terça-feira, 3 de junho de 2014

Borges y yo

Dois dos mais argutos estudiosos da obra do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) eram uruguaios: Lisa Block de Behar (1937) e Emir Rodríguez Monegal (1921-1985).

A especialista em semiótica e teoria literária Lisa Behar influenciou a formação de vários jovens escritores uruguaios. Escreveu duas obras fundamentais: Lenguaje em crises e Una retórica del silencio.

Monegal foi um dos principais promotores e divulgadores da mais avançada literatura latino-americana (incluindo brasileira) pelo mundo.


Foi professor de literatura, editor de importantes revistas literárias, tradutor e editor de livros.

Proferiu conferências pelos EUA e Europa sobre Borges, Octavio Paz, Horacio Quiroga, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Losa, Cabrera Infante, Severo Sarduy, Manuel Puig, nossos João Cabral de Mello Neto, Guimarães Rosa e os poetas concretos.
 
Jorge Luis Borges

O chamado boom da literatura latino-americana, entre os anos 1960 e 1970, deve muito da sua repercussão internacional ao esforço de divulgação de Monegal.

Ele dizia que Borges criou, paralelamente à sua obra, um personagem de si mesmo, para dissimular o que pensava ou fazia.

Esse Borges, o das entrevistas e declarações irônicas, debochadas, procurava confundir o real com o imaginário, e muitas vezes se desfazia até do Borges escritor.

Mas a dissimulação, embora de outra ordem, também está presente em toda a obra do escritor argentino.

Seus contos estão num limite entre a vigília e o sonho, entre ficção e ensaio, entre autoria e reescritura.

O Borges crítico de si mesmo, o que concedeu entrevistas atrás de entrevistas, dizia que o outro Borges era melhor leitor que escritor.

“Escrevo para retribuir o que li. Mas nem acho que o que escrevi seja tão importante quanto dizem. Caramba, sou demasiado repetitivo, não acham?”, disse ao receber um prêmio em São Paulo, em agosto de 1970...


De fato em seus contos e poemas é recorrente uma série de símbolos: espelhos, labirintos, espadas, rosas, cenas de violência populares, entre outros. 

Prosseguiu naquela conversa em São Paulo: “Nunca reli sequer uma linha do que escrevi. Prefiro viver em função do futuro. Penso em projetos. Estou sempre urdindo poemas, contos, fábulas. Quando releio o que fiz, me dá a impressão de que as pessoas em determinado momento vão acordar e se dar conta de que o que escrevi é uma impostura, não vale nada.”

Mito incômodo, contraditório, paradoxal, pouco sério, dane-se o que se pensa sobre ele. Como ele próprio disse, a literatura realmente importante procede de algo mais profundo, frente ao qual qualquer opinião é superficial.

Sua vida foi repleta de ocorrências próprias do homem e literato que foi.

Descendia de uma das raras famílias argentinas de origem portuguesa.

Sobreviveu, como que por milagre, de uma doença rara, que o marcou para o resto da vida.

Sua primeira grande influência foi a de um escritor espanhol que se rompeu com os movimentos literários de vanguarda que ajudou a criar: Rafael Cansinos-Asséns (1882-1964).


Rafael Cansinos-Asséns

Cansinos-Asséns foi um dos lançadores do ultraísmo, em 1916, na Espanha. Movimento que teve grande influência sobre os artistas de vanguarda hispano-americanos, sobretudo Borges e o chileno Vicente Huidobro.

Mas em seu romance El movimiento V.P., o escritor espanhol desfaz-se de tudo que defendeu e debocha de todos os seus seguidores, incluindo Huidobro. Mas, curiosamente, não se refere a Borges, seu principal pupilo.

A segunda grande influência sobre Borges foi de um homem de grande capacidade intelectual, mas que não dava o menor valor ao reconhecimento: o argentino Macedonio Fernández (1874-1952).


Macedonio Fernández

Sua obra, sumamente original e complexa, inclui novelas, contos, poemas, artigos de jornal, ensaios filosóficos e textos de natureza inclassificável.

Foi companheiro e amigo íntimo de Jorge Guillermo Borges (pai de Borges), com quem compartilhava interesse pelos estudos das obras de Herbert Spencer (1820-1903) e Arthur Schopenhauer (178801869).

Ao voltar da Europa, em 1921, Borges descobre Macedonio, com quem começou uma prolongada amizade.

Nesse homem aparentemente apagado, pobre, abandonado pela esposa e pelos filhos, que vivia a ermo pelas pensões, mas que pensava sobre questões culturais essenciais, Borges encontrou o intelectual platense de maior acuidade de sua época.

Com Macedonio, Borges aprendeu a cultivar o alterego crítico de si mesmo, que se negava para se autoafirmar.

Macedonio expressava seus pensamentos por meio de anedotas, como se nada representassem.

Falava de si mesmo com desdém. Parecia não ter a menor preocupação de projetar sua obra e de se fazer notado.

A produção do seu pupilo Borges, se não foi a mais lida, muito menos a mais popular, certamente se tornou a do contexto latino-americano mais reconhecida e respeitada pelo mundo nos tempos modernos.

O que deixava Macedonio muito orgulhoso. De certa forma se sentia realizado por meio das realizações de Borges.

Qual seu mestre, desde suas primeiras publicações Borges se revelou um autor paradoxal. 

Seu conto mais complexo continua sendo o primeiro que publicou: Pierre Menard, leitor do Quixote. É sobre o ato de ler e escrever, tema que permeará toda a obra do escritor.

Menard é um leitor do Quixote que, por achar que vive numa época em que não há mais nada de novo a ser escrito, se propõe a reescrever uma passagem do clássico de Miguel de Cervantes.

