segunda-feira, 21 de abril de 2014

Principal parceiro de Carlos Gardel era um brasileiro

A maior parte das músicas gravadas por Carlos Gardel foi de sua própria lavra. Escreveu poucas letras, mas era muito criterioso ao escolhê-las.

Seus letristas estavam entre os melhores de Buenos Aires. Encomendava a eles letras com os temas já definidos. Dezenas foram por ele rejeitadas.

Mas aquelas que decidiu musicar e interpretar, pode crer que os autores ficaram orgulhosíssimos, pois Gardel deu a todas roupagem musical perfeita.

Tanto é que se tornaram clássicos do tango e são até hoje muito ouvidas. Três, a meu ver, estão entre as melhores canções populares escritas no século XX: Mano a mano, Cuesta abajo e Por una cabeza.

Mano a mano foi composta sobre maravilhosa letra de Celedonio Flores (1896-1947). Cuesta abajo e Por una cabeza foram escritas pelo paulista Alfredo Le Pera (1900-1935) que, como Gardel, migrou muito jovem para Buenos Aires e se considerava mais argentino que brasileiro.

Carlos Gardel e Alfredo Le Pera

Le Pera escreveu as letras de dezenas de belas canções musicadas por Gardel. Só para citar algumas: Mi Buenos Aires querido, El día que me quieras (não é tango, é bolero), Soledad , Sus ojos se cerraron, Volvió una noche, Cuando tu não estás e Volver...


Volver é uma das poucas canções da dupla com letra de Gardel. Le Pera criou a melodia.

Alfredo Le Pera começou a carreira em Buenos Aires como jornalista – era crítico de teatro e de música.

Mas conciliava o trabalho nas redações com os bicos para o teatro de revista platense, no qual começou como roteirista e chegou a diretor.

Na década de 1920, já era conhecido também como roteirista de cinema na Argentina.

Gardel e Le Pera se conheceram por intermédio do cantor e também genial compositor de tangos Enrique Santos Discépolo (1901-1951), para quem o brasileiro já havia escrito várias letras.

Enrique Discépolo

Em pouco tempo, Le Pera tornou-se o principal amigo e colaborador de Gardel. Foi libretista do astro, dirigiu os filmes produzidos para divulgar sua obra e escreveu as letras de suas melhores canções.

Nos filmes de Le Pera, Gardel representava o personagem criollo que o cantor encarnava no palco: esperto e ao mesmo tempo gentil, malandro e cavalheiro, arrebatador e honesto.

As letras de Le Pera para Gardel pareciam feitas sob medida para esse personagem idealizado por ambos, sempre em respeito ao espírito popular.

Le Pera também escreveu uma série de scripts para filmes de Gardel: Melodia de Arrabal, em 1933, Cuesta abajo, em 1934, El tango en Broadway, em 1934, El dia en que me quieras, 1935 e Tango Bar, 1935.

Os argentinos o têm como artista mais importante na vida de Carlos Gardel.

O destino também quis que a fatalidade os unisse: morreu no mesmo desastre de avião.

Para conhecimento dos incautos: Por una cabeza, parceria dos dois, é o belíssimo tango sob cujo fundo Al Pacino, na pele de um militar cego, faz uma exibição de dança no filme Perfume de mulher.

A letra é uma das mais perfeitas que já vi. Traça um paralelo sobre duas paixões com resultados pouco confiáveis: corridas de cavalos e belas mulheres.

Seguem sua transcrição original, a versão aproximada e gravações de Por una cabeza, Mano a mano (com Caetano Veloso) e Cuesto abajo.

Por una cabeza

Por una cabeza
De un noble potrillo
Que justo en la raya
Afloja al llegar
Y que al regresar
Parece decir:
No olvidéis, hermano
Vos sabés, no hay que jugar

Por una cabeza
Metejón de un día
De aquella coqueta
Y risueña mujer
Que al jurar sonriendo
El amor que está mintiendo
Quema en una hoguera
Todo mi querer

Por una cabeza
Todas las locuras
Su boca que besa
Borra la tristeza
Calma la amargura
Por una cabeza
Si ella me olvida
Qué importa perderme
Mil veces la vida
Para qué vivir

Cuantos desengaños
Por una cabeza
Yo juré mil veces
No vuelvo a insistir
Pero si un mirar
Me hiere al pasar
Su boca de fuego
Otra vez quiero besar
Basta de carreras
Se acabó la timba
¡Un final reñido
Ya no vuelvo a ver!
Pero si algún pingo
Llega a ser fija el domingo
Yo me juego entero.
¡Qué le voy a hacer!

A tradução:

Por uma cabeça

Por uma cabeça
De um nobre potro
Que justo na raia
Afrouxa ao chegar
E que ao regressar
Parece dizer:
Não esqueças, irmão
Você sabe, não há que jogar

Por uma cabeça
Um caso de um dia
Com aquela fútil
E falsa mulher
Que ao jurar sorrindo
O amor está mentindo
Queima em uma fogueira
Todo o meu querer

Por uma cabeça
Todas as loucuras
Sua boca que beija
Apaga a tristeza
Acalma a amargura
Por uma cabeça
Se ela me esquece
Que me importa perder
Mil vezes a vida
Para que viver?

Quantos desenganos
Por uma cabeça
Eu joguei mil vezes
Não volto a insistir
Mas se um olhar
Me atinge ao passar
Seus lábios de fogo
Outra vez quero beijar
Basta de corridas
Foi-se o meu ensejo
Um final renhido
Já não volto a ver!
Mas se alguém me diz
É barbada pro domingo
Jogo tudo que tenho
O que vou fazer!

A gravação de Gardel:


Mano a mano com Caetano Veloso.

A excelente Cuesto abajo, de Le Pera, com Gardel, em filme de divulgação com roteiro e direção do parceiro brasileiro.





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