sábado, 28 de junho de 2014

À procura dos “senhores traficantes”

Para o escritor norte-americano Thomas Kennerly Wolfe (mais conhecido como Tom Wolfe), nascido 1931, sua literatura – inclusive a de ficção – é “pelo menos” 30% fruto de um criterioso trabalho de reportagem.

Talvez os colegas com os quais criou o new journalism, movimento jornalístico  e literário dos anos 1960 e 1970, fariam a mesma observação.


O escritor norte-americano é conhecido por seu estilo marcadamente irônico – muito próximo do nosso Paulo Francis – e por ser um repórter obstinado.


Tom Wolfe a caráter

Antes de escrever seu último romance, Sangre nas veias, lançado em 2013, esteve por várias bibocas para reunir in loco informações sobre o crime organizado – em específico o vinculado ao tráfico internacional de drogas.

Começou por Miami, em seu próprio país, onde procurou contatos com a máfia local.


Esteve também na Colômbia e no Rio de Janeiro.

Na capital carioca, tentaram oferecer a ele uma recepção de celebridade. Nem quis saber das pompas e de papo com intelectuais e jornalistas locais. Não estava ali para festas, para se expor, mas para trabalhar.


Sempre com suas invariável indumentária dândi – ternos berrantes, gravatas de vários tipos, chapéu e bengala – tão logo desembarcou, procurou contato com aqueles que realmente lhe interessavam.


“Por favor, como posso entrar em contato com os senhores traficantes?”...




Lógico que o desaconselharam a não ir aos morros, principalmente vestido daquela forma.
Mas o pequenino Wolfe não deu bola. Não alterou sua programação e nem o figurino.


Acompanhado ou não daqueles que o recepcionaram, passou uma semana futricando atrás dos contatos com os “senhores traficantes”.


Wolfe nasceu na Virginia.


Seu pai era professor universitário de agronomia. Apesar de descender de uma família abastada, da elite sulista, era um homem de esquerda.


Desfez-se de duas fazendas que herdara para investir num jornal e numa editora.


Wolfe chegou a fazer carreira acadêmica – defendeu tese sobre os comunistas norte-americanos – mas acabou largando a universidade para seguir a trajetória do pai.


O curioso é que o baixinho, apesar da pose com aparência efeminada de dândi, foi bom jogador de basebol e chegou a ser negociado para um time da liga profissional.


Elegância chapliniana

Mas logo ele migrou para o jornalismo. Primeiramente, para o jornalismo esportivo, seu metiê.

Em 1956, enquanto ainda trabalhava em sua tese, tornou-se repórter do jornal Springfield Union, de Springfield, Massachusetts.


Finalizou a tese em 1957 e, em 1959, foi contratado pelo The Washington Post, para cobrir o ambiente suburbano da cidade.


Nessa época, a exemplo do nosso Nelson Rodrigues, passou a utilizar elementos e técnicas ficcionais em seus textos jornalísticos.


Em 1962, trocou Washington por Nova Iorque, para trabalhar como repórter geral e ensaísta do jornal New York Herald Tribune.


Durante uma greve dos jornais nova-iorquinos, em 1963, Wolfe entrou em contato com a revista Esquire, tendo em mente a ideia de um artigo sobre a febre de carros customizados no sul da Califórnia.


Produziu uma série de reportagens publicadas no livro The kandy-kolored tangerine-flake streamline baby, nas quais ignorava todas as convenções do jornalismo.


Surgia, assim, uma das primeiras obras marcantes do new journalism, amada por alguns e odiada por muitos.


O segundo livro notável de Wolfe foi The electic kool-aid acid test. Tratava-se de uma narrativa das aventuras dos Merry Pranksters, grupo de pessoas que acompanhavam  Ken Kesey, misto de psicólogo, intelectual e charlatão.


O lendário ônibus de doidões comandados por Kesey

Kesey e sua trupe, em um ônibus, divulgava o LSD (ácido lisérgico) pelo interior dos EUA, causando uma verdadeira febre de comunidades hippies que resultou no movimento flower power.

No livro, o autor abusa do experimentalismo. Utiliza onomatopeias, livre associações e faz uso pouco ortodoxo de pontuação – insere vários pontos de exclamação para finalizar a mesma frase e itálicos para ilustrar as ideias excêntricas de Kesey e seus seguidores.


Segundo consta, Wolfe tomava ácido com a trupe para entender mais a fundo a respeito do que estava escrevendo.


Somado às suas próprias empreitadas nesse novo estilo jornalístico, Wolfe editou uma coletânea de novo jornalismo com E.W. Johnson, publicada em 1973 e intitulada simplesmente The new journalism.


Esse livro juntou o trabalho de escritores e jornalistas como Truman Capote, Hunter Thompson, Norman Mailer, Gay Talese, Joan Didion, entre outros.


Todos tinham em comum o tema de um jornalismo incorporado a técnicas literárias e que pudesse ser considerado literatura.


Wolfe e Thompson mantiveram uma relação de concorrência.

Até pelo que ambos representavam.

Wolfe era o sofisticado, um dândi.

Thompson, debochadamente conhecido como Dr Thompson, era o doidaço, o "gonzo".

Wolfe era um liberal de esquerda.

Thompson, um conservador nacionalista.


Thompson e Wolfe caricaturados

Além de Sangue nas veias, Wolfe publicou mais três livros de ficção: I am Charlotte Simmons (2004), A man in full (1998) e The bonfire of the vanities (1987).
 

Seus principais livros de não-ficção foram: Hooking up (2000), The purple decades (1982), Da Bauhaus ao nosso caos (1981), In our time (1980), The right stuff (1979), Mauve gloves & madmen, clutter & vine (1976), The painted word (1975), The new journalism (1975), Radical chic & mau-mauing the flak catchers (1970), The pump house gang (1968), The electric kool-aid acid test (1968) e The kandy-kolored tangerine-flake streamline baby (1965).

Veja entrevista de Wolfe para a Times.

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