domingo, 23 de março de 2014

Ouça só este sambinha


A letra de Chega de saudade, de Vinícius de Moraes, tornou-se uma das canções de referância da bossa nova.

“...Mas se ela voltar/Se ela voltar que coisa linda/Que coisa louca/Pois há menos peixinhos a nadar no mar/Do que os beijinhos/Que eu darei na sua boca.”

Um primor a metáfora essa dos “peixinhos”/“beijinhos”.

No entanto, acho que foi Newton Mendonça (1927-1960) o letrista mais ousado e inventivo dentre todos os poetas bossanovistas.

Trupe bossa nova reunida: Newton (com a mão no queixo) à direita

O curioso é que Newton era mais músico que poeta...


Sua formação era similar à de Tom Jobim, do qual foi amigo desde a infância. Estudou piano e violão clássicos. E aprendeu a tocar de tudo: gaita, flauta, sax, acordeon e até bateria.

Duas de suas parcerias com Tom são, para mim, as canções mais marcantes da bossa nova: Desafinado e Samba de uma nota só.

Desafinado com João Gilberto e Caetano Veloso:


Desafinado é uma letra-manifesto. Equivalente a Tropicália, de Caetano, para o tropicalismo. Apresenta, em tom de ironia, o “pensamento musical” do movimento.

Samba de uma nota só é um canção conceitual, sobre a forma de compor jazzística que caracterizou a revolução no samba trazida por Newton e sua turma.

A seguir, Tom Jobim ao vivo toca e canta Samba de uma nota só acomponhado por quinteto de vozes femininas:



O modo de escrever de Newton difere do padrão das letras para canções no Brasil até então. Usava substantivos até então raramente mencionados pela música popular.

Antecipou Caetano, Chico e o próprio Vinícius ao se referir à mulher de modo carinhoso, ao contrário do machismo frequentemente encontrado nas letras dos colegas.

Boêmio, passou a maior parte das noites dos anos 1950 tocando piano em boates de Copacabana.

O primeiro sucesso em parceria com Tom Jobim, Foi a noite, de 1957, é considerado por muitos como o início da bossa nova.

A seguir a canção gravada por Sílvia Telles no período pré-bossa nova:


Newton Mendonça compôs em parceria com Tom mais de 20 canções.

Além das já citadas, fizeram juntos Meditação, Caminhos cruzados, Discussão, Só saudade, Incerteza, Teu castigo, Perdido nos teus olhos, Luar e batucada, Brigas, Domingo azul do mar, Tristeza, Sem você, entre outras.

A seguir, a letra e a interpretação de Meditação por João Gilberfto:

Newton também compôs 9 canções em parceria com Vinícius de Moraes e dezenas de lavra própria.

As parcerias com Tom renderiam muito mais, não fosse o infarto fulminante que o derrubou aos 33 anos, em 1960, quando a bossa nova se tornava sucesso.

Faleceu no dia em que sua música Canção do pescador foi anunciada como vencedora do I Festival da TV Record, em 3 de dezembro de 1960. O prêmio foi, posteriormente, entregue à sua esposa.

Reza a lenda que Newton compunha de igual para igual com Tom Jobim. De certa forma era até mais completo que o parceiro, por ser multinstrumentista e um senhor letrista.

No entanto, Newton era retraído e, embora também cantasse, não se expunha ao microfone por nada.

Sentia-e melhor no fundo do palco, ao piano ou tocando outros instrumentos, sempre com um copo de uísque ao alcance.

Dizem que bebia até mais que Tom Jobim, cuja média, nos bons tempos, era respeitável.

Também tinha fraquezas pantagruélicas, qual o grande Antônio Maria. Não era gordo como Maria, mas era um tanto rotundo.

Os médicos já haviam detectado nele a insuficiência cardíaca. Mas não pisou no freio quanto ao consumo de comidas pesadas e bebidas.

Lógico que em nenhum momento lhe passou pela cabeça que a vida estivesse por um fio.

Antes de partir, em 1994, Tom Jobim falou, em entrevista, que sem Newton os rumos da bossa nova seriam outros.

Sua própria vida seria outra, pois Newton era quem o puxava para varar as noites experimentando novas harmonias.

Lembrou que muitas de suas melhores composições – inclusive com outros parceiros – surgiram dessas noitadas ao lado do amigo, nas quais se revezavam entre o piano e o violão, que ambos tocavam bem.

Disse que várias vezes João Gilberto se juntava à dupla para mostrar as novas sequências de acordes que inventara e que, comumente, os três faziam improvisos jazzísticos: João ao violão, Newton no piano e Jobim na flauta. Os quais, infelizmente, nunca foram gravados.

Jobim contou que em algumas vezes ele e Newton varavam as noites sem tocar nada. Apenas ouviam jazz e muita música erudita. Conversavam a respeito e bebiam bastante.

Renato e Fernando Mendonça, filhos de Newton, herdaram o grande talento do pai e tornaram-se exímios instrumentistas.

Renato diz que o pai sempre que chegava em casa lhe trazia um Diamante Negro. Chocolate que ganhou esse nome em referência ao jogador Leônidas da Silva, inventor do gol de bicicleta.

No dia fatídico Newton chegou, deu a ele o chocolate, tirou o paletó, sentou no piano e tocou Noturno, de Chopin. Quando terminou, virou o pescoço para traz, como se fosse descansar, e não acordou mais.

Com seu irmão Fernando a cena se repetiu após alguns anos. Depois de ter feito um show ao lado de Baden Powell, chegou em casa, pegou o violão, tocou, virou a cabeça para trás, igual ao pai, e morreu.

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