre o conceito do paraíso: “Perdi-o para sempre, a partir do momento em que me arrancaram à força da pequena aldeia romena onde nasci.”
 

Insônia: “Tudo o que escrevi, tudo o que elaborei e todas as minhas divagações ocorreram perambulando à noite pelas várias cidades por onde vivi, enquanto a maior parte da população dormia.”

Sono: “É o segredo da vida. A vida só é suportável graças a essa descontinuidade. Se impedissem a humanidade de dormir, haveria massacres sem precedentes e a história chegaria ao fim.”
 

Sobre a mãe: “Admiravelmente prática. Ao comentar meu primeiro livro, disse que se soubesse que eu lamentaria tantas coisas sobre a vida, teria me abortado.”

Literatura e doença: “Um escritor que não é doente é um tipo de segunda ordem. Todos nós gostamos dos grandes doentes. Por isso, consensualmente, Dostoievski é tido como gênio dos gênios.”

Lucidez: “É pior que nada. Mas muitas vezes é também criminosa e agressiva.”
Fé: “Uma forma de crise que não é a minha.”

Conhecimento 1: “Ser incapaz de alimentar uma ilusão a respeito do que quer que seja é uma forma de conhecimento.”

Conhecimento 2: “Qualquer conhecimento levado às ultimas consequências é perigoso e injustificável.”

Conhecimento 3: “O que constitui o segredo de um ser é o que ele não sabe.”

Vida: “Só é suportável porque não se vai às últimas consequências.” 


Música: “É a arte que mais toca o íntimo de cada um. A filosofia seria mais resolutiva se se expressasse em forma de música.”

Escrever: “Expulsar de si o que há de mais importante. Quem escreve é alguém que se esvazia. Os escritores são seres humilhantes. Quando não têm mais o que escrever, deixam de ser.”

Homenagens: “São boas para as ocasiões que você anda com muita vontade de tomar uísque e não tem dinheiro. Nesse caso, é conveniente que não sejam para você, para que tenha mais tempo de saborear a bebida sem que nenhum chato o incomode.”

Honestidade: “Todos os nossos atos são subterrâneos. Só conhecemos a superfície uns dos outros. Portanto, é um alvitre pedir o que não se pode oferecer.”

Psicanálise: “Não me interessa. Minha preocupação não é com a cura das pessoas, mas com os demônios que habitam dentro delas.”
 

Livros de Cioran traduzidos no Brasil:

Nos cumes do desespero, tradução do romeno de Fernando Klabin, Editora Hedra, 2012.
 

Breviário de decomposição, tradução do francês de José Thomaz Brum, Editora Rocco, 2011.
 

Silogismos da amargura, tradução do francês de José Thomaz Brum, Editora Rocco, 2011.
 

História e utopia, tradução do francês de José Thomaz Brum, Editora Rocco, 2011.
 

Exercícios de admiração, tradução do francês de José Thomaz Brum, Editora Rocco, 2011.

Nenhum comentário:

Postar um comentário