segunda-feira, 21 de abril de 2014

Pérolas defeituosas dos países tropicais

O barroco é uma das mais importantes escolas formalistas da história das artes. Seu stil floresceu entre o final do século XVI e meados do século XVIII. Inicialmente na Itália, depois em países católicos da Europa e das Américas.

Tem formato próprio associado à reforma protestante. Foi ainda um dos poucos movimentos culturais do ocidente a influenciar culturas orientais (chinesa, japonesa e indiana).


O formalismo barroco foi uma continuação do renascimento. Ambos são reinterpretações da antiguidade clássica.


Para o renascimento, o tratamento das temáticas enfatizava qualidades de moderação, economia formal, austeridade, equilíbrio e harmonia.


Para o barroco, preponderava o dinamismo, os contrastes fortes, a dramaticidade, a exuberância e o realismo.


Mas as interpretações sobre o barroco, e seu ressurgimento moderno nas Américas de predominância ibérica, são díspares, confusas.


Estudos do mexicano Octavio Paz (1914-1998), do cubano Lezama Lima (1910-1976), do argentino Néstor Perlongher (1949-1982), dos brasileiros Haroldo de Campos (1929-2003) e Affonso d’Avila (1928-2012) e do brasileiro naturalizado Otto Maria Caupeaux (1900-1978) trazem mais clareza sobre o que foi (e é) o barroco entre nós.


Affonso d'Avila
Destes, o que desenvolveu estudos mais sistemáticos foi Affonso d’Avila. Em especial sobre o que ocorreu em sua terra: Minas Gerais...



O barroco no Brasil foi o estilo dominante durante a maior parte do período colonial, principalmente no circuito das cidades históricas surgidas com a mineração, em Minas Gerais, e no Recôncavo Baiano, na Bahia.

Altar de igreja da Bahia

Foi aqui introduzido por missionários jesuítas. Razão pela qual grande parte do seu legado esteve vinculado à arte sacra: estatuária, pintura, arquitetura das igrejas, obras de talha para decoração interna de igrejas, conventos ou locais para cultos privados.

Igreja de Ouro Preto

A arte barroca brasileira esteve associada à catequização dos povos indígenas e, ao mesmo tempo, à função decorativa de grandes obras religiosas.

No Brasil e nos demais países latino-americanos, com o passar do tempo o barroco importado da Europa ganhou feições novas, originais, como expressão da formação de culturas genuinamente nacionais.


Na literatura, o auge do barroco antigo entre nós esteve nas obras de Gregório de Matos (1636-1696) e de Padre Antônio Vieira (1608-1697).


Nas artes plásticas, seus maiores expoentes foram Aleijadinho (1738-1714) e Mestre Ataíde (1762-1830). Ambos de Minas Gerais.


Escultura de Aleijadinho
O barroco mineiro teve seu centro principal na antiga Vila Rica, hoje Ouro Preto, fundada em 1711, mas preponderou também em Diamantina, Serro, Mariana, Tiradentes, Sabará, São João Del-Rei, Congonhas, entre outras vilas e povoados.

Affonso Ávila foi pesquisador, ensaísta e poeta. Teve participação ativa em importantes movimentos literários e foi interlocutor do concretismo em Belo Horizonte, nos anos 1950.


Juntamente com Fábio Lucas, Rui Mourão, Laís Corrêa de Araújo, Cyro Siqueira e outros, fundou a revista Vocação.


Em 1957, fundou a importante revista Tendência.


Ao longo dos anos, acumulou trabalhos de levantamento e conservação do patrimônio artístico e arquitetônico das cidades históricas mineiras.


Insistia que o barroco, longe de se tornar “peça de resfriamento cultural” em bibliotecas e museus, deveria ser “arma quente”. “É a nossa janela tropical”, dizia.


Em 1959, d’Avila levou para sua terra Julio Medaglia, Gilberto Mendes, os irmãos Regis e Rogério Duprat, Willi Correia de Oliveira, todos alunos de Hans-Joachim Koellreuter (1915-2005), para estimulá-los a estudar a música barroca mineira.


Por lá conheceram Curt Lange 1903-1997), que já vinha estudando a música barroca latino-americana, incluindo a mineira, de longa data. Regis Duprat, em especial, se dedicou a recuperar as obras de vários compositores barrocos mineiros.



Regis Duprat

Curt Lange foi um teuto-uruguaio que teve grande influência sobre os movimentos musicais na América Latina durante o século XX. Koellreuter, também alemão, foi um importante formador de músicos brasileiros.

Na literatura contemporânea, d’Avila salientava os elementos do que chamava por “barroco tropical” nas obras dos cubanos Lezama Lima, Alejo Carpentier, Cabrera Infante, Severo Sarduy, do chileno José Donoso, do uruguaio Juan Carlo Onetti e do brasileiro Guimarães Rosa.


Lezama Lima

Entre estudos e obras literárias, d'Avila publicou os seguintes livros:

•    O Açude, 1953
•    Sonetos de descoberta, 1953
•    Carta do solo, 1961
•    Frases feitas, 1963
•    Resíduos seiscentistas em Minas, dois volumes, 1967
•    O lúdico e as projeções do mundo barroco, 1971
•    Código de Minas, 1969
•    Poesia anterior, 1969
•    Código Nacional de Trânsito, 1972
•    Cantaria barroca, 1975
•    Discurso da difamação do poeta, 1976
•    Barroco mineiro: glossário de arquitetura e ornamentação, Companhia Editora Nacional, 1979
•    Masturbações, 1980
•    Barrocolagens, 1981
•    Delírio dos cinquent'anos, 1984
•    O belo e o velho, 1987
•    O visto e o imaginado, 1990
•    Catas de aluvião: do pensar e do ser de Minas, Graphia, 2000
•    A lógica do erro, 2002
•    Homem ao termo: poesia reunida (1949-2005), 2008
•    Poeta poente, 2010

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