domingo, 23 de março de 2014

Versos diversos

Não se sabe quem influenciou quem, mas as marcações rítmicas na poesia existem desde os primórdios desta arte altamente técnica, certamente muito antes de surgir a escrita.

Está associada à música, da qual veio a poesia lírica (cujo nome veio da lira, um instrumento de cordas muito popular na antiguidade).

Mas os outros dois principais gêneros de poesia – a dramática e a épica – também têm marcação rítmica.

A marcação rítmica já era altamente sofisticada na Ilíada e na Odisseia, os dois principais poemas épicos de todos os tempos, presumivelmente ditados pelo poeta cego Homero em torno de 800 aC.

Idem para o poema lírico Cântico dos cânticos, cujo autor, o hebreu Salomão, teria vivido entre 1009 e 922 aC.

A Eneida, de Virgílio, primeiro grande poema épico latino, foi escrito no Século I aC.

Entre os séculos XI e XIII, a poesia não só sofisticou os andamentos rítmicos então conhecidos, como se associou diretamente à música.

Foi esse um dos períodos mais férteis da arte poética, que atingiu o apogeu com Dante Alighieri, no século XIII, autor da Divina Comédia.

Ilustração de Gustave Doré para a
Divina Comédia, em formato de mandala

Alighieri foi altamente influenciado pela poesia provençal e pelo poeta épico Virgílio (70 - 19 aC). Mas sua poesia já não é estritamente musical...


Utiliza figuras de linguagem às quais estará associada a prosa, cujo desenvolvimento se dará a partir do surgimento da prensa, no século XV.

Alighieri abriu as portas para as grandes invenções da poesia escrita até os nossos dias.

Na era moderna, surgem os versos livres (sem formato uniforme), a poesia visual e grande variedade de poesias voltadas para a música (popular e erudita).

Enfim, as marcações rítmicas instituídas ao longo de milênios não são leis. São, sim, recursos técnicos perceptíveis que servem de alicerce para a produção poética. Trata-se de regulamentações a partir de como a poesia pode ser ouvida.

Podem e devem ser substituídos por outras. Mas para qualquer poeta que se proponha a fazer isso, é razoável que as conheça.

Lógico que contemplam aspectos relativos ao conhecimento dos diferentes idiomas ao longo do tempo, em especial os relacionados à fonética de cada uma das várias vertentes linguísticas.

Outro dia ouvi, a contragosto, um ardoroso debate etílico sobre os tais regulamentos da poesia, Me calei a tempo. Inclusive porque também me encontrava alcoolizado, com a mesma predisposição dos meus colegas de dizer inflamadas asneiras.

Decidi então incluir neste blog o básico do básico sobre marcação rítmica em poesia. Vamos ver se não chovo no molhado...



Poesia é uma arte altamente técnica e complexa – por isso tão pouco conhecida – e não se limita a essa questão da marcação rítmica.

Quem quiser conhecê-la tem de ir fundo. No final, deixarei algumas recomendações de fontes mais aprofundadas a respeito para quem quiser começar a entender cadinho da joça toda.

No tocante ao aspecto que motivou a referida discussão (marcação rítmica), é fundamental que se conheça pelo menos o que aqui introduzirei.

Para os néscios, que não conseguem diferenciar alhos de bugalhos, verso é meramente cada linha de um poema, que rima com outra que tem terminação com sonoridade similar.

Mas pode ser apresentado como uma palavra ou segmento de palavras, com um tipo de rítmica. Não necessariamente rimada.

A poesia grega clássica, por exemplo, era pautada na sofisticação rítmica. Porém desprezava as rimas– que já existiam na época – por considerá-las um recurso muito fácil, demasiado vulgar.

Poetas contemporâneos cadinho sofisticados seguem marcações métricas associadas ao encadeamento de sílabas longas ou breves.

Os mais preguiçosos ou ignorantes – ou ambas as coisas – apenas numeram as sílabas de cada verso, encerrando a contagem na última palavra tônica.

Razão pela qual as marcações rítmicas de seus poemas são para lá de capenga. 

Normalmente, esse tipo de poesia de bosta se sustenta nos impulsos verborrágicos de inspiração e na pieguice emotiva que não servem nem para matar baratas.

É um tipo de poesia de que se valem os beletristas das academias literárias – esses que papam todos os prêmios literários nacionais – que também para nada servem. 

Letristas de canções populares, que costumam fazer seus versos de ouvido, têm noções de marcações rítmicas muito mais sofisticadas que os beletristas. E fazem poesia muito superior aos taistais, claro.

Enfim, não basta contar as sílabas de seus versos, botar uma rimazinha para amarrá-los nalgum fluxo emotivo barato.

Não são apenas as sílabas, é importante ter noção disso, que estabelecem o ritmo e a sonoridade das palavras.

Por isso, os poetas realmente sofisticados trabalham com unidades ainda mais específicas que as sílabas: os fonemas. E também utilizavam de várias figuras de linguagem para estabelecer associações sonoras e significantes entre as palavras.

