terça-feira, 3 de junho de 2014

A “tradução criativa” por Octavio Paz

Tradução de poesia ou de prosa cuja sustância é a linguagem poética – com alto teor de informação estética – pressupõe operações muito mais complexas do que transpor  significados estritamente semânticos de uma língua para outra.

Implica em transpor aspectos diversos do signo linguístico, como a dimensão fônica, acentuações próprias de cada idioma ou autor, figuras de linguagem específicas, aspectos construtivos, entre outros.

Razão pela qual a função de traduzir vem sendo tratada com cuidado por vários pensadores.

Cito aqui apenas aqueles que convergiram para ideias parecidas: o alemão Walter Benjamin (1892-1940), no ensaio a Tarefa do tradutor, o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), em seu ensaio Las versiones homéricas, os franceses Gérard de Nerval (1808-1855) e Paul Valéry (1871-1945), o russo Roman Jakobson (1896-1932), o norte-americano Ezra Pound (1885-1972) e o italiano Umberto Eco (1932).

No Brasil, entre os mais importantes tradutores de poesia e prosa poética da era moderna estão os poetas Manuel Bandeira (1886-1968), Augusto de Campos (1931), Haroldo de Campos (1929-2003), Décio Pignatari (1927-2012), José Lino Grünewald (1931-2000) e José Paulo Paes (1926-1998).

Um dos intelectuais latino-americanos que mais se dedicou à questão – e também à arte de traduzir – foi o mexicano Octavio Paz (1914-1998).



Octavio Paz
Paz, além de um dos mais importantes tradutores de poesia de vários idiomas para o espanhol, foi um grande poeta, ensaísta e diplomata.

Mas se notabilizou, principalmente, por seu trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna ou de vanguarda.

Escritor prolífico cuja obra abarcou vários gêneros, é considerado um dos maiores autores do século XX e um dos grandes poetas hispânicos de todos os tempos...


Suas principais ideias a respeito da prática de tradução estão no ensaio Tradución: literatura y literalidad, de 1970.

Paz alinha-se a Borges quanto ao conceito de originalidade.

Paz e Borges: amizade que durou quase meio século

Dizia Borges (com o que Paz concordava):

“Cada texto é único e, simultaneamente, é sempre uma tradução de um outro texto.” Em outras palavras, como todo escritor vem de várias influências, o que ele escreve também remete a elas, portanto nenhum autor e nenhuma obra é absolutamente original.

Borges explica por quê: “Nenhum texto é inteiramente original porque a linguagem mesma, em sua essência, é já uma tradução.”

Mas tal raciocínio pode inverter-se: “Todos os textos são originais, uma vez que cada tradução é distinta. Cada tradução é, até certo ponto, uma invenção, e assim constitui um texto único”, independente do original da qual provém.

Para Paz, traduzir é um diálogo criador com o autor e a obra original. Ou seja, traduzir, para ele, é “transcriar”.

Procurou estabelecer uma tipologia classificatória do traduzir.

Que começa pela definição de “tradução literal”, a “servil” – a mais comum – e a “tradução literária”, que procura reproduzir numa outra língua as operações literárias do original.

A primeira está próxima do dicionário, é estritamente semântica. Seria, quando muito, um dispositivo auxiliar para ler o texto original.

A segunda implicaria, necessariamente, em uma transformação do original, para compreender, em maior grau possível, sua linguagem e complexidade construtiva.

Octavio Paz passou sua infância nos EUA, acompanhando a família. De volta ao seu país, estudou direito na Universidade Nacional Autônoma do México. Onde cursou também especialização em literatura.

Morou na Espanha, onde conviveu com diversos intelectuais, e também na França, no Japão e na Índia.

Quando morava em Paris, testemunhou e viveu o movimento surrealista, sendo bastante influenciado por André Breton (1896-1966), de quem foi amigo.



André Breton
Experimentou a escrita automática, tendo praticado posteriormente uma poesia ainda vanguardista, porém mais concisa e objetiva, voltada a um uso mais preciso da função poética da linguagem.

Em 1945, ingressou no serviço diplomático mexicano.

Publicou mais de vinte livros de poesia e incontáveis ensaios de literatura, arte, cultura e política, desde Luna silvestre, seu primeiro livro, de 1933.

Quatro dos seus livros foram dedicados a temas políticos: El laberinto de la soledad, Posdata, El ogro filantrópico e Tiempo nublado.

El laberinto de la soledad (1950) é sobre a cultura e a tradição mexicana. Qual Darcy Ribeiro no Brasil, buscou a definição de um espírito nacional que caracterizasse seu país e seu povo.

Algumas de suas abordagens lembram também Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982).



Sérgio Buarque com seu filho Chico
Paz militou pelo Partido Comunista Mexicano, do qual acabou se afastando. No final da vida, dizia-se um socialista “não-marxista”.

Foi um dos primeiros intelectuais de esquerda a se posicionar contra o estalinismo, quando a União da República Socialista Soviética (URSS) estava no auge do seu poderio.

Também foi um dos primeiros a prever o capitalismo de estado chinês, ainda na época em que Mao Tsetung comandava o país com seu ideário populista.

Parte significativa de sua obra foi traduzida e publicada no Brasil.

O Labirinto da solidão e Pósdata, pela antiga editora Paz e Terra.

O arco e a lira e Os filhos do barro, pela Nova Fronteira.  

Claude Lévi-Strauss ou o novo festim de Esopo, Marcel Duchamp ou o castelo da pureza, Conjunções e disjunções e Signos em rotação, pela Perspectiva.

Tempo nublado e Transblanco – volume que inclui Blanco e outros poemas de Paz, transpostos para o português por Haroldo de Campos – pela Guanabara. 

Além de Haroldo de Campos e Celso Laffer, do Brasil, Octavio Paz manteve permanente diálogo com o argentino Jorge Luis Borges e com o uruguaio Emir Rodríguez Monegal.

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