sábado, 28 de junho de 2014


O artista plástico norte-americano Andy Warhol (1828-1987) era um gay apaixonado por mulheres.

Sua relação com os homens se dava mais ou menos como a dos machões boçais com as fêmeas: dominação durante o sexo e desprezo após.

Warhol não confiava nos homens. Considerava-os uns aproveitadores. Mas como tinham aquilo de que gostava – picas – aliciava-os para o coito e depois os mandava às favas.

Ele e seu amigo Truman Capote (1924-1984), também veado, pensavam de forma semelhante acerca do quesito.

Andy Warhol e Truman Capote entre amigas na Factory


Um entrevistou o outro seguidas vezes. Entrevistas em forma de diálogo.  Irônicas. Bem-humoradas. Provocativas.

Não abriam exceção nem às bichas. Em uma das entrevistas, Capote perguntou a Warhol:

– Dear, o que há de mais constrangedor nessas festas de pessoas que se acham interessantes?

Warhol:

– Homens burros.

Capote:

– E o que há de mais constrangedor que homens burros?

Warhol:

 – Bichas burras.

As mulheres, para Warhol, eram não só mais inteligentes, confiáveis, como muitíssimo mais belas que os homens.

Quando queria se mostrar bonito, Warhol se travestia de mulher. Não achava os homens, incluindo ele próprio, bonitos. Tinham picas. Nada mais que isso.

Seu estúdio Factory sempre estava repleto de mulheres. Algumas eram as suas escolhidas.

Abordarei neste artigo três de suas musas: Ultra Violet, Nico e Patti Smith. Mas existiram várias.

Warhol tratava suas escolhidas como rainhas. Fez o que pode por elas. Quando estavam no fundo do poço, sabiam que bastava contar com ele. Estava sempre pronto para ajudá-las...


No artigo Erotismo sadomasoquista na moda, publicado neste blog em 31/12/2013, abordei o trabalho do fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004) para a revista Vogue.

Newton fotografava belas mulheres com enfoque sadomasoquista heterossexual, que mais tarde foi imitado por vários fotógrafos de revistas de moda. Inclusive brasileiros.

A estética do fotógrafo e artista plástico norte-americano Robert Mapplethorpe (1946-1989) era também voltada para o sadomasoquismo. Porém sobre o universo homossexual masculino.

Mopplethorpe, assim como Newton, só fotografava preto e branco.

Mesmo quando não retratava pessoas – registrou imagens de flores, objetos, cenários públicos, animais – a sensualidade sadomasoquista estava presente.

Essa foi sua escolha para tudo que realizou durante seus 42 anos de vida. Uma escolha ousada, que lhe trouxe muitos problemas.


Autorretrato de Mapplethorpe de 1980


Autorretrato próximo do fim, em 1989,
com seu símbolo preferido: a caveira


Passados 25 anos de sua morte, ainda hoje parte de suas fotografias ainda é proibida de ser exibida nos EUA.

Em 1990, a polícia invadiu uma exposição póstuma em Cincinnati (Ohio) e processou o museu Contemporary Arts Center criminalmente pela mostra – um caso único nos EUA.

Numa das campanhas eleitorais norte-americanas, um senador ultraconservador sulista exibiu suas fotos de crianças como exemplo de pornografia infantil.


Honey (1976)
De acordo com o próprio Mapplethorpe, a opção pela temática da sexualidade não era para exibir sexo, mas para desmistificá-lo, despi-lo do peso da hipocrisia e torná-lo digerível como qualquer outro assunto sobre a condição humana.


As referidas fotos com crianças são belas, anticonvencionais, expondo a sensualidade infantil como fizera século antes – também de forma bastante ousada e criticada pelos contemporâneos – o escritor e matemático inglês Lewis Carroll (1832-1898)...


Em 1972, a revista norte-americana Rolling Stone contratou os serviços de Truman Capote para cobrir a turnê Exile on main street (1972), dos Stones, pelos EUA.
 

Capote ficou semanas com o grupo. Pernoitou nos mesmos hotéis, viajou no avião deles, participou das fuzarcas pós, antes e durante os shows.