Fonemas não são letras nem sílabas. São as menores unidades que definem os vários sons das palavras.

As letras são representações gráficas desses sons e as sílabas, representações arbitrárias de conjuntos de fonemas ou de combinações de fonemas dentro de uma mesma palavra.

Mas já que o usual é fazer contagem de sílabas, vou fornecer os ingredientes (mas não o tempero) desse feijão com arroz.

Conta-se até a última tônica do verso. Isso é o tipo de coisa que os beletristas de academia conhecem bem, já que alguns aprenderam esse feijão com arroz azedo nas universidades.

Exemplifico como é a contagem instituída com a frufruzada Banda, de Chico Buarque de Holanda:

"Es/ta/va a/toa/na/vi/da
O/meu a/mor/me/cha/mou

Conte até o grifo, certo? Observe que os encontros vocálicos (entre vogais não tônicas) “va a/meu a” não são contados.

Note que a letra do Chico, como várias outras dele, é construída sobre o tipo de verso mais comum e fácil que existe, o hexassílabo, com seis sílabas. Quadradinho, quadraninho! Bonitinho, bonitinho!

Lógico que Chico, um dos melhores letristas de canções populares do Brasil (ao lado de Caetano, Torquato Neto, Newton Mendonça, Lupicínio Rodrigues, Dorival Caymmi e, o melhor de todos, Noel Rosa) fez coisas mais sofisticadas.

O heptassílabo (seis sílabas) é outro da trupe dos versos fáceis. Propício para coisas do tipo: “Batatinha quando nasce/Se esparrama pelo chão/Nenezinho quando dorme/Põe a mão no coração.” Conte pra ver.

A classificação convencional dos versos – banal, é bom que se diga – se dá pelo número de sílabas:

Monossílabo – versos com uma sílaba (existem!).

Dissílabos – versos com duas sílabas.

Trissílabos – versos com três sílabas.

Tetrassílabos – versos com quatro sílabas.

Pentassílabos – versos com cinco sílabas, aos quais os trovadores provençais davam o nome de redondilha menor.

Hexassílabos – versos com seis sílabas.

Heptassílabos – versos com sete sílabas, aos quais os provençais davam o nome de redondilha maior.

Octossílabos – versos com oito sílabas.

Decassílabos – versos com dez sílabas.

Hendecassílabos – versos com onze sílabas.

Dodecassílabos – versos com doze sílabas, também denominados alexandrinos. Bastante difíceis. Tanto que somente grandes poetas modernos como Stéphane Mallarmé, Paul Valéry e Raymond Roussel os utilizaram de forma satisfatória.

Vamos à velha rima de guerra!

É a sucessão de sons fortes ou fracos repetidos com intervalos regulares ou variados. Pode ser avaliada quanto ao valor e as combinações:

Toante – determinada pela repetição dos sons vocálicos.

Aliterante – repetição dos sons consonantais.

Consoante – repetição de todas as letras e sons.

Aguda – rimas de palavras oxítonas.

Esdrúxula – rimas de palavras paroxítonas.

Ricas – rimas de palavras raras.

Pobres – rimas de palavras comuns (“amar/gostar” e porcarias do tipo).

São estas as combinações de rimas mais usadas desde que Eva enganou Adão e este se tornou um veadão:

Emparelhadas – ocorrem de duas em duas (AABB).

Alternadas – ocorrem de forma alternada (ABAB).

Interpoladas – ocorrem de forma opostas (ABBA).

Mistas – embaralhadas (ABACDCD).

Estrofe é um troço que até os amigos embebedados que discutiam poesia do meu lado no episódio já citado sabiam o que é: o conjunto de vários versos.

Classificação das estrofes conforme a quantidade de versos:

Monóstica – com um só verso.

Dístico – com dois versos.

Terceto – com três versos (o padrão da Divina Comédia, de Dante Alighieri, um dos melhores e mais bem construídos poemas de todos os tempos).

Quadra – com quatro versos.

Quintilha – com cinco versos.

Sextilha – com seis versos (bastante utilizada pelo grande trovador provençal Bertran de Born).

Septilha – com sete versos.

Oitava – com oito versos.

Nona – com nove versos.

Décima – com dez versos.

Como disse, isto é o básico do básico. Não percam tempo com chazinhos das cinco com os beletristas nas academias. Chazinho com bolacha não leva a nada. Assim como não leva a nada ficar enchendo a cara nos botequins, como às vezes faço.

Ninguém ensina melhor como fazer literatura que os escritores de verdade. Universidades só ensinam o que é aceitável. É o regime soviético das letras. Se tiverem interesse de ir fundo, comecem pelos textos a seguir. São todos de grandes poetas:

Filosofia da composição, de Edgar Alan Poe, sobre como ele concebeu The raven (O Corvo).

Como fazer versos, de Vladimir Maiakóvski.

ABC da Literatura, de Ezra Pound.

O que é comunicação poética, de Décio Pignatari.

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