domingo, 23 de março de 2014

Il miglior fabbro del parlar materno

Este título é uma frase do poeta Dante Alighieri (1265-1321) sobre Arnaut Daniel, mestre do trobar clus (a trova hermética, difícil), por ele considerado o maior dos poetas provençais.

Tratando-se do autor da Divina Comédia, uma das mais perfeitas obras literárias de todos os tempos, é uma indicação das mais importantes.

Mas Dante não foi o único admirador de Arnaut Daniel (seu nome em provençal, que tinha acentuação diferente do francês, era "Arnaút Dâniel").

O também italiano Francesco Petrarca (1304-1374), o criador do soneto, rendeu-lhe homenagem: “gran maestro d'amore” e “fra tutti il primo” (“o melhor entre todos”).

Desenho de Arnaut Daniel em iluminura

Ezra Pound (1885-1972), uma dos principais poetas, tradutores e estudiosos de literatura da era moderna, traduziu para o inglês os 18 poemas de Arnaut Daniel que chegaram aos nossos dias e a ele dedicou dois estudos.


O principal especialista em literatura medieval do Brasil, Sigismundo Spina (1921-2012), também o menciona como o mestre dos mestres, precursor da poesia barroca, que iria preponderar três séculos depois de sua época.

Nos anos 1950, Décio Pìgnatari, Augusto e Haroldo de Campos escolheram a enigmática palavra noigandres, citada por Arnaut em sua canção Er vei vermeills, vertz, blaus, blancs, gruocs, para dar o nome à revista do movimento de poesia concreta...


A palavra encontra-se na primeira estrofe da canção:

“Er vei vermeills, vertz, blaus, blancs, gruocs
vergiers, plais, plans, tertres e vaus
e'il votz dels auzels son'e tint
ab doutz acort maitin e tart
so'm met en cor q'ieu colore mon chan
d'un'aital flor don lo fruitz si'amors
e jois lo grans e l'olors de noigandres”

(Vejo vermelhos, verdes, blaus, brancos, cobaltos
Vergéis, planos, planaltos, montes, vales
A voz dos passarinhos voa e soa
Em doces notas, manhãs, tarde, noite
Então todo meu ser quer que eu colora o canto
De uma flor cujo fruto é só de amor
O grão só de alegria e o olor de noigandres)

A tradução é de Augusto de Campos.

Note que grande parte das palavras provençais têm uma ou duas sílabas, qual o inglês moderno, e seus sons são fricativos, sob diferentes modulações fonêmicas. Por se tratar de uma poesia musical de alto rigor métrico, é muito difícil de ser traduzida.

Digo, não só para transpor seus significados, o aspecto semântico, mas as qualidades construtivas sofisticadas, implícitas em sua formatação.

Mais tarde, Augusto verteria para o português as trovas das suas 18 composições que chegaram até nossos dias – todas sobre temas amorosos – das quais apenas duas puderam ter as partituras restauradas.

Arnaut teria nascido no castelo de Ribérac, em Périgord, no atual departamento francês de Dordonha, em 1150. Criou diferentes formas de trovas, dentre as quais a sextina, canção de seis versos utilizada por vários outros trovadores que o sucederam.

A admiração de Dante Alighieri por Daniel foi representada em pelo menos dois momentos de sua obra. Um no De vulgari eloquentia, estudo filosófico, e outro na Divina Comédia, na qual é narrado um encontro de ambos os poetas.

Nesta passagem, Dante não utilizou sua língua materna, o italiano em dialeto toscano, mas a língua de Daniel, o provençal occitano:

"Tan m'abellis vostre cortes deman,
qu'ieu no me puesc ni voill a vos cobrire.
Ieu sui Arnaut, que plor e vau cantan;
consiros vei la passada folor,
e vei jausen lo joi qu'esper, denan.
Ara vos prec, per aquella valor
que vos guida al som de l'escalina,
sovenha vos a temps de ma dolor"
(Purg., XXVI, 140-147)

T.S. Eliot, outro grande poeta moderno, também reverenciou Arnaut Daniel em seu principal poema, The waste land, de 1922, em cuja dedicatória a Ezra Pound grafou “il miglior fabbro”, assim como Dante chamara Daniel.

