segunda-feira, 21 de abril de 2014

O pierrot lunar


Jules Laforgue (1860-1887) pertence à categoria dos "poetas inventores" – aqueles que descobriram um processo em particular ou mais de um modo ou processo realmente determinante para a evolução da literatura – idealizada por Ezra Pound.

Desenho de Jules Laforgue feito por ele próprio

Sua poesia, altamente sucinta e inteligente, é fundamentada em jogos de palavras, trocadilhos, assonâncias e aliterações, em uma mescla de humor e cinismo.

Cujos experimentos linguísticos compreendem a utilização de frases correntes e coloquiais, inclusive o balbuciar e a descontinuidade sintática da fala das ruas.

Razão pela qual é repleta de exclamações e interjeições, o que se traduz em ritmos entrecortados e marcantes.

Ainda dentro das conceituações de Pound, a poesia de Laforgue é logopeia, ou seja, faz “a dança das ideias” por meio dos recursos de linguagem...



Laforgue nasceu em Montevidéu (Uruguai), em 16 de agosto de 1860, descendente de uma família francesa de origem bretã.

Foi para a França aos seis anos e viveu a maior parte de sua vida em Berlim, Alemanha, onde trabalhou como leitor oficial, em francês, da imperatriz Augusta, casada com Guilherme 1º.

Publicou quatro livros em vida: Les complaintes (1885), L’imitation de Notre-Dame la Lune (1886) – financiados por ele mesmo -, além de Concile féerique (1886) e Moralités légendaires (1887).

Capa da edição original

Em 1890, três anos após sua morte, foram publicados os Derniers vers.

Foi um dos poetas que mais influenciou aqueles que o sucederam. Foi o mestre, inclusive, dos poetas T.S. Eliot (1888-1965) e Ezra Pound (1885-1972, e do artista plástico Marcel Duchamp (1887-1968).

Marcel Duchamp em foto de Man Ray
No Brasil, influenciou a produção dos poetas Pedro Kilkerry (1885-1917), Manuel Bandeira (1886-1968), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), entre outros.

O poeta simbolista baiano Pedro Kilkerry

Tradutor de Walt Whitman (1819-1892), Laforgue foi um dos primeiros poetas franceses a escrever no verso livre, e o primeiro a fazê-lo de forma sistemática.

Estudioso de filosofia alemã, traduziu para o francês obras dos filósofos Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Eduard von Hartmann (1842-1906).

Como o inglês Lewis Carrol (1832-1898) e, mais tarde, o irlandês James Joyce (1882-1941), foi hábil criador de palavras-valises, ou seja, montagens de palavras que concentram vários significados em uma mesma expressão.
 

Laforgue e Tristan Corbiére (1845-1875) utilizaram diálogos dentro dos versos, o que veio a ser adotado principalmente pela poesia modernista que os sucedeu.

Autorretrato de Corbiére

Os escritos de Jules Laforgue são imbuídos de melancolia – spleen – pelo sentimento de desgraça, pelo pessimismo, em razão de sua vida solitária, instável e errática.

Faleceu em Paris em 20 de agosto de 1887 na absoluta miséria.

A seguir, poemas de Laforgue no original, seguidos das traduções e, no final, de referências bibliográficas sobre como obter mais informações sobre ele no Brasil.

Dimanche nº 2

Le Dimanche on se plaît
À dire un chapelet
À ses frères de lait.
Orphée, ô jeune Orphée!
Serials des coriphées
Aux soirs du fleuve Alphée…
Parcifal, Parcifal!
Étendart virginal
Sur les ramparts du mal…
Prométhée, Prométhée!
Phrase répercutée
Par les siècles athées…
Nabucodonosor!
Moloch des âges d’or
Régissez-nous encor?…
Et vous donc, filles d’Ève,
Soeurs de lait, soeurs de sève,
Des destines qu’on se rêve!
Salomé, Salomé!
Sarcophage embaumé
Où dort maint Bien-Aimé…
Ophélie toi surtout
Viens moi par ce soir d’août
Ce sera entre nous.
Salammbo, Salammbo!
Lune au chaste halo
Qui laves nos tombeaux…
Grande soeur, Messaline!
Ô panthère câline
Griffant nos mousselines…
Oh! même Cendrillon
Reprisant ses haillons
Au foyer sans grillon…
Ou Paul et Virginie,
Ô vignette bénie
Des ciels des colonies…
Psyché, folle Psyché,
feu-follet du péché,
vous vous ferez moucher!…


