domingo, 4 de maio de 2014

A literatura russa moderna começa com o mulato Pushkin

O avô de Alexander Pushkin (1799-1837), o principal poeta russo do período romântico e um dos autores que mais influenciaram a literatura eslava moderna, era descendente de negros eritreus, do norte da África.

Retrato de Alexander Pushkin

O poeta era moreno e de cabelo encaracolado, qual Machado de Assis (1839-1908), cuja importância é similar para a literatura brasileira.

Suas afinidades com o escritor brasileiro também convergem para o autor de preferência: o irlandês Laurence Sterne (1713-1768).

Ambos trazem em suas obras aspectos recorrentes no texto do autor de Tristan Shandy: função construtiva predisposta à digressão, à interrupção, à lacuna, bem como o estilo fragmentário e irônico.

Ainda da mesma forma que Machado de Assis, a produção literária de Pushkin era diversa: escreveu poemas, novelas, peças teatrais, crônicas históricas e políticas...

Pushkin também era admirador do poeta inglês Lord Byron (1788-1824), cujo diabolismo se encontra entranhado em seus poemas e textos em prosa.

Entre suas obras mais conhecidas encontram-se O prisioneiro do Cáucaso, Eugene Onegin, A história da revolta de Purgatief e O cavaleiro de bronze.

Foi pioneiro no uso da língua coloquial em seus poemas e peças, criando um estilo narrativo que misturava drama, romance e sátira política e de costumes.

Como poeta, fazia uso de expressões e lendas populares, marcando os seus versos com a riqueza e diversidade do idioma russo.

Influenciou autores como Gogol, Liermontov e Turgeniev. Com Gogol, do qual era amigo, tinha projeto de desenvolvimento de uma literatura autenticamente russa. Cumpre lembrar que até o surgimento dos dois, a literatura russa era altamente influenciada pela francesa.

Retrato de Nicolai Gogol

Devido às vinculações com o grupo político “dezembrista”, responsável por uma tentativa de golpe contra o czar Alexandre I, Pushkin foi desterrado e vagou, entre 1820 e 1824, pelo sul do Imperio Russo.

Sob severa vigilância dos censores estatais, era impedido tanto de viajar para o exterior quanto de publicar, da mesma forma como ocorreria com a geração de Vladimir Maiakovski sob a batuta do regime socialista soviético na primeira metade do século XX.

A obra mais importante de Pushkin é Eugene Onegin, um romance em verso que traz um retrato panorâmico da vida russa no início do século XIX, fortemente influenciada por valores culturais da Europa ocidental, sobretudo da França.

Em 1826, recebeu o perdão do Czar, regressando a Moscou.

Morreu em episódio idêntico ao do brasileiro Euclides da Cunha (1866-1909). Ao descobrir que a esposa, Natalya Goncharova, tinha um caso com um francês residente na Rússia, chamado Georges d’Anthès, desafia-o para um duelo, no qual é morto.

Curiosamente, o episódio da traição e do duelo mortal encontra-se minuciosamente previsto em sua grande obra Eugene Onegin.

As ambiguidades semânticas e complexa construção sintática de Eugene Onegin fizeram do romance em versos de Pushkin uma das obras mais difíceis de serem traduzidas, qual ocorreria mais tarde com Finnegans Wake, de James Joyce (1882-1941).

Vladímir Nabokov (1889-1977), romancista russo naturalizado norte-americano, tentou traduzi-la primeiramente para o francês, depois para o inglês. Desistiu. Fez apenas uma versão literal, em prosa não rimada.

Vladimir Nabokov
 Roman Jakobson (1896-1982) considerava Eugene Onegin o mais perfeito exemplo de “poesia da gramática”. Ou seja, poesia cujo artefato construtivo não se volta para as imagens (fanopeia), música (melopeia) ou ideias (logopeia), mas apenas para a linguagem.

A essência compositiva da obra encontra-se na dinâmica das palavras, na evolução da composição verbal e não no desenvolvimento da ação, .

Cada estrofe do poema é constituída por um soneto. Haroldo de Campos (1929-2003) tradudiu alguns trechos com apoio de Boris Schnaiderman, do qual apresento abaixo apenas a estrofe 49 do Capítulo 8:

Leitor, sejas quem for, amigo ou
não, pouco me importa: em tom cordial
quero despedir=me e também vou
pedir desculpas. Qual o fim, qual
a meta? Quer procuras na incúria
dos meus versos? Memórias em fúria?
Remanso? Descanso da fadiga?
Quadros vivos? Verbo que fustiga?
Ou somente erros de gramática?
Queira Deus encontres neste opúsculo
para o devaneio, para o júbilo
do espirito, algo, alguma tática
de imprensa, entreveros, nada, um grão.
Adeus. Separemo-nos. Perdão.

Em seu longo poema Jubileu, Vladimir Maiakovski, que era grande admirador de Pushkin, convida seu antecessor a descer de sua estátua em Moscou, para ajudá-lo no árduo trabalho de criar cartazes de propaganda para a recém-instituída república socialista soviética, da qual o poeta era até então fervoroso defensor.

Fotomontagem de Maiakovski

Maiakovski enaltece, no poema, não o Pushkin dos acadêmicos, “a múmia”, como ele próprio diz, mas àquele que debochava do “verniz dos florilégios-catacumbas”. Ou seja, o romântico idealista, transformador, que acabou perseguido pela polícia política do czar.

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