terça-feira, 3 de junho de 2014

De onde vêm essas línguas?

Como surgiram os idiomas falados pelo planeta? Falados, sim, porque milhares dos ainda vivos são destituídos de escrita.

Não há hipótese única, mas teorias mais ou menos aceitáveis. 

Outros milhares de idiomas deixaram de existir, pois não tiveram como deixar os rastros fósseis da escrita.


Dicionário trilíngue em argila: acádio, ugarítico e hurrita
A filologia é o estudo da linguagem a partir das fontes históricas escritas, com base em textos literários e outras fontes documentadas.

Teve início com os gregos antigos, no século IV aC, prosseguiu com estudiosos romanos e ressurgiu com maior vigor, até nossos dias, durante o Renascimento.

As vertentes filológicas ocidentais dividem-se em três grupos.

Os que estudam as línguas europeias dos ramos germânico, românico, grego, celta, eslavo, entre outros.

Os que estudam línguas não-europeias de ramificações sânscrita, persa, semítica, caucasiana e outras.


E um terceiro grupo que se envolve com estudos comparativos entre as línguas indo-europeias...


Os três grupos se dividem, hoje, entre os que seguem as análises sincrônicas advindas dos estudos seminais de Ferdinand Saussure (1857-1913), os quais resultaram no estruturalismo, e os que seguem a linguística sintática, na qual se inserem os trabalhos do norte-americano Noam Chomsky (1928).

Sobre a origem dos idiomas, os estudiosos trabalham com duas linhas de hipóteses.

A monogênese, que sustenta uma única manifestação da linguagem verbal, da qual derivaram as outras. E a poligênese, segundo a qual sempre houve vários idiomas, sem uma procedência original.


Hieróglifos egípcios
A diversificação das línguas é uma questão assaz complexa. Haja vista que os próprios idiomas modernos continuam a se fragmentar em outros.


A não ser a línguas mortas das quais se tem apenas registros, mas não são faladas nem escritas por ninguém, todas as que continuam em uso estão vivas. Ou seja, continuam se modificando sempre.

Em resumo, há mais interrogações que respostas quanto à origem das línguas e à continuidade de muitas das ainda existentes.

Talvez a única explicação persistente – mas sem nenhum caráter científico – seja a mítica da da bíblica Torre de Babel. Qual seja, que a diversidade linguística provém do caos.

Quadro comparativo das letras fenícias em diferentes alfabetos
O mito da torre bíblica provém do pavor que os hebreus tinham da então grande Babilônia, na Mesopotâmia, a primeira cidade cosmopolita da história, coabitada por povos orientais e ocidentais de diferentes origens e falantes de numerosos idiomas.

A passagem bíblica surge quando os rabinos notam que a ascendente Jerusalém poderia ter o mesmo destino: transformar-se numa cidade cosmopolita com salada de povos e línguas, os quais teriam dificuldades homéricas de se entenderem.

Os rabinos (alguns dos quais tinham função de legisladores) viam o pluralismo como ameaça à unidade judaica, por isso criaram o mito do cosmopolitismo como sinônimo de caos, com imagens fortes, muito próximas daquelas com as quais descreviam o Inferno.

Se, por um lado, os hebreus sempre carregaram o estigma de que seu povo devesse ser uno, o que o afastou dos demais povos, é deles que provém mais claramente a ideia de que a poesia esteja relacionada à mágica entre as palavras e o que elas representam.

De fato, todos os idiomas, mesmo aqueles que não contaram com escritas, seguiram, a rigor, os mesmos preceitos comuns à poesia: metros, acentuação, pontuação, copulação de sílabas, variações fonêmicas e os demais ingredientes "poéticos" do ritmo verbal.

O Antigo Testamento, também conhecido como Escrituras hebraicas, está repleto da mais qualificada poesia. Aliás, todos os grandes livros religiosos antigos – que são referências fundadoras para as grandes civilizações – também.

Ironicamente, o destino quis que os primeiros 46 livros bíblicos quedassem cadinho para a Babel temida pelos rabinos. Parte dos seus textos foi encontrada nos idiomas originais – hebraico e aramaico – e parte em grego arcaico. Ou seja, já traduzidos.