Capote ao lado de Jagger no avião dos Stones

Mas na hora de pôr tudo isso no papel, travou.

Os editores cobraram o texto várias vezes e nada. Capote passou então a evitá-los.

Dado o hábito dele e de seu amigo Andy Warhol de se entrevistarem, a revista contratou o artista plástico para sabatiná-lo sobre os motivos que o levaram a amarelar.

Warhol, por sua própria conta, decidiu que a entrevista seria em forma de “áudio documentário”, com menções de detalhes do que se passava em torno enquanto papeavam, dos ruídos, das conversas paralelas com as pessoas e com marcações de tempo de cada parte da conversa, identificadas no gravador pela voz do entrevistador.

Para começar, chamou Capote para realizarem um passeio pelo jardim zoológico de Nova York. O que, de certa forma, já era uma ironia implícita à pauta.

Capote, até então, não sabia que quem estava por trás daquilo eram os editores da revista com a qual estava em dívida. 

Os papos que rolaram entre os dois e as pessoas em torno foram hilariantes, assim como ocorria com toda “entrevista” Warhol/Capote ou Capote/Warhol.


Capote e Warhol


Litogravura de Capote feita por Warhol

Já na entrada o entrevistador perguntou: “Vamos onde primeiro... direto à ala dos veados?” 

Capote: “Oh, dear, acho melhor passarmos antes pela jaula do iaque.”
 

Iaque é o nome do grande bovídeo norte-americano, o chamado “búfalo americano”, que não é um bubalino de verdade...


Para o escritor norte-americano Thomas Kennerly Wolfe (mais conhecido como Tom Wolfe), nascido 1931, sua literatura – inclusive a de ficção – é “pelo menos” 30% fruto de um criterioso trabalho de reportagem.

Talvez os colegas com os quais criou o new journalism, movimento jornalístico  e literário dos anos 1960 e 1970, fariam a mesma observação.


O escritor norte-americano é conhecido por seu estilo marcadamente irônico – muito próximo do nosso Paulo Francis – e por ser um repórter obstinado.


Tom Wolfe a caráter

Antes de escrever seu último romance, Sangre nas veias, lançado em 2013, esteve por várias bibocas para reunir in loco informações sobre o crime organizado – em específico o vinculado ao tráfico internacional de drogas.

Começou por Miami, em seu próprio país, onde procurou contatos com a máfia local.


Esteve também na Colômbia e no Rio de Janeiro.

Na capital carioca, tentaram oferecer a ele uma recepção de celebridade. Nem quis saber das pompas e de papo com intelectuais e jornalistas locais. Não estava ali para festas, para se expor, mas para trabalhar.


Sempre com suas invariável indumentária dândi – ternos berrantes, gravatas de vários tipos, chapéu e bengala – tão logo desembarcou, procurou contato com aqueles que realmente lhe interessavam.


“Por favor, como posso entrar em contato com os senhores traficantes?”...



O desing gráfico, roteirista e desenhista Stefano Tamburini (1955-1986) foi o criador de duas das mais importantes revistas italianas de histórias em quadrinhos, uma nos anos 1970 (Cannibale) e outra nos anos 1980 (Frigidaire).

Não só. Também foi o criador da HQ que revolucionou esta arte nas duas décadas: Ranxerox.

Ranxerox é este cabra com cara de mau


Do seu grupo faziam parte Tanino Liberatore (que dividiu com Tamburini a autoria das principais histórias de Ranxerox), Massimo Mattioli, Filippo Scozzari e Andrea Pazienza.

Na Cannibale saíram os primeiros episódios de Ranxerox, ainda em preto e branco, todos bolados e até então desenhados só por Tamburini.


Ranxerox com desenhos de Tamburini para a Cannibale

Quando Cannibale faliu, em outubro de 1979, Tamburine se dedicou, junto com seu grupo, à fundação da Frigidaire, onde foram publicadas histórias de Ranxerox com outro estilo, o de Liberatore, em cores berrantes e recursos gráficos revolucionários para a época.


