domingo, 23 de março de 2014

Marina, a "imprópria", sucumbiu ao estalinismo

Seu marido era um oficial do “outro lado”, do exército "branco", que combatia o exército "vermelho" dos bolcheviques.

Depois da Revolução Russa, em 1917, que resultou no primeiro regime comunista do planeta, o casal esteve exilado em Praga e, por fim, na França (por quinze anos, a partir de 1925).

Com o triunfo bolchevique, Marina Tsvetaeva (1892-1941) deixou a Rússia às pressas, para se reunir com Sergei Efrin, seu marido, em Praga.

Em Paris, suas relações com os emigrados "brancos", com os quais Efrin convivia, começaram a se deteriorar, chegando ao rompimento total.

Marina Tsvetaeva

A poetisa nunca aceitou o exílio forçado e, principalmente, o afastamento do grupo de poetas russos de vanguarda do qual fazia parte. Era muito amigo de Vladimir Maiakóvski e David Burliuk.

Em 1939, retornou à então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) com o marido Sergei Efron e a filha mais velha, Ariadna, sob a promessa do governo de que seriam perdoados.

Por precaução, o casal deixara para trás, num primeiro momento, os filhos menores Irina e Georgi, que permaneceram em Paris aos cuidados de amigos...



Sergei Efrin foi preso logo na chegada a Moscou e fuzilado a seguir. Marina e a filha caíram em desgraça e não conseguiam trabalho. Mas se recusaram, determinantemente, a deixar o país.

Pelo contrário, trataram de conseguir trazer Irina e Georgi da França.

Ariadna e Marina
Marina e os três filhos viveram durante décadas sob a desaprovação oficial do regime. Não conseguia publicar nada. Era considerada “imprópria para as massas”, assim como centenas de outros escritores, artistas e intelectuais russos de vanguarda.

Sem conseguir morada nem trabalho, sobreviveram graças aos favores e à generosidade das pessoas.

Porém em humilhante pobreza. Sua filha Irina foi entregue a um orfanato, onde veio a morrer de fome. Georgi também se foi em circunstâncias parecidas.

Quando teve início a Grande Guerra Patriótica (nome dado pelos soviéticos para a II Guerra Mundial), Marina – como a maioria dos cidadãos “impróprios” – foi enviada para um campo de refugiados, onde se suicidou.

Sua importante obra poética foi salva da destruição e do esquecimento graças à única sobrevivente da família: Ariadna Efron. No final do regime soviético, Ariadna conseguiu com que a obra de Marina fosse reconhecida e publicada no país.

Marina Tsvetaeva publicou seus primeiros poemas aos 16 anos, em 1908.

Era filha de um filólogo ilustre, professor universitário, fundador do Museu Puchkin, e de uma musicista de ascendência alemã, aristocrata.

Com a Revolução Bolchevique, Abandonou os estudos de música e passou se dedicar em definitivo à poesia. Conheceu a fundo a lírica europeia de seu tempo (especialmente a alemã e a francesa).

Mas foram seus conterrâneos Alexandr Blok (1880-1921), Ana Akhmatova (1889-1966), Andréi Biéli (1880-1934), Osip Mandelstam (1891-1936) e Vladimir Maiakóvski (1893-1930), suas maiores influências.
 

Segundo a estudiosa de literatura russa Aurora Bernardine, sua poesia traz força e refinamento, junto de uma intrigante angulosidade e diversidade de estilos e de argumentos, aliados a uma expressão rítmica das mais felizes da literatura russa moderna.
 

Trata-se de uma poesia concisa e áspera. De uma severidade que se alterna com certa tendência para o fluente e o musical. Seus versos estão entre os mais belos e bem realizados do século XX.

O excelente livro Poesia da recusa, de Augusto de Campos, publicado pela editora Perspectiva, coleção Signos, teve o título inspirado no poema Eu me recuso, de Marina, cuja tradução transcrevo a seguir.

No livro, Campos também apresenta traduções de poemas muito especiais de Mallarmé, Dylan Thomas, Hart Crane, Ana Akhmátova, Quirinus Kuhlmann (poeta barroco alemão), Óssip Mandelstam, Gertrude Stein, Wallace Stevens e outros autores.

Na sequência, o poema Eu me recuso, de Marina Tsvetaeva, com tradução de Augusto de Campos:



Eu me recuso


Eu me recuso a ser
No asilo da não-gente
Me recuso a viver
Com o lobo regente
 

Me recuso a uivar
Com os tubarões do prado
Me recuso a nadar,
Dorso dobrado.

Ouvidos? Eu desprezo
Meus olhos não têm uso
Ao teu mundo sem senso
A resposta é — recuso

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