domingo, 4 de maio de 2014

Forma é informação

Sob o controverso nome “formalismo russo” são identificados hoje importantes estudos sobre procedimentos construtivos nas artes, sobretudo poesia, correlatos aos avanços movimentos de vanguarda na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Tais movimentos surgiram paralelos à revolução russa, e em apoio a ela, inserindo-se no contexto das vanguardas europeias pós-impressionismo.

Tinham denominações diversas na recém-instituída URSS: cubofuturismo, construtivismo, suprematismo, imagismo, acmeísmo, entre outros.

Entre seus protagonistas estavam Gustav Klutsis, Vladimir e Georgi Stenberg, Nikolai Prusokov, Alexandr Rodchenko, El Lissitzky, David Burliuk, Vladimir Maiakovski, Vielímir Kliebinikov, Kazimir Malevicht, Dziga Vertov, Sergei Eisenstein, Vesvolod Meyerhold, Ivan Leonidov e dezenas de outros.


Vladimir Propp
Na esteira da importante produção desses artistas, surgiram os estudos de Viktor Chklovsky, Osip Brik, Vladimir Propp, Yuri Tynianov, Boris Eichenbaun, Roman Jakobson, Grigory Vinokur e outros.

Todos identificados como “formalistas”, quando na verdade abominavam essa denominação restritiva para uma diversidade de estudos realizados por cada um deles...
O termo “formalismo russo” foi criado por intelectuais pró-regime soviético, com sentido pejorativo, para acusar esses estudiosos de desprezar a função social da arte defendida pela estética imposta pelo regime, o realismo socialista.

Os estudos de Chklovsky, Propp, Jakobson e seus colegas não surgiram do nada. Decorrem da necessidade de se estabelecer parâmetros mais objetivos, mensuráveis, para tratar dos assuntos pertinentes à produção artística e às suas linguagens.

Tanto é que em muitos aspectos coincidem com as conclusões a que chegaram o suíço Fernand Saussure (1857-1913), criador da linguística, o norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), criador da semiótica  e, algumas décadas depois, o alemão Max Bense (1910-1990) e o estruturalismo.

Detalhe: os "formalistas" não conheciam nada de Saussure e Peirce, porque as obras dos dois só foram divulgadas mais tarde.

Fernand Saussure

Charles Sanders Peirce

Artistas críticos como Ezra Pound (1885-1972) e T.S. Eliot (1888-1965) reclamavam, no início do século XX, a necessidade de a estética e os procedimentos construtivos das artes serem tratados como ciência, para evitar o achismo dos críticos, repleto de considerações subjetivas que só obscureciam o conhecimento sobre elas.

Era exatamente o que propunham os “formalistas”: um método científico para estudar a linguagem poética, em lugar das tradicionais abordagens psicológica, histórico-cultural e sociológica.

O que os levou ao confronto com o regime soviético foi o fato de a estética do realismo socialista ser exatamente o contrário disso tudo: era dogmática, ideológica, a reboque dos interesses político-partidários. Ou seja, achismo ao pé da letra e, o que era pior, altamente tendencioso.

Com a ascensão de Josef Stalin ao poder, no final da década de 1920, os integrantes dos movimentos artísticos de vanguarda e os “formalistas” foram gradualmente dizimados.

Os movimentos de vanguarda russos são talvez os mais inovadores da arte moderna. Em alguns aspectos à frente até de movimentos da Europa ocidental, como o dadaísmo, futurismo, surrealismo e outros.

A campanha soviética contra os artistas de vanguarda e os estudiosos “formalistas” contou com apoio de vários artistas de prestígio que usufruíam das benesses do Estado totalitário. Dentre eles o escritor Maxim Gorki (1868-1936).

Em 1927, Vladimir Maiakovski, em meio à campanha difamatória, fez discurso favorável aos "formalistas" em um encontro nacional de escritores. Seu discurso foi proferido em meio a vaias e protestos dos adversários, todos pró-governo soviético.

Em 1931, Maiakovski isentou o regime de ter de matá-lo, como fizera com seus colegas, e meteu uma bala no próprio peito.

Um dos principais divulgadores do “formalismo russo” no Brasil e da arte de vanguarda russa foi o imigrante teuto-russo Boris Schnaiderman.

Schnaiderman (à dir.) ao lado de Antônio Cândido

Com seu apoio, em 1971 foi publicado no Brasil Teoria de Literatura – Formalistas Russos, livro organizado por Dionísio Oliveira Toledo, que reúne vários estudos desses intelectuais russos até 1930.

Entre outras coisas, os “formalistas” defendiam a natureza autônoma da linguagem poética e sua especificidade como um objeto de estudo da crítica literária.

Seu principal empenho consistia em definir um conjunto de propriedades características da linguagem poética (seja ela poesia ou prosa) que pudesse ser reconhecida por sua "articidade" e, consequentemente, analisá-la.

Um dos principais agrupamentos de estudiosos classificados como “formalista” pelos detratores pró-regime soviético era a Sociedade para o Estudo da Linguagem Poética, conhecida pela sigla Opojaz.

O Opojaz era liderado por Viktor Chklovsky.

Viktor Chklovsky

O objetivo principal do grupo era descobrir procedimentos que caracterizassem a linguagem poética. E a única regra seguida era não obrigar seus integrantes a terem de concordar entre si.

As figuras do autor e do leitor não eram prioritárias para os assim chamados “formalistas”.

Colocavam a linguagem poética no topo da hierarquia em todos os seus estudos. Também negavam a emoção como critério para estudar literatura.

Para Jakobson, as qualidades emocionais de uma obra literária são secundárias e claramente dependentes dos procedimentos linguísticos.

Os teóricos do Opojaz distinguiam a linguagem poética da linguagem prática.

Linguagem prática era a usada na comunicação cotidiana para transmitir informações. Na linguagem poética, de acordo com Lev Jakubinsky, o objetivo prático fica em segundo plano e as combinações linguísticas adquirem valor por nelas mesmas.

Os “formalistas”, em especial Roman Jakobson, foram os primeiros a estudar sistemática e objetivamente a função dos padrões sonoros na poesia.

Roman Jakobson

Para eles, na poesia as palavras são escolhidas por seu som, não por seu significado léxico. Essa linha de crítica separou definitivamente a linguagem poética da linguagem prática.

Iniciou-se então um método para o exame quantitativo da estrutura linguística dos textos literários.

Um exemplo definitivo de foco na linguagem poética é o estudo de versificação russa por Osip Brik, um dos principais amigos de Maiakovski. Os dois dividiam a mesma amante: Lilia Brik (oficialmente casada com o primeiro).

Além dos recursos mais óbvios como rima, onomatopeia, aliteração e assonância, Brik explorou tipos variados de repetições sonoras.

Mas os "formalistas" não tinham nada de elitistas, como afirmavam seus detratores.

Roman Jakobson é contra a visão de que "um leitor modesto" não-iniciado na ciência da linguagem é presumivelmente insensível a distinções verbais.

"Falantes utilizam um complexo sistema de relações gramaticais inerentes a sua linguagem, mesmo que eles não sejam capazes de defini-lo", dizia ele.

As forças convergentes e divergentes dentro do "formalismo" convergiram para o estruturalismo entre 1960 e 1970. Alguns dos que sobreviveram às perseguições do governo soviético migraram para a França.

Jakobson foi um dos poucos que permaneceram na Rússia até a queda do regime.

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