domingo, 4 de maio de 2014

Música de invenção com variados timbres

Brasília em 1973. Nessa época eu chegava por lá das bibocas onde fui criado, no sertão do Planalto Paulista, na divisa com o Triângulo Mineiro.

A pesada sombra do AI-5 pairava pela capital federal. A vigilância (e a violência) política estava em alta, pois os grupos da luta armada ainda não tinham sido totalmente dizimados.

Falava-se em focos de guerrilha bem próximos de onde estávamos: na região serrana de Pirinópolis, em Goiás. Esta cidade é, hoje, ponto turístico, não pela guerrilha do passado, mas pelos atrativos naturais e história colonial.



O poema-frase acima é do matogrossense Nicolas Beher, um dos cabras que estavam por Brasília quando lá cheguei.

A Polícia Federal dava bacolejos nos bares mais frequentados pela moçada. Éramos presos por nada, só para o canas exibirem poder. Certa vez apanhei deles um bocado e até hoje não sei o motivo.

Éramos apenas uma porção de carinhas com cerca de 20 anos, de várias partes do Brasil, tentando encontrar um rumo para nossas vidas.

Meus amigos eram de vários estados...

Pedro Anísio do Pará. Arão e Durvalino do Piauí. Bia do Rio Grande do Sul. Jorge Frederico e Ivan da Bahia. Agamenon de Sergipe. José Pereira da Paraíba. Arara e Rachel do Espírito Santo. Wesley de São Paulo. Luiz de Rondônia. Carlos Schiramm de Santa Catarina. Deo e Padu do Rio.

E vários de Minas Gerais: João Borges, Cristina, Tadeu, Juscelino, Everaldo, Paulinho e tantos outros.

Alguns desses compunham a base do grupo de teatro Pedra, do qual eu fazia parte. Paulinho (Paulo Sérgio Santos) era tanto ator quanto percussionista da peça que montamos: Farsa do advogado Pathelin, texto medieval de autoria anônima.

Éramos duríssimos. Mesmo sem saber como comer algo durante o dia, nos empenhávamos em fazer coisas. O tempo todo.

Ensaiávamos num espaço atrás da torre do Eixo Monumental. De lá saíamos para os agitos da 109 Sul.

Ficávamos em torno dos bares da 109, muitas vezes sem grana até para ocupar uma mesa. Uma dose de pinga ou uma mera ponta de baseado passavam por várias bocas. Se pintasse uma festa, íamos. Se pintasse uma mina, íamos fundo.

Bar e restaurante da 109 Sul

Quando não rolava uma coisa nem outra rolavam, voltávamos a pé para a Asa Norte, onde morava a população menos endinheirada do Plano Piloto. Não havia mais ônibus naquele horário. Grana para táxis, nem pensar.

Na época em que morei na 112 Norte, eram uns quinze quilômetros de caminhada! Imagine andar tudo isso com a cabeça trelelé de cachaça, maconha e bolas.

Veio a greve de 1977 na UnB e uns 300 carinhas que nela estudavam foram jubilados. Fui um dos.

Mais tarde, eu e Durvalino reencontramos Paulinho em 1982, creio, num Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo. Estávamos numa sala com nossa peça Curva da tormenta, do grupo Verdadeiros Artistas, e Paulinho noutra com seu grupo Uakti.

Combinamos de nos encontrar ao final de ambas as apresentações para tomar umas. Mas houve uma tremenda briga entre os integrantes do nosso grupo e quando nos demos conta já tinha passado o horário do encontro.

Ele deve ter ficado puto por ter nos esperado em vão. Baita toca. Depois disso nunca mais o vi. Creio que Durvalino também não. Mas acompanho com orgulho a carreira do amigo e do seu ótimo grupo instrumental.

O Uakti, em linhas gerais, é soma da inventividade musical mineira, sempre com um pé na genética popular barroca, com a efervecência da vanguarda europeia da primeira metade do século XX.

Apresentação do Uakti, como Paulinho ao fundo

O grupo traz nas veias dois suíços porretas: Walter Smetak (1913-1984) e Ernest Widmer (1927-1990).

A relação de Smetak e Widmer com Brasil passa pelo alemão Hans-Maria Koellreutter (1915-2005), que influiu na formação de boa parte dos melhores músicos brasileiros das últimas sete décadas.

Hans-Maria Koellreutter

Veja sobre ele o artigo deste blog Existe Tom, existe Tom Zé, existe Koellreutter.

A 2ª Guerra Mundial empurrou Smetak para fora de Viena, Áustria, onde se formara concertista. Em 1937, mudou-se para o Brasil, contratado para tocar na Orquesta Sinfônia de Porto Alegre.
Walter Smetak
Mas quando chegou à capital gaúcha, a orquestra já não existia.

