domingo, 4 de maio de 2014

Poe, Baudelaire, Mallarmé e a era das vanguardas

A história das artes desde o romantismo até nossos dias se desenrolou a partir do conflito entre movimentos de ruptura com as tradições e as tendências conservadoras pró-naturalismo (leia-se: favoráveis ao classicismo).
 

O século XX ficou conhecido como o século dos movimentos de vanguarda (futurismo, dadaísmo, imagismo, surrealismo, modernismo, concretismo, tropicalismo e outros ismos). Todos de ruptura.
 

Mas o ápice desse processo, que teve início no romantismo, se deu a partir de meados do século XIX com o simbolismo. Inicialmente na França, depois em vários países, incluindo o Brasil.
 

Edgar Allan Poe
Charles Baudelaire
 
Stéphane Mallarmé


O romantismo representou a revolta individual, do artista, por uma nova sensibilidade.

É sintetizado por esta frase do russo Vladimir Maiakovski (1893-1930), um romântico moderno: “Sou poeta, por isso sou interessante.” Ou seja, impôs-se pela rebeldia individual.
 

O regime comunista massacrou os cubofuturistas – movimento ao qual pertenceu Maiakovski e que apoiou a revolução soviética – pela sua insistência em manter as vertentes transformadoras individualistas, que entravam em conflito com os interesses coletivistas dominantes. 
 

O classicismo representou, sempre, o padrão normativo do processo civilizatório, vinculado aos alicerces formativos ocidentais provenientes das culturas grega, latina e judaica. Concebido como máquina social acima da alma individual.
 

O regime comunista soviético representou, no tocante aos movimentos artísticos revolucionários daquele período, uma imposição classicista, coercitiva, conservadora e, o que era pior, extremamente violenta...

O poeta romântico (e, como já disse, Maiakovski era um) pensa o mundo como organismos com identidades próprias. A natureza, as pessoas, as minorias étnicas, as diferenças de gênero, seus próprios desejos e percepção são todos levados em conta.
 

Vale salientar que a relação entre os movimentos de ruptura (de renovação) como o romantismo e o classicismo (de conservação) não ocorre em terrenos inconciliáveis. Em outras palavras, os opostos se alimentam.
 

A ruptura se nutre do instituído para negá-lo e a tradição se renova ao reagir às mudanças.
 

Não foi bem o que ocorreu com o regime comunista soviético, que se manteve centralizador e irredutível até entrar em colapso.
 

Mas foi assim que autores provenientes de processos de ruptura, como Ibsen e Flaubert, instituíram com suas obras de caráter naturalista o classicismo moderno.
 

Idem para Marcel Proust (1871-1922), que saiu dos círculos simbolistas para se consagrar com um estilo de prosa memorialista que se tornou referência clássica em nossos dias.  


Marcel Proust

Todas as diretrizes dos movimentos de vanguarda modernos, isto é, do século XX, saíram do simbolismo – movimento de ruptura proveniente do romantismo – e de suas várias vertentes.
 

Dois românticos tardios deram o pontapé inicial para que isso ocorresse: o norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1949), com sua obra e teorias revolucionárias sobre a composição literária, e o francês Charles Baudelaire (1821-1867), que traduziu e difundiu a obra de Poe na França.
 

Indícios da revolução simbolista já são encontrados nas obras dos ingleses Thomas de Quincey (1785-1859) e Samuel Taylor Coleridge (1772-1874) – vide o belo poema Kubla Khan.


Retrato de Thomas de Quincey

Retrato de Samuel Taylor Coleridge
 Mas foi Poe que transformou o romantismo em algo diferente e impôs o conceito de sugestão em arte, em lugar de afirmação.
 

Também procurou nos convencer de que a música deveria ser um dos principais referenciais das artes – por sua natureza essencialmente concreta – o que os criadores do simbolismo, e seus seguidores, acataram com rigor.
 

Poe também insistia na importância do inconsciente, das sensações suprarracionais. Elementos que já se encontram presentes nas obras dos poetas elisabetanos Willian Shakespeare (1564-1616) e Christopher Marlowe (1564-1593), e na do romântico Gerhard de Nerval (1808-1855).
 

O simbolismo francês, em linhas gerais, teve como ponto de partida as teorias estéticas deixadas por Poe e traduzidas por Baudelaire.
 

Mas o movimento também violou regras formais, dentre elas a métrica convencional da poesia, que Poe e os demais românticos mantiveram intacta.
 

Aboliu, por exemplo, o verso alexandrino (composto por 12 sílabas e estrutura isométrica), um dos baluartes da poesia clássica.
 

Foi além: criou o verso livre, que passou a ser amplamente utilizado por toda a poesia moderna.
 

Depois de Poe e Baudelaire, a terceira figura fundamental para o simbolismo – e toda a poesia moderna que o sucedeu – foi Stéphane Mallarmé (1842-1898), um dos poetas mais experimentais da história da literatura.
 

Mallarmé produziu pouco, foi impopular (os jornais parisienses o ridicularizavam), mas a nata revolucionária sabia que ele era o mestre dos mestres.
 

Toda a sua vida esteve concentrada na transformação da poesia, qual a conhecemos hoje por meio de sua obra, dos seus pares do movimento simbolista e dos poetas modernos que o sucederam.
 

Lecionava inglês para sobreviver e vivia num apartamento modesto, ao lado de uma linha férrea. Todas as terças-feiras sua residência estava aberta para reuniões de artistas. Não era preciso convite para delas participar.
 

Dizem que as reuniões tinham de ser interrompidas quando os trens passavam, porque as pessoas não conseguiam ouvir umas às outras.
 

Por lá passaram, entre outros, Joris-Karl Huysmans, Edgar Degas, Jules Laforgue, Paul Claudel, Pierre Louys, André Gide e vários estrangeiros, como Oscar Wilde, Arthur Symons, George Moore, Maurice Maeterlinck e Willian Butler Yeats.
 

Muitos dos assuntos ali tratados foram privativos dos artistas envolvidos e jamais chegaram ao conhecimento do público. Ou, por outro lado, se encontram ocultos nos versos dos poetas, como ideias-símbolos.
 

“Os parnasianos (classicistas) tomam as coisas como elas são e as despem dos mistérios. Assim, privam o artista de acreditar que está criando e aniquilam a fruição do poema. Não queremos privar o leitor da satisfação de adivinhar pouco a pouco, de se encantar com a imaginação”, dizia.
 

Em sentido inverso ao classicismo, insistia nas reuniões que uma das tarefas do poeta era descobrir ou inventar uma linguagem especial que fosse a única capaz de exprimir sua personalidade e percepções.
 

Insinuar as coisas, em vez de formulá-las, foi um dos preceitos básicos do simbolismo seguido por todos os movimentos de vanguarda que o sucederam.
 

Além de Poe e Baudelaire – e de Mallarmé – foram importantes para nutrir o simbolismo o compositor alemão Richard Wagner (1813-1888), pelo seu esforço por aproximar a música da literatura e demais artes, e o também francês Gérard de Nerval, por suas conexões entre o imaginário e o real, sensações e fantasias.


Richard Wagner

Gérard de Nerval

Enfim, a história das artes do nosso tempo é, em grande parte, decorrente do desenvolvimento do que foi plantado pelos simbolistas, bem como por sua aproximação ou conflito com o naturalismo (ou classicismo).

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