sábado, 1 de março de 2014

O miado da morte

O gato velho costumava passear pelas partituras enquanto o maestro trabalhava. Uma cumplicidade silenciosa. Ele as espalhava com uma organização que só ele e o bichano conheciam.

Umas para serem refeitas. Outras preliminarmente esboçadas. E várias composições em diferentes estágios.

Arranjos para orquestra. Arranjos para execuções de obras de outros. Aspectos teóricos ou construtivos que continuavam lhe preocupando. Muitas anotações, com ou sem pentagramas.

Dentre os vários tipos de obras compostas – em torno de 500 títulos – uma ária quase concluída. Infelizmente ficou no quase. Não havia mais tempo quando o gato miou desesperado.

Algo esquisito acabara de ocorrer.


Além da ária inacabada, deixou 14 sinfonias, músicas de câmara, concertos, peças eletrônicas e a única ópera (Alma).

Peças de diferentes extensões e complexidade construtiva.


Depois do miado triste do gato...



...ninguém mais daria conta de que ele fora um estudioso entusiasmado, incansável.

Que adorava a criação mais avançada, de uma forma geral. Gostava também de cinema. Glauber, oh, que pintura o cinema barroco daquele baiano!


Também gostava de pinturas em espécie. Pincelava suas próprias telas abstratas.

Com a mulher aprendera a gostar de ballet.

Também gostava das coisas populares. Futebol, canções e até piadas de botequins. O maestro era uma figura vivaz, bem-humorada, que não dispensava umas e outras nos bares próximos da superquadra onde residia.

Trabalhava por prazer. Dia e noite. Dava aulas, escrevia arranjos para orquestra, compunha, arranjava, conversava com todos, trocava ideias.


Até ideias vagas, meros papos furados com pessoas comuns que nem sabiam quem ele era.


Ele próprio se sentia um homem comum, sem qualquer estrelato. Detestava o elitismo escroto dos que se sentem os eleitos da raça.


Viera de uma família amazonense bastante modesta. Trabalhara desde jovem para ajudar os pais.

Talvez por isso tenha abraçado o comunismo com mais convicção que os próprios dirigentes do partido ao qual se filiou e que os governantes dos países ditos comunistas.


Foi comunista até o miado de alarme do gato. Inclusive quando o comunismo já não existia mais (que país é comunista nos dias de hoje? China? Coreia do Norte? Cuba? Rarrarrá!).


Havia décadas o partido comunista ao qual se filiara o expulsara de suas fileiras por ter questionado o realismo socialista, o dogma estalinista para as artes e cultura em geral.

Vida mais paradoxal!


Sustentara-se em duas vertentes distintas: o velho e conservador comunismo e o prismático dodecafonismo, que vem da poesia do mais radical dos poetas vanguardista: Stéphane Mallarmé (1842-1898).

Antes mesmo de baixar por aqui o atonalismo, uniu-se ao imigrante alemão Hans-Joachim Koellreutter em defesa do decafonismo no Brasil.


Schöenberg, Webern, Berg. Depois Berlioz. Depois Cage. Depois Stockhousen.

Compôs música concreta, aleatória, eletrônica.

O lance prismático: Mallarmé nas veias.


Seu comunismo era o do partidão mesmo (o velho PCB), não o da sua mais avançada cisão, a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella e de outro Joaquim que admirava, o Câmara Ferreira.


Infelizmente a ALN ficou restrita à ação direta – a guerra de guerrilha – que deveria ser apenas sua fase embrionária.


A ambição maior de Marighella, o guerrilheiro mais procurado do país que mal sabia atirar, era constituir uma eficiente organização política de base.


Algo que mais tarde veio a se consolidar com o Partido dos Trabalhadores (PT).


Mas este, com diretrizes políticas estritamente pragmáticas, vem adotando a estratégia custe o que custar da  velha tecnocracia política de direita para se manter indefinidamente no poder.