Teve de sobreviver por cerca de vinte anos tocando em festas, cassinos e emissoras de rádio do Rio de Janeiro e São Paulo. Gravou com vários cantores populares, dentre eles Carmem Miranda.
 

Em 1957, Koellreuter o levou para Universidade Federal da Bahia, onde deu aulas e iniciou suas pesquicas sonoras. Construiu por lá uma oficina onde criava instrumentos musicais com tubos de PVC, cabaças e outros materiais pouco usuais.

Essas suas pesquisas visavam não apenas obter sons diferentes, mas também o caráter plástico dos instrumentos. Diríamos: eram instrumentos musico-esculturais. Tanto que vários deles foram expostos em bienais e mostras de artes plásticas.


A oficina de Smetak na Universidade Federal da Bahia estava sempre com as portas abertas, mesmo quando ele não se encontrava por lá.


Era ponto de encontro dos então jovens Gilberto Gil, Rogério Duarte, Tuzé de Abreu, Tom Zé, Gereba, Djalma Correia e Marco Guimarães, o fundador do Uakti.

Smetak era artista de múltiplos talentos. Escreveu vários livros teóricos sobre ensino de música, artes plásticas, teosofia e até peças de teatro.

Ernest Widmer veio para o Brasil, em 1956, a convite de Koellreutter, para dar aulas na mesma Universidade Federal da Bahia, onde idealizou os cursos de música nova (inclusive dodecafônica) e apresentações de novos compositores da Bahia, dentre eles Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, quando ainda nem se falava em tropicalismo.


Widmer como regente
Autor de uma vasta obra, Widmer também realizou estudos sobre o folclore musical baiano. Seu trabalho no Brasil esteve sempre bastante associado ao do compatriota Smetak.

Sua produção artística chega ao Opus 173 e abrangeu vários gêneros musicais: peças didáticas, religiosas, de concerto, ópera, balé, música para cinema e teatro.


Depois de ter estudado música na Unversidade Federal da Bahia, Marco Guimarães voltou para Belo Horizonte, a fim de desenvolver seus próprios projetos musicais.

Marco Guimarães

Flertou com vários músicos para criar um grupo. Por fim, escolheu Artur Andrés Ribeiro, Décio Ramos e nosso amigo Paulinho para formar o Uakti.


A formação de Guimarães na Bahia abrangeu inclusive conhecimentos sobre melodía de timbres (klangfarbenmelodie) de Arnold Schöenberg (1874-1951) e Anton Webern (1883-1941). 

Trata-se de um sistema de composição que sustenta as séries de notas por seus valores tímbricos. O chamado serialismo, com o qual trabalhou Arrigo Barnabé em várias composições.

Havia em Minas Gerais outra importante herança relacionada ao alemão Koellreutter, o homem que abriu as portas para Smetak e Widmer no Brfasil: os estudos de Régis Duprat, que fora aluno, sobre os compositores barrocos mineiros.

Guimarães prosseguiu, com viés próprio, a proposta de Smetak: o cabra músico não tem só de ser bom intérprete, mas ser capaz de criar os instrumentos para a música que considera ideal, compor e, se necessário, inventar uma notação própria.

Os integrantes do Uakti fazem tudo isso. E também prosseguem com o viés educacional. Como Smetak, o grupo tem seu espaço próprio na capital mineira para ensaios, criação de instrumentos e formação de novos músicos.

Em 2009, Marco Antônio Guimarães anunciou sua intenção de interromper as atividades como principal compositor do grupo. Os demais membros passariam a atuar como compositores e arranjadores para os novos trabalhos.

Formação atual do Uakti
No vídeo, a seguir, apresentação de Trenzinho caipira, de Villa-Lobos:


Tenho baita orgulho de verouvir Paulinho e os demais explicando e demonstrando o que fazem com convicção e competência.

Mas a voz de Paulinho, apesar de toda a seriedade com que se expressa hoje em dia, sempre me soa com as nuanças de um outro viés genético inventivo. Este familiar, vindo de seu Valdir (seu pai) e do irmão Túlio, que foi também nosso amigo.

O Samba curto (letra e música de seu Valdir) é uma das mais bonitas letras que conheço de elogio à força germinativa e à sensualidade femininas. Lírico e, ao mesmo tempo, de safada molecagem:

Quando eu nasci
Eu olhei pra trás
O que eu vi
Não esqueço mais

É por isso que eu gosto da mulher
E ela faz de mim o que quiser

Quando eu nasci...

Não tenho a melodia gravada, mas posso apresentá-la às interessadas.

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