Com desenho de Liberatore para a Frigidaire

Stefano Tamburini morreu em Roma, em abril de 1986, vítima de “um imprevisto e desconhecido mal”, escreveram os jornais.

A verdade: sucumbiu a uma overdose de heroína.


Ele próprio conta como surgiu seu personagem:



“A ideia de Ranxerox nasceu em um ônibus, quando eu voltava de uma batalha campal contra a polícia no centro de Roma, em 1977. Vi na rua uma fotocopiadora usada sendo chutada por vários estudantes. Veio-me à mente que ela poderia ser transformada em uma coisa mais ativa, bélica. Poderia dar lugar a um robô criado por um delinquestudante de microeletrônica. Foi exatamente assim que comecei a criar as primeiras histórias para a Cannibale.”

Desde o seu lançamento, em 1978, Ranxerox causou polêmica.


Batia em bebês, fazia sexo com uma menina de 12 anos e se drogava o tempo todo...


A denominação que separa os dois universos da música – erudita e popular – é arbitrária, superficial e restritiva. Mas é a que existe.

Música erudita ou clássica – termo que piora ainda mais as coisas – é o nome dado à principal variedade de música produzida ou enraizada nas tradições da música secular e litúrgica ocidental, que abrange um período amplo que vai aproximadamente do século IX até o presente.


Em princípio, tal música – com parâmetros e rigores construtivos superiores à popular – segue os cânones estabelecidos no decorrer da história desta arte.


Ou seja, as normas centrais desta tradição que, como tal, foram codificadas. Ou seja, documentadas.


A verdade é que a música popular, mesmo quanto ao rigor construtivo, em vários momentos se aproximou da erudita (e vice-versa).


Isso ocorreu na Idade Média com a grande tradição da poesia trovadoresca provençal.


Idem com a música popular barroca do século XVI.


Na era moderna, com as operetas, o jazz norte-americano, nosso choro, nossa bossa nova, etc.


A rigor, não há como negar que as grandes inovações que repercutem no âmbito da música popular provêm daquelas introduzidas por compositores eruditos, clássicos ou outra caracterização que se queira dar.


Uma das mais significativas mudanças se deu a partir do início do século XX, com o surgimento da música atonal.

A música atonal, em sentido bem amplo, é desprovida de um centro tonal, ou principal, não tendo, portanto, uma tonalidade preponderante.

Na música atonal, as notas da escala cromática sucedem-se independentemente umas das outras.


Arnold Schöenberg

Anton Webern

Alban Berg

Rompe, assim, com o sistema de hierarquias que caracteriza a música tonal erudita europeia, produzida principalmente entre os séculos XVII e XIX.

Essa importante revolução se deu a partir da chamada Segunda Escola de Viena, iniciada pelo compositor Arnold Schöenberg (1874-1951) e aprofundada por seus alunos Anton Webern (1883-1945) e Alban Berg (1885-1935)...



Em junho, Chico Buarque de Holanda, o mais consensual dos compositores brasileiros, chegou aos 70 anos.

Os grandes jornais, revistas e sites noticiosos já tinham suas matérias frias prontas há um bocado de tempo.

Qual ocorre quando alguém eminente está em vias de bater as botas.

Felizmente não é o caso de Chico. Embora com a face sulcada pela idade, esbanja saúde, continua compondo, escrevendo e... namorando firme. Alguns veículos até expuseram imagens de sua namorada algumas décadas mais jovem.

Chico aos 70, em junho de 2014

Tudo que é consensual traz algum lastro de chatice. Razão pela qual Chico é visto por alguns também como o consensual chato da música popular brasileira.

Inclusive por conta do seu posicionamento político acrítico ao partido que apoia, desde que este se instalou nas várias instâncias do poder por todo o Brasil, ao que tudo indica com pretensões ad aeternum.

Diferente dos tempos da ditadura, quando era um dos principais símbolos da luta contra o poder, o Chico da era PT é estritamente alinhado.

