sábado, 1 de março de 2014

Noel Rosa, Wilson Baptista e a polêmica que nunca houve

Em especial exibido pela TV Globo sobre Noel Rosa foi dado destaque à folclórica polêmica entre ele e Wilson Baptista, que resultou em sete sambas. Três de Noel, quatro de Baptista.

Baptista apareceu na produção global como o “inimigo” de Noel, vestindo a carapuça de um compositor invejoso, de menor importância, pelo qual o “mocinho da Vila” teria aversão e desprezo.

Em nenhum momento a Globo sequer sugeriu o que Baptista de fato foi: um dos melhores compositores dos anos 1930 e 1940, o período mais criativo da música popular brasileira.

A equipe de produção do especial nem se deu ao trabalho de verificar que a presumível “briga” nunca existiu.

Noel Rosa e Wilson Baptista

Em 1929, Noel integrou o Bando de Tangarás, conjunto vocal e instrumental do qual também faziam parte Almirante, Braguinha, Henrique Brito e Alvinho.

O cantor Almirante era amigo tanto de Noel quanto de Baptista.

Mais tarde escreveria um livro sobre a obra de Noel Rosa, no qual resgatou série de sambas perdidos do compositor de Vila Isabel, dentre os quais alguns em parceria com Baptista.

Num trecho, ele conta como se deu o episódio destacado pelo especial da Globo...



Os dois compositores, juntamente com Ismael Silva, trabalhavam para uma rádio e gravadora carioca, na qual gravavam suas composições e também tinham a função de dar acabamento a sambas de outros compositores, a serem encaminhados para o estúdio.

Para não pagar direitos autorais, a empresa não citava nos créditos dessas gravações os nomes dos autores originais e muito menos o trabalho realizado por Noel/Baptista/Ismael.

Ou seja, há muitos sambas com participações dos três que hoje é impossível descobrir.

Trabalhavam na rádio diariamente, no período da tarde, e à noite saíam para se apresentar ou beber juntos nos inferninhos cariocas.

Em outras palavras, Noel e Baptista eram amigos de trabalho e de copo.

Numa das farras, os dois se engraçaram por uma mesma morena. Noel, coitado, tão genial quanto feio, foi preterido pelo bonitão Baptista.

Vale salientar que Baptista era também famoso como ator e bom dançarino. Fazia números de sapateado em shows nos palcos dos cassinos cariocas. Razão pela qual costumava ter mais grana que Noel e se vestia elegantemente.

Naquele episódio, Noel ficou puto pelo fato de o amigo ter lhe passado a perna e enviou a ele um bilhete em versos, no qual debochava da sua pose de galã.

Mas nada a ver com briga, rancor ou bobagens do gênero, conforme sacramentado pelos péssimos historiadores da música popular brasileira e apresentado no especial da Globo.

Com base no teor do bilhete, Baptista que, como Noel, era muito ágil ao compor, fez o samba Lenço no pescoço, no qual apresentou o amigo como um branquinho mimado e se colocou na condição de um malandro descolado. 


Na verdade, Noel nunca foi um branquinho mimado. Era, como já disse, mais pobre que Baptista. Nem este era malandro. Tratava-se apenas de uma brincadeira. Noel gostou do samba e compôs Rapaz folgado, como resposta.

Alguém da rádio sugeriu que gravassem os dois sambas e deu no que deu: sucesso imediato.

A rádio, que era também gravadora, aproveitou a oportunidade e propôs aos dois explorar a suposta controvérsia por meio de novos sambas provocativos.

Os temas dos sambas seguintes foram combinados em comum entre os dois.

A única diferença é que Baptista não levou a coisa tão a sério e produziu letras de troça com qualidade bem abaixo das que costumava fazer.

Noel, no entanto, utilizou o episódio para produzir três dos seus melhores sambas.

A seguir, a resposta de Noel à primeira provocação de Baptista na voz de sua principal intérprete (e amante), Aracy de Almeida:



A coisa era tão acordada entre os dois compositores que quando Baptista lançou Mocinho da vila, Noel já tinha pronta a resposta: Feitiço da vila.


O terceiro round da contenda foi com Conversa fiada, de Baptista, ao qual Noel respondeu com o belíssimo Palpite infeliz.

Baptista lançou ainda Frankenstein da vila, mas a este Noel não respondeu porque o desafio se esvaziara e a coisa já estava indo para o rumo da baixaria.

Concomitante à farsa da briga, os dois compuseram juntos no mesmo período Deixa de ser convencida, como ironia à morena que teria provocado a confusão.

Não fizeram mais sambas em parceria daí por diante porque Noel logo perdeu a dura batalha contra a tuberculose e morreu aos 26 anos, em 1937.

Baptista foi um pouco mais longe: morreu aos 55 anos, em 1968. Porém esquecido, com a notória e injusta atribuição de ter sido o “inimigo” de Noel, o mais importante compositor da história do samba e o melhor letrista do nosso cancioneiro popular.

Mas nada como o tempo para colocar sua grandeza no devido lugar.

Moreira da Silva e, mais tarde, Jards Macalé e Paulinho da Viola revitalizaram a obra de Baptista, ao gravar vários dos seus sambas.

É ótima a interpretação de Macalé de Acertei no milhar, que também foi sucesso na voz de Moreira da Silva. Trata-se de uma parceria de Baptista com Geraldo Pereira.

Caetano Veloso gravou a linda Lealdade: "Serei, serei leal contigo / Quando eu cansar dos teus beijos, te digo / E tu também liberdade terás..."



Ao longo da vida, Baptista cometeu deslizes, sim, mas nada a ver com Noel Rosa. Andou metido com política. E, como se sabe, política e arte são coisas a parte.

Em 1940, compôs músicas de apoio a Getúlio Vargas, nas quais trocara a ginga do malandro que levava navalha no bolso por odes ao estilo Dom e Ravel, enaltecendo os discursos populistas do presidente.

Diferente de Noel, que era exímio violonista, Baptista não tocava nenhum instrumento. 

Compunha como Lupicínio Rodrigues e Adoniran Barbosa, batucando os dedos numa caixa de fósforos.

Além de cerca de 500 músicas gravadas, Baptista deixou mais de 100 sambas inéditos.

Foi um dos compositores mais férteis daquela geração de ouro que tinha, entre tantos, o já citado Ismael Silva, Geraldo Pereira, Ataulfo Alves, Lamartine Babo, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Assis Valente e muitos outros bambas.

Por conta da intensa produção, Baptista também vendeu várias músicas quando estava no sufoco por falta de dinheiro.

Para finalizar, o lindo samba Meu mundo é hoje, como uma resposta do próprio compositor à imagem falsa de detrator criada sobre ele ao longo dos anos:

"Meu mundo é hoje, não existe amanhã pra mim / Eu sou assim, assim morrerei um dia / Não levarei arrependimentos nem o peso da hipocrisia".

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