Domingo nº 2
(tradução: Régis Bonvicino)

No domingo exerço
Dizer o meu terço
Às irmãs de berço.
Orfeu, belo Orfeu!
Harém, corifeu
Das margens do Alfeu…
Jovem Parsifal!
Pendão virginal
Nos muros do mal…
Preso Prometeu!
Plá que percorreu
Séculos ateus…
Nabuco’nosor
Moloch-esplendor
Nosso imperador?
Vós filhas de Eva
Irmãs, berço e seiva,
Destino que enleva!
Salomé de Nada!
Múmia embalsamada
Dormem as amadas…
Ofélia de tudo
Vinde a mim (outubro)
Sou surdo e sou mudo.
Casta Salambô!
A lua e seu halo,
Lava meu mantô…
Irmã Messalina!
Ó pantera fina
Rasga musselinas…
E tu Cinderela
Reprisa a novela
Palco sem janela!
Ou Paulo e Virgínia
Vinheta bendita
Dos céus das colônias…
Ó louca psique!
Pecado-nenê
Sem quê nem pra quê…


Locutions des pierrots

Encore un livre; ô nostalgies
Loin de ces très-goujates gens,
Loin des saluts et des argents,
Loin de nos phraséologies !
Encore un de mes pierrots mort ;
Mort d’un chronique orphelinisme ;
C’était un coeur plein de dandysme
Lunaire, en un drôle de corps.
Les dieux s’en vont ; plus que des hures
Ah ! ça devient tous les jours pis ;
J’ai fait mon temps, je déguerpis
Vers l’Inclusive Sinécure !


Locuções do pierrot
(tradução de Régis Bonvicino)

Mais outro livro; ó nostalgias
Longe de todo este gentio,
Do tal dinheiro e do elogio,
Bem longe das fraseologias!
De novo um dos meus pierrots morto;
Daquele crônico orfelinismo,
Coração pleno de dandismo
Lunar em um estranho corpo.
Nossos deuses se vão; sem cura,
Os dias, de mal a pior,
Já fiz o meu tempo. É melhor
Sim, entregar-se à Sinecura!


Cas rédhibitoire (Mariage)

Ah! mon ame a sept facultés!
Plus autant qui ‘il de chefs-d’oeuvre,
Plus mille microbes ratés
Qui m’ont pris pour champ de manoeuvre.
Oh ! le suffrage universel
Qui se bouscule et se chicane,
À chaque instant, au moindre appel,
Dans mes mille occultes organes !…
J’aurais voulu vivre à grands traits,
Le long d’un classique programme
Et m’associant en un congrès
Avec quelque classique femme.
Mais peut-il être question
D’aller tirer des exemplaires
De son individu si on
N’en a pas une idée plus claire ?…


Caso redibitório (matrimônio)
(tradução de Régis Bonvicino)

Minh’alma tem sete dons raros
e, em número maior que as obras-
primas, micróbios, aos milhares,
tornam-me campo de manobras.
Ora, o sufrágio universal!
Que chicaneia e clama insultos,
Cada instante, ao menor sinal,
Entre meus mil órgãos ocultos!…
Quisera viver com sucesso,
segundo um clássico programa,
associando-me, em congresso,
a alguma clássica madama.
Pode-se cogitar, na pauta,
em tirar exemplares, para
si, de si mesmo, quando falta,
porém, uma ideia, mais clara?…

 
Mais poemas de Jules Laforgue traduzidos para o português podem ser encontrados na revista eletrônica Erratica.

Livros sobre a obra de Jules Laforgue no Brasil
 

O simbolismo, de A. Balakian. Tradução de José Bonifácio A. Caldas. Editora Perspectiva, 1985.
 

Poesia-experiência, de Mário Faustino. Editora Perspectiva, 1976.
 

Estrutura da lírica moderna, de H. Friedrich. Tradução de Marise M. Curioni. Editora Duas Cidades, 1991.
 

Litanias da lua, seleção de poemas de Jules Laforgue com tradução e organização de Régis Bonvicino. Editora Iluminuras, 1989.
 

O Castelo de Axel: estudo sobre a literatura imaginativa de 1870 a 1930, de Edmund Wilson. Tradução de José Paulo Paes. Editora Cultrix, 1967.

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