É a obra na qual estabeleceu a mais radical relação entre crítica e ficção. Borges diria mais tarde que todos seus contos escritos a partir de então foram versões de Pierre Menard, leitor do Quixote.

Ou seja, viveu para reproduzir o enredo de um inexpressivo leitor que se propôs a refazer um clássico. “Sempre me achei melhor leitor que escritor”, reafirmava com frequência.

A grande mudança na formação do jovem Borges se deu em 1914, quando sua família se mudou para a Suíça, onde ele estudou. De lá se mudou para a Espanha, onde conviveu com Cansino-Asséns.

Em seu retorno à Argentina, em 1921, Borges começou a publicar seus poemas e ensaios em revistas literárias e passou a conviver com Macedonio Fernández.

Participou ativamente da efervescente vida cultural da cidade. Em 1923, publicou seu importante livro de poemas Fervor de Buenos Aires.

Para sobrevier – já que ganhou pouco dinheiro com literatura, a não ser por meio de eventuais premiações – também trabalhou como bibliotecário.

Em 1955 foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional da República Argentina e professor de literatura na Universidade de Buenos Aires.

Foi um escritor de autores. Jamais pretendeu produzir best-sellers.

Seus livros mais famosos foram Ficciones (1944) e O Aleph (1949). Tratam-se de coletâneas de histórias curtas interligadas por temas comuns: sonhos, labirintos, bibliotecas, escritores fictícios, livros fictícios e religião.

Seus poemas da última fase elegem como símbolos culturais Spinoza, Luís de Camões e Virgílio.

Borges foi um ávido leitor de enciclopédias.

Em uma memorável palestra sobre os livros, em 1978, comenta a felicidade de ter ganhado a enciclopédia alemã Enzyklopadie Brockhaus, edição de 1966. Sua enciclopédia preferida era a 9ª edição da Britânica.

No início do século XX, tanto Cansinos-Asséns quanto Borges eram de esquerda.

Cansinos persistiu na política, mas se afastou dos marxistas, adotando apenas a bandeira republicana contra o general Franco e os movimentos fascistas europeus de uma maneira geral.

Borges afastou-se cada vez mais das abordagens sociológicas e históricas. Renegou seus poemas engajados da mocidade – chegou a escrever, quando jovem, um livro de poemas chamado Salmos rojos (Salmos vermelhos), com elogios à revolução russa.

Cada vez mais se voltou para uma literatura erudita, calcada em seus símbolos: labirintos, espelhos, etc.

Pingiu também para o barroco, por influência do seu maior amigo e colaborador, Adolfo Bioy Casares. Em especial no livro História universal da infâmia.


Borges e Adolfo Bioy Casares

Nunca pretendeu ser filósofo ou sequer um erudito convencional. Usou a filosofia, a psiquiatria junguiana e a erudição para construir contos e poemas. Mas na sequência seu interesses foram para outras direções.

Entre seus contos mais conhecidos e comentados podemos citar Pierre Menard, autor do Quixote (a pedra angular de sua literatura), O memorioso, A Biblioteca de Babel, O jardim de veredas que se bifurcam, O Zahir, A escrita do Deus e O Aleph (que dá seu nome ao livro de que consta, publicado em 1949).

A partir da década de 1950, afetado pela progressiva cegueira, Borges passou a se dedicar à poesia, produzindo obras notáveis como A cifra (1981), Atlas (um esboço de geografia fantástica, 1984) e Os conjurados (1985), sua última obra.

Em Outras inquisições, livro de ensaios de 1952, nos contos de O livro de areia, de 1975, nota-se o claro influxo da cegueira.

Para homenagear Borges, no romance O nome da rosa, Umberto Eco inseriu o personagem Jorge de Burgos, que além da semelhança no nome, é cego, assim como Borges foi ficando ao longo da vida.

Além da personagem, a biblioteca que serve como plano de fundo do romance de Eco foi inspirada no conto de Borges A Biblioteca de Babel (uma biblioteca universal e infinita que abrange todos os livros do mundo).

Borges era fluente em várias línguas. No final da vida se interessou pela leitura de sagas germânicas e escandinavas. Surpreendia os próprios ingleses ao recitar poemas em inglês arcaico.

Seu encontro com Anthony Burgess em um evento na Inglaterra foi hilariante. Logo que o viu, Borges se apresentou: "Olá! As pessoas me perguntam se eu sou você e costumo responder que sim."


Anthony Burgess

Burgess respondeu: "Não tem problema. Eu também costumo me fazer passar por Jorge Luis Borges." Borges acrescentou: "Caramba, que coincidência! Tomara que meu nome não te traga nenhum infortúnio."

Por outro lado, influenciado por sua mulher e assistente Maria Kodama, passou a se interessar por poesia japonesa.

Mas voltemos ao início...

Diferente de Emir Monegal, para o jornalista argentino Rodolfo Braceli existiram três Borges: o que existiu e se deixou viver, o que sonhou e tramou sua literatura, e o que representou e brincou de ser outro, o qual se comportava como um bárbaro.

“Porém um bárbaro muito inteligente e divertido”, dizia Braceli.

Esse Borges bárbaro tinha o prazer de dizer exatamente o contrário do que se esperava dele.

Como coisas do tipo:

“A América Latina é uma superstição e a literatura latino-americana outra superstição. Como pode existir uma literatura latino-americana se a América Latina não existe?”

No seu último aniversário, em 24 de agosto de 1985, quando já havia retornado à Suíça, onde morou na infância e para onde se mudou quando se aproximava da morte, disse uma frase representativa do que ele foi, sinteticamente, ao seu estilo:


“O nada me salvará.”

Borges na velhice e sua esposa Maria Kodama
 Obras completas de Borges para download em pdf.

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