domingo, 23 de março de 2014

Zaum e Oberiu sobreviveram ao estalinismo

Daniil Kharms (1905-1942) foi um dos poetas cubofuturistas russos inventores da linguagem zaum. E também foi um dos fundadores do grupo vanguardista Oberiu.

Daniil Kharrns
Vamos por partes.

O que é zaum?


Zaum ou linguagem transmental envolveu vários experimentos linguísticos do simbolismo fonético, realizados pioneiramente pelos poetas Velimir Khlébnikov (1885-1922) e Aleksei Krutchionikh (1886-1968).



Velimir Khlébnikov
A palavra zaum é composta pelo prefixo za (além, por trás) e a palavra um (mente, conhecimento). Comumente é definida como uma linguagem poética experimental caraterizada pela indeterminação dos significados.

Não é bem isso. Embora não prezasse as associações semânticas dos idiomas tradicionais, dentre os quais o russo, era uma linguagem associada à materialidade da percepção. Enfim, não era para ser entendida, racionalizada, mas percebida.

Os primeiros exemplos zaum foram o poema de Aleksei Krutchionikh Dir bul shchil e o livreto da ópera Vitória sobre o sol.


Depois vieram os maravilhosos poemas de Khlébnikov sobre a linguagem dos pássaros, a linguagem dos deuses e a linguagem das estrelas, acompanhados de belos desenhos do próprio poeta...



Quase todos os poetas cubofuturistas, dentre os quais Vladimir Maiakovski (1893-1930) e David Burliuk (1862-1967), escreveram obras em zaum. Burliuk, que era também um grande pintor, fez quadros zaum.
 
Vladimir Maiakovski

David Burliuk
Massacrados pelo autoristarismo soviético – alguns praticantes de zaum se suicidaram, uns foram assassinados ou morreram em campos de concentração – poucos cubofuturistas viveram para ver sua linguagem poética ter continuidade com os dadaístas, sobretudo com o pintor e poeta alemão Kurt Schwitters (1887-1948).

Kurt Schwitters
Bem mais tarde, quando a repressão aos construtivistas já se amenizara, poetas de vanguarda russos sobreviventes – dentre eles Sergei Biryukov, Sergei Segai e Rea Nikonova – criaram a Academia do Zaum em Tambov.

Durante o auge do cubofuturismo, nas duas primeiras décadas do século XX, as atividades zaum incluíram performances públicas, demostrações e publicações. A linguagem transmental influenciou também o surrealismo e a pop art.


Bom, e o que é Oberiu? Trata-se de acrônimo de “Associação de Arte”, em russo, impossível de ter tradução equivalente em português.


Tratou-se de um agrupamento literário de vanguarda liderado por Daniil Kharms e Alexander Vvedensky (1889-1946) na antiga Leningrado, atual Petersburgo.


Também faziam parte da Oberiu os seguintes poetas e artistas plásticos: Vassíli Kamiênski, Vadim Shershenevich, Nicolai Oleinikov, Nicolai Zabolótzki e Igor Bakhterev.

Dentre os artistas de outras regiões russas que colaboraram com o grupo  estavam o pintor Kazimir Malevich, o pintor e poeta Pavel Filonov, o poeta e romancista Konstantin Vaginov e os poetas Velímir Khlebnikov, Aleksei Krutchionikh e Vladimir Makakóvski.


Kazimir Malevich
O grupo organizava apresentações públicas em universidades, bares, acampamentos militares, onde lia poemas, fazia intervenções e representações, causando impacto com suas manifestações bombásticas.

Mas as agitações provocadas pelo Oberiu chamaram a atenção das autoridades soviéticas, que pôs os intelectuais pelegos a seu serviço para escrever artigos nos jornais criticando o grupo e suas apresentações.


Em Abril de 1930, após uma apresentação do Oberiu num dormitório da Universidade de Leningrado, a maior parte dos integrantes, dentre os quais Danil Kharms, foi presa.


Kharms foi acusado de "distrair as pessoas da construção do socialismo através de versos irracionais", ou seja, por escrever em zaum. Morreu de fome num hospital-prisão, em 1942.
Em 1937, o poeta Nikolai Oleinikov foi fuzilado.


Em 1938, foi a vez de Zabolótzky ser enviado para um campo de trabalho na Sibéria, de onde nunca mais voltou.


Alexander Vvedensky morreu em 1941 na prisão, sob circunstâncias desconhecidas.


Nos anos 1960, o dramaturgo romeno Eugène Ionesco (1909-1994), um dos principais autores do “teatro do absurdo”, apontou a geração massacrada de poetas e artistas do grupo Oberiu como sua principal influência.


Eugène Ionesco
Daniil Kharms viveu apenas 37 anos.

O pouco tempo de vida, no entanto, não impediu o escritor de deixar obras que fizeram dele um dos principais nomes autores russos das primeiras décadas do século 20, justamente quando prosperaram os movimentos de vanguafrda. 

No período do regime soviético, seus contos, novelas, textos teatrais, fragmentos e poesias circularam apenas por meio de edições clandestinas.


Mas ele e os demais integrantes do cubofuturismo, em especial os do grupo Obeliu, foram reabilitados após a abertura política.


Nos anos 1970, o diretor de teatro norte-americano Bob Wilson, com apoio do bailarino russo Mikhail Baryshnikov e do ator Willem Dafoe, encenaram sua novela A velha.


Recentemente, a editora brasileira Kalinka lançou seu livro Os sonhos teus vão acabar contigo, traduzido por Daniela Mountian, com apoio de Moissei Mountian e Aurora Bernardini.


O livro faz parte da coleção Contos russos modernos, que privilegia textos de autores que sofreram com a censura stalinista.

No livro há trechos da prosa, do teatro e da poesia de Kharms.


Kharms dialogou com a fragilidade da existência humana. Sua obra se assemelha à de grandes autores modernos como o Franz Kafka e Samuel Beckett.

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