segunda-feira, 21 de abril de 2014

A montagem de O Percevejo, de Maiakovski, no Brasil

De Araraquara (SP) saíram dois irmãos que, separadamente, exerceram forte influência sobre o teatro brasileiro dos anos 1960 para cá.

José Celso Marinez Corrêa, cuja trajetória está vinculada ao Teatro Oficina, ainda hoje dirigido por ele.

E Luiz Antonio Martinez Corrêa, que também atuou no Oficina, mas cujas atividades estiveram mais ligadas ao Rio de Janeiro, onde fundou o Grupo Pão e Circo nos anos 1970.

Luiz Antonio Martinez Corrêa

Luiz Antonio teve a carreira interrompida no Natal de 1987, quando foi brutalmente morto a facadas em seu apartamento na capital fluminense.

Como o trabalho de seu irmão mais famoso, o de Luiz Antonio se baseou nas concepções de Bertolt Brecht (1898-1956) sobre encenação e preparação de atores.

De Brecht montou Casamento do pequeno burguês e a adaptação Mahagony, com canções do dramaturgo alemão em parceria com Kurt Weill (1900-1950). Este mesmo espetáculo foi montado no pelo Grupo Ornintorrinco, em São Paulo.

Luiz Antonio realizou a melhor montagem sobre a dramaturgia do grande poeta russo Vladimir Maiakovski (1893-1930) no Brasil. Encenou O percevejo, em 1981, com cenografia de Helio Eichbauer e música de Caetano Veloso...



Entre os atores estavam Caca Rosset e Maria Alice Vergueiro, que em São Paulo lideraram a criação do Grupo Ornintorrinco, juntamente com Luiz Roberto Galizia.

O próprio Luiz Antonio traduziu a peça de Maiakovski com o apoio de Boris Schnaiderman. Sua versão foi publicada pela editora 34, com prefácio de Schnaiderman. 

Vladimir Maiakovski

O percevejo é uma comédia fantástica escrita por Maiakovski no final de 1928 e encenada no ano seguinte, com cenário de Aleksandr Mikhailovich Rodchenko (1891-1956), trilha sonora de Dmitri Dmitriyevich Shostakovich (1906-1975) e direção de Vsevolod Emilevich Meyerhold (1874-1940).


O artista plástico, escultor, fotógrafo e designer gráfico russo Rodchenko foi um dos fundadores do construtivismo russo. Sua obra teve influência na criação da escola de design Bauhaus, na Alemanha.

Shostakovich foi um dos mais célebres compositores russos do século XX, ao lado de Igor Stravinsky.

 Meyerhold é, a meu ver, o mais importante diretor e encenador do teatro moderno.

Um dos cenários da montagem de Meyerhold

Por aí dá para se ter ideia do quanto a montagem de O percevejo na URSS foi imponente (e arriscada para todos os envolvidos, dadas as circunstâncias políticas da época).

No texto, o entusiasmo de Maiakovski pela Revolução de 1917, à qual apoiou e pela qual militou, dava lugar a uma visão crítica do futuro do socialismo.

O operário Prissipkin, personagem principal, sobrevive a um incêndio numa festa de casamento e seu corpo é acidentalmente congelado nos escombros.

Cacá Rosset como Prissipkin

Décadas depois é descoberto, quando toda a terra se encontra dominada por governos soviéticos títeres do regime de Moscou.

Prissipkin é descongelado por cientistas, mas não se adapta ao mundo asséptico que encontra, de pessoas tão preocupadas com bens de consumo e vaidade pessoal, que não se relacionam umas com as outras e não têm qualquer tipo de emoção.

No bloco no qual se encontrava congelado havia um percevejo, que com ele também volta à vida.

Após série de peripécias, o operário e o inseto ressuscitados são trancafiados numa jaula e submetidos à visitação pública num zoológico. A curiosidade maior dos visitantes é pelo percevejo, um inseto então extinto.

Prissipkin serve apenas de alimento do inseto, que suga seu sangue.

Trata-se de uma sátira contundente sobre os rumos do socialismo soviético, cada vez mais autoritário e centralizador, no final da década de 1920.

Maiakovski mistura na peça temas jornalísticos, jingles publicitários, mitos pessoais, canções, política, amor e ficção científica.

A montagem foi duramente criticada pelos dirigentes soviéticos que acusaram Maiakovski de ser formalista e pouco didático, o que contribuiu para o desgaste do poeta, que cometeria suicídio um ano depois, em 1930.

Na primeira apresentação do espetáculo no Rio, o diretor Luiz Antonio Martinez Corrêa promoveu um debate do qual participou Luiz Carlos Prestes, que foi por décadas o dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), vinculado ao regime de Moscou.

O debate foi caótico. Prestes insistiu em dizer que Maiakovski não tinha conflitos com os dirigentes soviéticos e que seu suicídio teria sido por motivações estritamente pessoais.

Caetano Veloso, cujo pai fora militante comunista e conhecia de berço as barbaridades cometidas pelo regime comunista russo (principalmente na era Stalin), ficou revoltado e rebateu com ironias aos argumentos de Prestes.

O espetáculo dirigido por Luiz Antonio se encerrava com a canção O amor, de Caetano Veloso e Ney Costa Santos, em cima de um trecho da peça escrito por Maiakovski.

Na letra Prissipkin, em sua jaula, identificado como “O mamífero” e reduzido a fonte de alimento do percevejo, expressa seu desejo de que também encontrem o corpo de sua amada congelado para que possam ressuscitá-la e trazê-la até ele com os mesmos sentimentos de quando as pessoas ainda eram humanas.

O amor

Talvez
Quem sabe
Um dia
Por uma alameda
Do zoológico
Ela também chegará
Ela que também
Amava os animais
Entrará sorridente
Assim como está
Na foto sobre a mesa

Ela é tão bonita
Ela é tão bonita
Que na certa
Eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias

Agora vamos alcançar
Tudo o que não
Podemos amar na vida
Com o estrelar
Das noites inumeráveis

Ressuscita-me
Ainda
Que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro

Ressuscita-me
Lutando
Contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso

Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe
Minha vida
Para que não mais
Existam amores servis

Ressuscita-me
Para que ninguém mais
Tenha de sacrificar-se
Por uma casa
Um buraco

Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme

E o pai
Seja pelo menos
O Universo
E a mãe
Seja no mínimo
A Terra

Ouça a canção cantada por Gal Costa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário