segunda-feira, 21 de abril de 2014

Flor bela espancada pela vida

Em maio chega aos cinemas brasileiros o filme português Florbela, do diretor Vicente de Alves Ó. O longa, concluído em 2012, foi o mais visto em Portugal nos últimos anos.


Baseia-se na vida da poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894-1930) e se passa em Portugal, no ano de 1920. Ela é apresentada como uma mulher à frente de seu tempo, que se sente entediada e inquieta, presa a um casamento tradicional.

Florbela Espanca

Abandona o marido e foge para Lisboa com o irmão Apeles Espanca – talvez sua única e verdadeira paixão – onde se lança com tudo na vida cultural e boêmia da capital.

Lembrem-se que essa era a época em que Fernando Pessoa (1988-1935), Almada Negreiros (1893-1970) e outros grandes autores modernistas estavam em plena atividade.

Fernando Pessoa

Segundo os críticos portugueses, o filme peca por apresentar o lado libertário (feminista) da poetisa e menosprezar a importância de sua obra...


A exemplo do poeta paulistano Glauco Matoso, a autora portuguesa escreveu quase toda sua poesia em um gênero dos mais tradicionais: o soneto.

O soneto é composto por dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos). Teria sido criado pelo poeta italiano Petrarca (1304-1374).

Dentre os melhores sonetistas de todos os tempos estão os poetas Luis de Camões (1524-1580), William Shakespeare (1564-1616), Charles Baudelaire (1821-1867), Sthéphane Mallarmé (1842-1898), Jules Laforgue (há artigo sobre ele nesta edição) e o brasileiro Augusto dos Anjos (1884-1914).

Em 1919, Florbela reuniu seus primeiros sonetos no Livro das mágoas. Em 1922, publicou sua segunda coletânea: Livro de sóror saudade.

Florbela também escreveu excelente prosa.

Um ano após sua morte (1931), Guido Batelli, professor italiano da Universidade de Coimbra que foi o grande admirador de sua obra, publicou o conjunto de contos As máscaras do destino, dedicado a Apeles, a coletânea de contos Charneca em flor e o livro confessional Diário do último ano.

Florbela colaborou como cronista em vários jornais de Lisboa e do Porto (cidade na qual também residiu). E traduziu para o português vários romances franceses e italianos.

Depois de uma série de casamentos malsucedidos, juntou-se ao irmão Apeles Espanca em Lisboa, numa provável relação incestuosa – imaginem o que deveria pensar a respeito a tradicionalíssima sociedade portuguesa.

Apeles era piloto de avião. Com sua morte em um acidente, Florbela viu seu mundo desmoronar e entrou em um em fluxo autodestrutivo que a levou ao suicídio aos 36 anos.

Em meio às crises e extremas dificuldades para sobreviver, escreveu alguns dos melhores poemas e contos de sua época.


Em 1928, passou por internação psiquiátrica após uma tentativa de suicídio.

Após mais três tentativas de suicídio – a última por overdose de barbitúricos – Florbela finalmente se foi, com um pedido para que seu corpo fosse enterrado no túmulo do irmão amado.

A temática de sua poesia é toda amorosa. Os assuntos recorrentes: solidão, tristeza, saudade, sedução, desejo e morte.

Mas o dado fundamental para o qual quero chamar a atenção neste artigo é que, muito mais que feminista, maluca ou diabo a quatroconforme é provável que a apresentem no filme –, Florbela Espanca foi excelente poetisa. 

Diz-me, amor, como te sou querida

Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,
Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!


Este e outros 134 poemas da autora encontram-se neste endereço.

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