Poeta das rimas raras, dos jogos com os mais diferentes valores semânticos das palavras, a poesia de Daniel representa o que há de mais obscuro e criativo em toda a lírica trovadoresca, com admirável coeficiente sonoro.

Poeta formalista, como foram mais tarde os poetas barrocos, os poetas simbolistas e muitos dos poetas modernos, a estrutura construtiva de suas sextinas sobrepujam a “mensagem”, ou seja, os aspectos estritamente semânticos.

A esse respeito, leiam em voz alta para notar a profusão sonora de seus versos e rimas (não só finais, como internas a cada verso) na sua belíssima trova L’aur’amara, dirigida à sua amada Laura, filha do senhor feudal Guillaume de Beauville:

"L’aur’amara fa.ls bruoills brancutz
Clarzir que.l doutz espeissa ab fouills,
E.ls letz becs dels auzels ramencs
Ten balps e mutz, pars e non pars;
Per queu m’enfrotz de far e dir plazers
A mains per liei que m’a virat bas d’aut,
Don tem morir, si.ls afans no m’asoma"

Versão literal aproximada:

(A brisa branca torna mais brancos os bosques ramosos que a doce vibração condensa e sobrecarrega de folhas; e os alegres bicos das aves, sozinhas ou em pares, fecham-se e emudecem, por isso me esforço a agradar a muitos, louvando aquela que me atirou de alto abaixo; se não puder por fim ao meu tormento, temo vir a morrer) 

A arte de Arnaut, diz Ezra Pound, é a de combinar palavras e músicas numa sequência em que as rimas caem com precisão e os sons se fundem ou se alongam.

A exemplo de James Joyce com o inglês moderno, Arnaut procurou criar com a língua provençal uma nova língua, para ampliá-la e renová-la.

Como salientei no inicio, das 18 trovas de Arnauta Daniel que chegaram aos nossos dias, apenas duas tiveram as partituras preservadas. Querem ouvi-las?

Lo ferm voler qu'el cor m'intra (O firme intento que em mim entra).

Chanson do'ill mot son plan e prim (Canção de amor cantar eu vim).

A obra mais importante sobre poesia provençal no Brasil encontra-se esgotada há décadas. Trata-se de Apresentação da lírica trovadoresca, de Segismundo Spina, escrita em 1956. Desde então não foi reeditada por nosso capenga e desinformado mercado editorial.


Sua primeira e única edição foi da editora Livraria Acadêmica, na coleção Biblioteca Brasileira de Filologia. Tenho um único exemplar, obtido por meio do meu querido amigo Carlos de Paula, sócio da Livraria Iluminações, junto com João Braga.

É uma das melhores livrarias de Campinas. Fica na rua José Paulino, 1474 – Centro, telefones: (19) 32337944 ou 32333106, e-mail: iluminac@uol.com.br e endereço no site Estante Virtual: www.iluminacoes.estantevirtual.com.br (para compras e solicitações online).

O livro de Spina aborda as obras das principais escolas de trovadores da Idade Média: a provençal (a mais importante de todas), a catalã, a alemã (conhecida como minnesang), a francesa, a italiana e a galego-portuguesa (a segunda mais importante).


O livro no qual Augusto de Campos versa para o português as 18 canções de Arnaut que chegaram aos nossos dias é Mais provençais, publicado em em 1987 pela Companhia de Letras.


Este livro traz versões de outro poeta provençal da vertente do trobar clus (trova difícil): Raimbaut D'Aurenga.

Em 1978, Campos já havia publicado três canções de Arnaut traduzidas no livro Verso, reverso, contraverso, da Editora Perspectiva.




Além de dois estudos dedicados a Arnaut Daniel , Ezra Pound o cita em diferentes partes do poema épico The Cantos, vertido para o português pelo poeta concreto e crítico de arte José Lino Grünewald (1931-2000).

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