E, para isso, vem gessando o Estado, inserindo-se nas diferentes esferas do Executivo, Legislativo e Judiciário para fazer valer seus mandos e desmandos. 


Domina cada vez a máquina do funcionalismo público, assim como já dominou sindicatos e os chamados “movimentos sociais”.


Enfim, tudo muito parecido com o coronelismo da velha direita de origem esquerdista do Partido Revolucionário Institucional (PRI) mexicano e do peronismo argentino. 


Se Marighella e Câmara Ferreira tivessem constituído a grande organização política, da qual o braço militar da ALN deveria ser uma parcela menor, ultraespecializada, será que teria sido diferente do PT se chegasse a se tornar governo?


Ninguém saberá nunca.


Mas o assunto aqui não esse.

Estamos a falar do motivo do miado desesperado do gato do maestro. Isso num apartamento em Brasília, lá pelo final dos anos 1980.


Na música, posso afirmar que o maestro estava mais para Marighella que para Luís Carlos Prestes.


Tinha identificação com as tendências mais radicais. Das quais o realismo socialista, cartilha estética do seu antigo partido (o PCB), tinha péssima impressão. Aliás, tinha péssima impressão dele também.

Por ser reconhecidamente vinculado ao Partidão, enfrentou obstáculos atrás de obstáculos. Quando precisou dos comunistas, viraram-lhe as costas e o excluíram dos seus quadros.


Dividido, estigmatizado, assim viveu o maestro. Até o miado do gato. Quando sua esposa veio ver o que era, seu coração já parara de bater. Aos 70 anos.


Maestro viramundo. Com o golpe militar, passou 26 anos fora do país.


Com a abertura política no Brasil, deixou a Alemanha, onde dirigia uma orquestra e tinha um bom padrão de vida. Achara que chegara sua hora de retornar, para colaborar com a construção do país.


Mas aqui só lhe deram um cargo burocrático em Brasília.


Já não tinha mais na capital o amigo Darcy Ribeiro, que no início dos anos 1960 o chamara para criar o Departamento de Música da recém-constituída Universidade de Brasília (UnB).


Darcy era um homem de grandes ideias. Como ele. Sob a reitoria do amigo pode levar para a UnB Rogério Duprat e outros cobras para dar aulas.

Fora do empreguinho burocrático, teve de descolar espaços às próprias custas, sem apoio de ninguém, como costumara a fazer no exílio. Ou seja, era um exilado em sua própria pátria.


Mas não era de reclamar. Adorava Brasília e mantinha por lá vários antigos amigos.


Uma grande empresa lhe ofereceu apoio de mecenato se tivesse um bom projeto de contrapartida.


Não quis. A dignidade de velho comunista falou mais alto. Preferiu continuar livre, sem ter de se justificar porque fazia isso e aquilo.

Compunha e ouvia música o dia todo em seu apartamento. Inclusive muita música popular. Aos alunos insistia que o trabalho do músico é de “artesão”, porém de extrema qualificação. E se não é, deveria ser.


Esse era o maestro e compositor Cláudio Santoro.


Criadores brasileiros como ele – nascidos ou não nascidos entre nós, como seu parceiro Kollreutter, do Movimento Música Viva – são infinitamente maiores que a ignorância que paira sobre eles.

Salve Cláudio Santoro (1919-1989)!

Cláudio Santoro
Salve Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005)!
O Movimento Música Viva, por eles criado em 1939, antecipou tendências formais nas artes brasileiras que iriam se consolidar com o Movimento de Poesia Concreta, nos anos 1950.

Escolheram como patrono o compositor modernista Heitor Villa-Lobos (1887-1949).

Do Música Viva saíram Guerra Peixe, Eunice Catunda, Edino Krieger, entre outros.

Ouçam, a seguir, obras de Cláudio Santoro.

Paulistana nº 1:
Sinfonia nº 5:


Preludes:
Ouve o silêncio:






Nenhum comentário:

Postar um comentário