domingo, 4 de maio de 2014

O poeta como inimigo público

François Villon (1431- ?) foi ladrão, assassino, amante de putas, viveu e desapareceu de forma misteriosa e escreveu os mais belos versos franceses do século XV.

Período em que a Itália entrava na Renascença, mas a França ainda vivia os estertores da Idade Média.

O que se sabe sobre ele se deve aos mais de 3.000 versos recuperados das dezenas de baladas confessionais que escreveu – as quais guardam traços da lírica trovadoresca de dois séculos antes.


Desenho reúne imagens de Villon e Rabelais
Mas até os 32 anos sua vida é bastante conhecida, principalmente graças aos arquivos da polícia da época e aos registros dos julgamentos aos quais foi submetido.

Villon foi preso e submetido aos tribunais cinco vezes por crimes diversos – a maioria, roubo – e chegou a ser condenado à forca, da qual escapou por um indulto monárquico no último momento.

Sua poesia é quase toda sobre as essas suas façanhas – sobre as quais sempre declarou inocência, como ocorre com a maior parte dos criminosos – ou sobre a turba marginalizados em meio à qual viveu. As musas de seus poemas são prostitutas.

Embora sua poesia traga a fala das ruas – inclusive com menções a gírias de baixo calão da época – demonstra que teve boa formação.

Esmera-se pelas rimas difíceis. E as combinações engenhosas de suas baladas o aproximam do equilíbrio buscado pelo classicismo renascentista da vizinha Itália.

A vida visível de Villon vai da data do seu nascimento até 1463, quando desaparece sem deixar rastros...


Aos 18 anos teria recebido bacharelado em Letras. O assassinato de um padre o leva à ruptura com seu protetor, o cônego Guillaume de Villon – de quem herdou o sobrenome – e troca o mundo legal pelo marginal.

A partir daí viveu de roubos, pelos quais foi sucessivas vezes preso e condenado.

Com base nas prisões e processos pelos quais foi julgado se sabe de suas andanças por várias cidades francesas. Como já disse, até os 32 anos. Toda a obra que produziu remete a esse período. A partir daí, é uma incógnita o que teria ocorrido com ele.

Graças à polícia francesa, há vários retratos dele, produzidos e divulgados na época para que fosse capturado mediante premiação àqueles que o delatassem.

Inspirado em uma de suas baladas – à prostituta “gorda Margot” – Charles Baudelaire compôs seu soneto burlesco A giganta, que integra seu grande livro As flores do mal:

Charles Baudelaire

A giganta

Quando a Natura a fecunda com pujância
Concede à luz do dia novos filhos monstruosos,
Quisera viver sobre o corpo dessa giganta,
Largar-me ao longo do seu dorso como um gato voluptuoso.

Me agrada ver seu corpo se exceder como uma chama
Ao enlarguecer-se livremente em terríveis jogos;
Adivinhar seu coração é a cobiça que me inflama
Sob as úmidas brumas que se espalham dos seu olhos;

Em tudo me agradam suas magníficas formas;
Deixo-me arrastar pelos seus contornos enormes
Seja no previdente inverno ou no evasivo outono

Relaxada, ela estende o corpanzil pela campina
Dorme despreocupada à sombra dos meus sonhos,
Como una plácida aldeia ao pé de uma montanha. 


Se formos concordar com Jorge Luís Borges de que é melhor ter más traduções do que não tê-las, informo que as baladas de Villon foram publicadas no Brasil sob o título Poemas de François de Villon, com tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos.

A tradução de Silva Ramos foi premiada e indicada pela Academia Brasileira de Letras. Mas é horrível! Literal, com rimas pobres – o que é um crime cultural para um poeta prezado justamente pela riqueza das rimas.

Em 1463, Villon foi preso depois de se envolver numa rixa violenta e condenado ao enforcamento. Compôs, então, La ballade dês pendus, a qual foi vertida para o português por Augusto de Campos com a habitual competência:


Balada dos enforcados

Irmãos humanos que ao redor viveis,
Não nos olheis com duro coração,
Pois se aos pobres de nós absolveis
Também a vós Deus vos dará perdão.
Aqui nos vedes presos, cinco, seis:
Quanto era cara viva que comia
Foi devorado e em pouco apodrecia.
Ficamos, cinza e pó, os ossos, sós.
Que de nossa aflição ninguém se ria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Se dizemos, irmãos, vós não deveis
Sentir desprezo, embora condenados
Tenhamos sido em vida. Bem sabeis:
Nem todos têm os sentidos sentados.
Desculpai-nos, que já estamos gelados,
Perante o filho da Virgem Maria.
Que seu favor não nos falte um só dia
Para livrar-nos do inimigo atroz.
Estamos mortos: que ninguém sorria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

A chuva nos lavou e nos desfez
E o sol nos fez negros e ressecados,
Corvos furaram nossos olhos e eis-
Nos de pêlos e cílios despojados,
Paralíticos, nunca mais parados,
Pra cá, pra lá, como o vento varia,
Ao seu talante, sem cessar, levados,
Mais bicados do que um dedal. A vós
Não ofertamos nossa confraria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.

Meu príncipe Jesus, que a tudo vês,
Não nos entregues à soberania
Do Inferno, que só ouvimos tua voz.
Homens, aqui não cabe zombaria,
Mas suplicai a Deus por todos nós.


Como já disse, ele foi perdoado no último momento. Sabe-se que deixa Paris após ganhar liberdade e não mais regressa. Pelo menos não foram encontradas mais quaisquer referências a ele nos relatórios da polícia e nos anais judiciários daí por diante.

A França é repleta de poetas e escritores que tiveram um pé no submundo. François Rabelais (1494-1553) foi o sucessor de Villon, nesse sentido.

Mas vieram Marques de Sade (1740-1814),  o próprio Baudelaire (1821-1867), Arthur Rimbaud (1854-1891), Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) e Jean Genet (1910-1986).

No Brasil, tivemos Gregório de Matos (1636-1696) e, entre outros, Roberto Piva (1937-2010), que exibia com orgulho as cicatrizes adquiridas em brigas no métier da putaria homossexual de São Paulo.

Roberto Piva

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