Óbvio que isso tem pouco a ver com seu precioso acervo de composições.

Porém de alguma forma acaba batendo lá, já que a imagem do autor, no caso dele, é inseparável da obra, inclusive por ser dela o principal intérprete...

terça-feira, 3 de junho de 2014

Como surgiram os idiomas falados pelo planeta? Falados, sim, porque milhares dos ainda vivos são destituídos de escrita.

Não há hipótese única, mas teorias mais ou menos aceitáveis. 

Outros milhares de idiomas deixaram de existir, pois não tiveram como deixar os rastros fósseis da escrita.


Dicionário trilíngue em argila: acádio, ugarítico e hurrita
A filologia é o estudo da linguagem a partir das fontes históricas escritas, com base em textos literários e outras fontes documentadas.

Teve início com os gregos antigos, no século IV aC, prosseguiu com estudiosos romanos e ressurgiu com maior vigor, até nossos dias, durante o Renascimento.

As vertentes filológicas ocidentais dividem-se em três grupos.

Os que estudam as línguas europeias dos ramos germânico, românico, grego, celta, eslavo, entre outros.

Os que estudam línguas não-europeias de ramificações sânscrita, persa, semítica, caucasiana e outras.


E um terceiro grupo que se envolve com estudos comparativos entre as línguas indo-europeias...

Dois dos mais argutos estudiosos da obra do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) eram uruguaios: Lisa Block de Behar (1937) e Emir Rodríguez Monegal (1921-1985).

A especialista em semiótica e teoria literária Lisa Behar influenciou a formação de vários jovens escritores uruguaios. Escreveu duas obras fundamentais: Lenguaje em crises e Una retórica del silencio.

Monegal foi um dos principais promotores e divulgadores da mais avançada literatura latino-americana (incluindo brasileira) pelo mundo.


Foi professor de literatura, editor de importantes revistas literárias, tradutor e editor de livros.

Proferiu conferências pelos EUA e Europa sobre Borges, Octavio Paz, Horacio Quiroga, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Losa, Cabrera Infante, Severo Sarduy, Manuel Puig, nossos João Cabral de Mello Neto, Guimarães Rosa e os poetas concretos.
 
Jorge Luis Borges

O chamado boom da literatura latino-americana, entre os anos 1960 e 1970, deve muito da sua repercussão internacional ao esforço de divulgação de Monegal.

Ele dizia que Borges criou, paralelamente à sua obra, um personagem de si mesmo, para dissimular o que pensava ou fazia.

Esse Borges, o das entrevistas e declarações irônicas, debochadas, procurava confundir o real com o imaginário, e muitas vezes se desfazia até do Borges escritor.

Mas a dissimulação, embora de outra ordem, também está presente em toda a obra do escritor argentino.

Seus contos estão num limite entre a vigília e o sonho, entre ficção e ensaio, entre autoria e reescritura.

O Borges crítico de si mesmo, o que concedeu entrevistas atrás de entrevistas, dizia que o outro Borges era melhor leitor que escritor.

“Escrevo para retribuir o que li. Mas nem acho que o que escrevi seja tão importante quanto dizem. Caramba, sou demasiado repetitivo, não acham?”, disse ao receber um prêmio em São Paulo, em agosto de 1970...

Tradução de poesia ou de prosa cuja sustância é a linguagem poética – com alto teor de informação estética – pressupõe operações muito mais complexas do que transpor  significados estritamente semânticos de uma língua para outra.

Implica em transpor aspectos diversos do signo linguístico, como a dimensão fônica, acentuações próprias de cada idioma ou autor, figuras de linguagem específicas, aspectos construtivos, entre outros.

Razão pela qual a função de traduzir vem sendo tratada com cuidado por vários pensadores.

Cito aqui apenas aqueles que convergiram para ideias parecidas: o alemão Walter Benjamin (1892-1940), no ensaio a Tarefa do tradutor, o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), em seu ensaio Las versiones homéricas, os franceses Gérard de Nerval (1808-1855) e Paul Valéry (1871-1945), o russo Roman Jakobson (1896-1932), o norte-americano Ezra Pound (1885-1972) e o italiano Umberto Eco (1932).

