domingo, 4 de maio de 2014

Um cubano menos médico

Embora tenha se formado em medicina, o cubano Severo Sarduy (1937-1933) jamais serviria de moeda de trocas políticas entre o governo castrista e governos “amigos”, como este que atualmente desconecta cada vez mais o Brasil do futuro.

Sarduy, que foi um dos principais herdeiros de uma dos maiores escritores das Américas – Lezama Lima (1910-1976) –, juntamente com Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), jamais se submeteria a essa política escravagista de Estado.

Severo Sarduy

Era uma bicha extremamente orgulhosa e digna. Mas não poderia mesmo servir ao Mais Médicos, pois abandonou a medicina pela literatura e morreu fora do seu país, como exilado.

Qual seu amigo Cabrera Infante, participou do governo “revolucionário” num primeiro momento, mas se indispôs e teve de deixar o país, para terminar seus dias em Paris, vitimado pela Aids.

Sarduy e Infante eram homens de esquerda. Sarduy foi editor do jornal Lunes de Revolución e trabalhou para a rádio estatal cubana. Infante chegou a ser ministro da Cultura.

Cabrera ao lado de sua bela esposa Mirian Gomez

Os problemas de Sarduy foram principalmente com Che Guevara, que detestava homossexuais, e cortou todo apoio estatal aos intelectuais que tinham tal preferência sexual...


Na França, Sarduy colaborou com a revista Tel Quel – do movimento nouveau roman – e manteve convivência intelectual com o grupo estruturalista, em especial com Roland Barthes e a romena Julia Kristeva.

Roland Barthes
Julia Kristeva

A expressão nouveau roman foi criada para agregar trabalhos de escritores experimentalistas residentes na França, na década de 1950, que criavam um estilo novo a cada obra.

As ideias do grupo, que reuniu escritores como Alain Robbe-Grillet e Marguerite Duras, dentre outros, se projetaram no cinema por meio da nouvelle vague, que tinha como principais diretores Alain Resnais, Jean Luc Godard e François Truffaut.

Severo Sarduy integra a chamada corrente neobarroca latino-americana, sobre a qual deixou as definições abaixo:

“O neobarroco não é vanguarda, não se preocupa em ser novidade. Apropria-se de fórmulas anteriores, remodelando-as, como argila, para compor o seu discurso. Ou seja, dá um novo sentido a estruturas consolidadas, como o soneto, a novela, o romance, perturbando-as. O ponto de contato entre o neobarroco e a vanguarda está na busca de vastos oceanos de linguagem pura, polifonia de vocábulos.” 

Sarduy cultuava a lírica do bizarro, explorando a relação entre o corpo e o texto, como no livro de poemas Big Bang (1974). Sua estética, diferente da afirmação acima, tinha sim traços vanguardistas.

Foi também um importante ensaísta e romancista.

Seus livros Escrito sobre un cuerpo (1969) e Barroco (1974) são essenciais para compreender a literatura latino-americana contemporânea, incluindo a nossa.

Escreveu os romances Gestos (1963), De donde son los cantantes (1967), Cobra (1972) e Maitreya (1978). Esta foi sua obra mais aclamada, mesclando largamente o barroquismo e o humor.

Posteriormente, publicou Colibrí (1984), um relato sobre as agruras no período em que serviu ao regime castrista.

Suas últimas produções, já bastante doente, foram os livros Otro – sobre os travestis e seu submundo – e Pájaros de la playa.

Pouco antes de morrer, concedeu uma entrevista na qual falou sobre vários aspectos de sua obra e, claro, sobre Cuba, com seu olhar neobarroco.


“Eu nunca saí de lá. Continuo a ver pedaços de Cuba por onde quer que eu passe. As lajes brancas, o borrão de cores protegido pela chuva fresca, o rumor da terra subindo até as flores, a luz que filtra entre as folhas das bananeiras os macacos que se sacodem furiosos sob o calor, as folhas que caem sobre os turbantes dos trabalhadores rurais que dormem às sombras. Tais recordações não têm lugar para se reacenderem em mim. A orquestra de Aragón com sua flauta que atravessa um templo índio, o dulçor ácido do abacaxi, o cheiro da cana de açúcar, a voz de alguém que canta alto. Em todo lugar que eu esteja, estou sempre caminhando por Cuba.” 

Sobre Lezama Lima:

Lezama Lima
 “Recordo perfeitamente seu sorriso e timbre de voz. Tinha a força germinativa da morte. Por isso, agora que está morto continua nos irradiando a mesma força germinativa da vida. Seu texto, como o dos grandes fundadores, tinha de ficar incompleto, como as cartas fortuitas que Hernando de Soto ia deixando, pregadas nas árvores para sua esposa. Ela as continuou recebendo mesmo após sua morte. Era uma forma dele se fazer desenterrado, de modo que sua imagem se fizesse fluente como no leito de um rio.”

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