segunda-feira, 21 de abril de 2014

Terror terrir


Como todos da minha geração, gosto de cinema. Mais de um ou outro diretor e não do cinema como mero entretenimento. E nem sempre gosto dos diretores considerados como os tais.

Adoro, por exemplo, a obra cinematográfica do brasileiro Ivan Cardoso. Daí o camarada tasca com seus botões: “E quem é esse tal Ivan Cardoso?”

Ivan Cardoso

Para mim ele é tão relevante quanto Quentin Tarantino, que também adoro. Evidente que não estou comparando a visibilidade pública das obras de um e de outro.

Tarantino tem o cinemão da gringolândia por trás para estabelecer o reconhecimento do que vem fazendo.

Muito embora o público continue achando meio esquisitas suas tiradas de humor nada convencionais e as constantes citações dos filmes dos quais mais gosta. 

Quentin Tarantino

Ambos – Cardoso e Tarantino – fazem cinema sobre cinema. Usam e abusam de um troço mais velho que andar pra frente: a metalinguagem.

Metalinguagem é mais ou menos usar um tipo de linguagem para falar dela própria, mas como referencial crítico. 

Só que Tarantino foi aceito pelo mercado por fazer isso, se tornou o gênio da época, e Cordoso nem tanto, embora tenha feito filmes tão inventivos quanto os do gringo.

Ambos têm fixações relacionadas ao repertório dos filmes B, ou seja, aqueles que o mercado e o público não levam muito a sério ou faz de conta que nem conhece...



Tarantino despreza os faroeste épicos de John Ford (1894-1973) e morre de amores pelos faroestes spaghetti de Sergio Leone (1929-1989) e outros diretores italianos. 

Sergio Leone

Ivan Cardoso curte o terror de José Mojica Marins, nosso Zé do Caixão, os filmes B de terror e ficção científica norte-americanos, e o chamado cinema marginal brasileiro.




A partir desse repertório trama filmes muito bem elaborados, bem montados, embora passem a sensação – proposital – de coisas mal realizadas.

Está próximo de outros diretores nacionais de sua geração – Júlio Bressane, Rogério Sganzerla e Neville d’Almeida, principalmente – mas em alguns aspectos é até mais radical que eles.

Para início de papo, assumiu para valer o lema do seu amigo Hélio Oiticica (1937-1980):



Ivan começou seu laboratório com gente da pesada: o referido Oiticica, Torquato Neto, Luiz Otávio Pimentel, Waly Salomão e outros cabras cobras.

Mesmo quando lhe concederam grana para produções maiores, continuou a experimentar.

Até que a Embrafilmes – estatal que comandava as políticas culturais para o cinema nacional num período – fechou as poucas torneiras que o auxiliavam.

Ivan mescla terror e humor. Algo por ele mesmo denominado como “terrir”. Qual Federico Fellini (1920-1993), trabalha com atriz e atores atípicos.


Federico Fellini

Começou fazendo assistência para o diretor então marginal Rogério Sganzerla (1946-2004) em Sem essa aranha (1970), filme citado na canção Qualquer coisa, de Caetano Veloso, outro cara que logicamente adora cinema.

Por sinal, Caetano também cita obras dentro de obras o tempo todo. Ou seja, usa de metalinguagem.

O primeiro filme de Cardoso, Nosferato no Brasil (1971), concilia a estética pobre dos marginais com uma recriação, bastante pessoal, dos filmes B de vampiros protagonizados por Bela Lugosi (1882-1956).


Torquato e Scarlett Moon nos bastidores

No filme, o poeta Torquato Neto (1944-1972) interpreta um vampiro que vem parar no Rio de Janeiro e passa os dias a tomar água de coco nas praias de Ipanema.

A partir de Nosferato no Brasil, Cardoso consolidaria o estilo que veio a praticar desde então, o "terrir", gênero que mistura o humor das chanchadas escrachadas e o terror dos filmes B produzidos pelo americano Val Lewton, nos anos 1950.

Ivan Cardoso reclama: o cinema brasileiro ainda continua preso à herança do cinema novo e não soube incorporar a influência de diretores marginais como Rogério Sganzerla e Julio Bressane.

Para ele, o cinema novo morreu em 1968, mas ainda é a tônica do cinema brasileiro, impondo seu estilo de filmes com planos longos e "caquéticas temáticas sociais".

Considera a produção nacional de filmes trashs muito mais rica que a herança do cinema novo.

Seus diretores nacionais preferidos: José Mojica Marins, e outros mais obscuros, como Nilo Machado e Peter Baiestroff, autores de filmes que, segundo ele, compensam a escassez de recursos com a criatividade.

Machado corta filmes de outros diretores e os mistura com os seus. Para Cardoso, "é um Godard bárbaro". Baiestroff, por sua vez, fez filmes com baixíssimos orçamentos.

Depois de Nosferato no Brasil, Ivan Cardoso dirigiu os seguintes filmes curta-metragem: Moreira da Silva (1973), O universo de Mojica Marins (1977), H.O. (1979) – este sobre Hélio Oiticica –, Domingo de Ramos (1981), À meia-noite com Glauber Rocha (1997), Hi-fi (1999) e Heliograma (2004).

Seus longas: O segredo da múmia (1982), Os bons tempos voltaram: vamos gozar outra vez (1985), As sete vampiras (1986), O escorpião escarlate (1990), Sexo, drogas e rock’n’roll (1999), Um lobisomem na Amazônia (2005) e A marca do terrir (2005). 

Meus preferidos são: O segredo da múmia, As sete vampiras e O escorpião escarlate.

O segredo da múmia é sobre um cientista, ridicularizado por seus colegas, que tenta provar que sua maior descoberta, o "elixir da vida", realmente funciona. Para isso, decide ressuscitar uma recém-descoberta múmia egípcia.

Wilson Gray em O segredo da múmia

Tem no elenco Wilson Grey, Júlio Medaglia, Jardel Filho, José Mojica Marins, Joel Barcellos, Paulo César Peréio, entre outros.

As sete vampiras tem o seguinte argumento: depois de ver seu marido ser devorado por uma planta carnívora, uma professora de dança se isola de todos em sua casa de campo.


Imagem de As sete vampiras

Abandona seu retiro quando um velho amigo a convida para trabalhar numa boate, onde monta um balé com o título do filme. Mas sucesso do espetáculo é interrompido por estranhos assassinatos.

O filme conta com a participação da banda João Penca & Seus Miquinhos Amestrados, o então trapalhão Dedé Santana, o humorista Tião Macalé, entre outros.

Em Escorpião escarlate, o personagem Anjo é um playboy milionário que luta contra o crime, especialmente contra seu inimigo mortal, o vilão Escorpião Escarlate, que sequestrou a estilista Glória Campos.



A estrela do filme é o humorista Tião Macalé. A trilha sonora é de Júlio Medaglia e Gilberto Santeiro.

Viva Ivan Cardoso! Viva o "terrir"!

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