No Brasil, entre os mais importantes tradutores de poesia e prosa poética da era moderna estão os poetas Manuel Bandeira (1886-1968), Augusto de Campos (1931), Haroldo de Campos (1929-2003), Décio Pignatari (1927-2012), José Lino Grünewald (1931-2000) e José Paulo Paes (1926-1998).

Um dos intelectuais latino-americanos que mais se dedicou à questão – e também à arte de traduzir – foi o mexicano Octavio Paz (1914-1998).



Octavio Paz
Paz, além de um dos mais importantes tradutores de poesia de vários idiomas para o espanhol, foi um grande poeta, ensaísta e diplomata.

Mas se notabilizou, principalmente, por seu trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna ou de vanguarda.

Escritor prolífico cuja obra abarcou vários gêneros, é considerado um dos maiores autores do século XX e um dos grandes poetas hispânicos de todos os tempos...


Um dos mais importantes tradutores da poesia grega antiga de todos os tempos foi o alemão Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770-1843).

Também foi um dos primeiros a teorizar sobre a função da tradução. Para Hölderlin o que se deve traduzir, antes de tudo, não é o poema, mas a poesia. Ou seja, o tom geral, a impressão que domina o todo.

O que requer senso crítico do tradutor. Pois, dizia ele, sem boa crítica não há boa tradução.


Retrato de Friedrich Hölderlin
Traduzir, para ele, é buscar o estado nirvânico do original, para transpô-lo qual assimilado pelos leitores ou ouvintes em meio aos quais a obra em questão foi consagrada.

Somente no século XX, as duas peças de Sófocles por ele traduzidas – Édipo Rei e Antígona – foram celebradas como um modelo de tradução poética, que deixou visíveis as singularidades do texto original.

Um bom exemplo da excelente recepção da obra de Hölderlin na modernidade foi a adaptação de Bertolt Brecht (1898-1956) de Antígona, de Sófocles, baseada em sua tradução...



Ano de 1985.

O compositor erudito, poeta, filósofo, design e artista plástico norte-americano John Cage (1912-1992) veio ao Brasil para participar da 18ª Bienal de São Paulo e do lançamento da tradução do seu livro De segunda a um ano, publicado pela Editora Hucitec

A obra reuniu textos dele pinçados, principalmente, de dois livros: Silence e A year from monday.
John Cage

A tradução e organização foi do maestro brasileiro Rogério do Duprat (1932 –2006), compositor erudito e arranjador dos melhores que nossa música popular já teve.

Para quem não o conhece, Duprat foi um carioca da gema que viveu a maior parte de sua vida em São Paulo, onde atuou no movimento Música Nova, braço musical que se estendeu para favorecer o surgimento da poesia concreta em meados dos anos 1950.

Duprat teve formação de gente de primeiro time. Foi aluno de Karlheinz Stockhausen (1928-2007) na Alemanha, junto com o músico norte-americano Frank Zappa.

Ao lado de Júlio Medaglia, Damiano Cozzella, Gilberto Mendes, Willy Correia de Oliveira  e outros se juntos ao mestre dos mestres da música contemporânea no Brasil, Hans-Joachim Koellreuter (1915-2005).

No final dos anos 1960, personalizou o som do então emergente movimento tropicalista com arranjos bem elaborados, criativos e perfeitamente antenados com as tendências internacionais da época.

Duprat (à esq. da foto, segurando um penico)
no disco-manifesto do tropicalismo

Foi arranjador de alguns dos principais discos de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes, Chico Buarque, Walter Franco e do grupo O Terço.

Esse é um rápido perfil do tradutor do livro De segunda a um ano. Há muito mais o que ser dito sobre ele.

Voltemos ao autor dos textos vertidos para o português, o californiano John Cage. Aquele foi o primeiro e único livro dele até hoje publicado no Brasil.

Duprat escolheu o que viria a traduzir com o apoio dos amigos Augusto de Campos, Damiano Cozzella e Décio Pignatari...

