domingo, 4 de maio de 2014

O autoexílio de Paul Bowles

O escritor e compositor Paul Frederic Bowles 1910-1999) teve uma vida tão longa quanto atormentada.

Provinha de uma família rica de Nova York. Desde jovem parecia predestinado a deixar as coisas para trás.

Em 1929, abandonou os estudos – e a convivência com o pai, com quem não se dava – e foi para Paris.

Paul Bowles

A capital francesa era Meca dos artistas e malucos norte-americanos da época. F. Scott Fitzgerald, Hemingway, Man Ray e outros estavam por lá.

Bowles deixou Nova York porque não suportava mais sua família e a alta burguesia.

Queria dar algum sentido à sua vida e, para isso, sentiu que seria preciso dar adeus ao meio no qual fora criado.

Já tinha alguns contos publicados. Muito rigoroso consigo próprio, nunca esteve certo de que era um bom escritor e isto o atormentava terrivelmente.

Aliás, nunca esteve certo de que era bom em nada. Qualquer opinião desfavorável à sua obra, mesmo que proveniente de críticos inexpressivos, o deixava mais arrasado que qualquer elogio...

De todos os norte-americanos que estavam em Paris era com Gertrude Stein (1874-1946) com quem ele melhor se dava.


Por trás do jeitão irônico e questionador, Gertrude e sua companheira Alice Toklas eram hospitaleiras e cuidavam com dedicação dos seus vários amigos homens.

Gertrude Stein
 Bowles foi um dos. Ela procurou estimulá-lo e desenvolver outro dos seus grandes talentos: o de músico. Mas o exigente Bowles achava que também nunca seria um bom compositor.

Em 1938, Bowles casou-se com a dramaturga Jane Auer, que, como ele, gostava tanto de homens quanto de mulheres. Por isso, decidiram ter um relacionamento aberto.

Jane Auer

Mudaram-se para Tânger (Marrocos). O suave ambiente do Norte de África, a tolerância local aos seus hábitos sexuais e o acesso fácil às drogas foram os fatores determinantes para a mudança de ares.

Na capital marroquina, o casal era hospitaleiro sob todos os aspectos. Oferecia não só sua casa aos visitantes, como suas próprias camas – com eles próprios, claro. Ópio, haxixe e muito álcool era o que não faltava.

Jane Auer e Paul Bowles

A residência se tornou uma espécie de centro de peregrinação dos artistas da geração beat.

Por lá passaram Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso, Truman Capote, Tennesse Williams, Gore Vida e, entre outros, o brasileiro José Agripino de Paula.

Burroughs, Bowles e Gregory Corso

Truman Capote, Jane Auer e Paulo Bowles
Nessa casa, Bowles produziu suas principais obras literárias e composições. Viveu por lá até a morte, embora passasse parte do tempo viajando.

Dentre as suas obras mais conhecidas O céu que nos protege (The sheltering sky), adaptado ao cinema por Bernardo Bertolucci, é a mais conhecida.

Conforme intuíra Gertrude Stein, Bowles, apesar da insegurança que o perseguiu por toda a vida, era um artista de múltiplos talentos.

Escreveu romances, contos, poemas e livros de viagens.

Chegou a retornar aos EUA, mas apenas para participar de produções cinematográficas como autor de trilhas sonoras e roteiros.

Trabalhou com Orson Welles, Elia Kazan e Tennesse Willians.

Uma de suas composições foi encenada pelo coreógrafo canadense Merce Cunnighan, que mais tarde trabalharia com John Cage, Lou Reed, Laurie Anderson, entre outros músicos.

Bowles ao piano

Bowles também compôs várias peças para orquestra, piano e canto.

Deixou ainda um importante acervo de fotografias, sobretudo de cenas e personagens da vida marroquina.

Independe de onde estivesse, sua residência era a de Tânger. Era para lá que sempre retornava. Traduziu para o inglês vários autores marroquinos e contos tradicionais do país, recolhidos oralmente.

Bowles nunca teve posicionamento político, mas detestava os ricos e tinha natural identificação com os mais miseráveis, sobretudo os marginalizados.

Em meio à escória dos mercados populares de Tânger pescou vários dos seus amantes dos dois sexos.

A vida luxuriante que o casal Bowles levava acabou por desgastar o relacionamento.

Bowles cada vez mais tinha predileção por amantes masculinos jovens.Sua mulher passou a se afundar no álcool e a manter relacionamentos ostensivos com seus amigos próximos, só para magoá-lo.

Em 1957, com a saúde muito abalada, Jane foi internada numa clínica psiquiátrica de Malaga (Espanha) e por lá ficou até falecer em 1973.

Em seu livro autobiográfico Tantos Caminhos, publicado pela Editora Martins Fontes, Bowles relata que amava Jane loucamente, mais que a si próprio e que se sentia tão culpado por seu declínio psicológico que tinha nojo de si próprio.

Depois do enlouquecimento de Jane se recusava a ver a própria imagem em espelhos ou em fotografias. Tornou-se um homem depressivo e amargurado.

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