A literatura da Idade Média deve grande parte de sua vitalidade e inventividade à cultura trovadoresca mediterrânea da Provença, que abrangia o sul da França e uma vasta região, parte da qual se encontra hoje em territórios vizinhos da Itália e da Espanha.

Na Itália, a lírica ocitana foi influência preponderante na poesia de Dante Alighieri (1265-1321) e Guido Cavalcanti (1255-1300). Não só sob aspectos técnicos, como também temáticos.

Tanto Alighieri quanto Cavalcanti importaram da Provença o culto metafísico à mulher. Cada qual tinha sua musa idealizada. A de Alighieri era a Beatriz citada em várias de suas obras, inclusive na Divina Comédia.

A temática de veneração incondicional à mulher influenciaria também os poetas goliardos, do século XIV, os chamados fideli d'amore, bem como a poesia pastoril do final do barroco e, por fim, o romantismo.

Vale salientar que, ainda hoje, a poesia cantada dos trovadores subsiste na cultura popular de vários países, dentre eles o Brasil.

Temos tradição trovadoresca não só nos estados do Nordeste, mas também no Rio Grande do Sul e na chamada "música caipira de raiz", que abrange os estados de São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso do Sul.

Imagem de uma apresentação de trovadores medievais

A imagem acima mostra o poeta músico tocando instrumento antiquíssimo chamado rabeca, que daria origem ao violino e à viola caipira nacional.

No interior de Minas Gerais e de Pernambuco ainda temos fabricantes de rabecas (o instrumento é cavado diretamente na madeira), que são usadas principalmente nos acompanhamentos às cantorias de Folia de Reis.

Na Espanha a influência trovadoresca abrangeu principalmente a Catalunha. Mas teve também um matiz andaluz, associado ao imaginário da cultura islâmica que ainda predominava naquela região.

Foram trovadores, em idioma árabe, os poetas andaluzes de ascendência persa Marwan Ben Abd Al-Rahman, Ben Hazm e Safwan Ben Idris

Mas a lírica dos trovadores ocitânicos – escreviam em provençal, idioma românico cuja acentuação é mais próxima do nosso português e do catalão que do francês – teve ainda grande influência sobre as culturas germânica e portuguesa...

Até o final dos anos 1950 havia um arranjador soberano na música brasileira: Alfredo da Rocha Vianna Filho, conhecido como Pixinguinha (1897-1973).

Sua linguagem orquestral, por muitos qualificada de "ponte entre o erudito e o popular", foi preponderante até que o samba-canção, entre os anos 1940 e 1950, passasse a exigir uma sonoridade mais centrada nas cordas, menos percussiva, ao estilo do maestro Radamés Gnattali (1906-88), que se tornou o grande arranjador da MPB até a bossa nova.

Pixinguinha ao saxofone
 Depois da bossa nova, o time de arranjadores diversificou-se ainda mais. Vieram Tom Jobim, Edu Lobo, César Camargo Mariano, Rogério Duprat, Júlio Medaglia e outros tantos.

Pixinguinha somou cerca de 500 arranjos para gravações de vários cantores e instrumentistas na primeira metade do século XX, nas quais também costumava tocar flauta ou saxofone.

Deixou 194 composições próprias de vários gêneros (sambas, choros, marchinhas, sambas-canções, valsas e até músicas sertanejas) em discos e mais de 100 em partituras. Sem contar as dezenas de obras suas vendidas ou surrupiadas por espertalhões.

Carinhoso (1917) e Lamento (1928) foram suas composições mais conhecidas. Mas ambas estão longe de serem as mais importantes.

Há dezenas de outras canções de Pixinguinha que merecem encabeçar a lista de suas melhores obras. Só para exemplificar, ouçam seu Samba do urubu. A flauta, tocada pela próprio compositor, nos remete aos movimentos do voo da ave.

A seguir, Carinhoso com Paulinho da Viola e Marisa Monte:


Pixinguinha foi um dos poucos músicos populares brasileiros de sua época que escreviam partituras com perfeição...