Meus livros bíblicos preferidos: Gênesis (no Brasil lindamente vertido por Haroldo de Campos), Sabedoria, Eclesiastes e, claro, Cântico dos cânticos, supostamente escrito pelo rei poeta Salomão.

Quanto mais se estuda as origens dos idiomas, mais se reconhece trâmites de uma língua para outra e mais se reconhece diferenças que dificultam um mapeamento conclusivo de onde começa uma e termina o outra.

De maneira que é mais fácil compreender o processo de evolução do homem, desde seu presumível surgimento no norte da África, do que os idiomas falados (e os também escritos) pelos diferentes grupos étnicos hominídeos dispersos pelos vários continentes.

Nosso português, por exemplo, tem cerca de 60% dos vocábulos de línguas românicas (originárias do latim vulgar).

Outros 40% vêm do grego, das línguas germânicas, das línguas semíticas (hebraico, aramaico e árabe), de idiomas indo-europeus mais antigos, dos idiomas africanos e ameríndios, e de outros idiomas.

Daqui 100 anos certamente o português do Brasil terá incorporado vocábulos trazidos por imigrantes mais recentes, como os japoneses, chineses, russos e coreanos.

Línguas românicas são idiomas que integram o vasto conjunto das línguas indo-europeias que se originaram da evolução do latim, principalmente do latim vulgar, falado pelas classes mais populares das colônias romanas.

São representadas pelos seguintes idiomas mais conhecidos e mais falados no mundo: o português, o espanhol, o italiano, o francês e o romeno.

Algumas são faladas por grupos minoritários da Espanha (o catalão, o aragonês, o galego, o asturiano e o leonês), de Portugal (o mirandês), da Itália (o vêneto, o lígure, o siciliano, o piemontês, o napolitano e o sardo), da  França (o provençal) e da Suíça (o romanche).

Presumivelmente, os principais idiomas ocidentais vieram de um mesmo galho da grande árvore linguística da humanidade: o idioma indo-europeu.

Hoje, aproximadamente metade da população mundial tem como língua nativa um idioma dessa família.

Parte das línguas faladas na Euroásia é encaixável no ramo indo-europeu. Mas outra parte significativa, não. Não há santo que consiga, por exemplo, pôr no mesmo grupo o basco e o etrusco.

Chineses, japoneses e coreanos falam idiomas que se associam a um outro ramo da grande árvore. Mas povos de olhinhos puxados como os deles (com ascendência étnica em comum) do Cáucaso e da própria Ásia Oriental, não.

A Polinésia forma galhos menores com derivativos próprios da grande árvore.

Quando se cai na América dos primeiros colonizadores – os ameríndios – a coisa se complica ainda mais.

As enciclopédias continuam contando para gerações que os ameríndios vieram para cá há milênios, por meio do Estreito de Bering, e que provêm todos de povos orientais próximos dos mongóis, chineses, japoneses e outros de olhinhos puxados.

Mas então como se explica o fato de a língua maia ter elos com idiomas semíticos, o tupi com idiomas sumerianos e as línguas do altiplano andino com idiomas drávida-australianos?


Escrita maia
Entre as grandes tribos da América do Norte, a maior parte dos idiomas ameríndios deriva do grupo caucasiano. Mas há entre elas vestígios polinésios e, pasmem!, árabe, celta e germânico.

Há grupos indígenas minoritários do Canadá cujos idiomas trazem vestígios copta e etíope!

Um grupo numeroso de estudiosos acredita que os cerca de três mil idiomas falados hoje no mundo possam ter a mesma origem.

A ideia dessa mítica lingua-mãe provém das várias semelhanças entre os idiomas dos diferentes galhos da grande árvore linguística.

Essa teoria é antiga. Psamético, um dos últimos faraós do Egito – reinou de 664 a 610 aC – deixou em seu túmulo documentos que apontam uma mesma origem para a riqueza e diversidade linguística dos povos.

Os linguistas russos Vladislav M. Illich Svitch e Aron Dolgopolsky propuseram que o indo-europeu, o semítico e a família das línguas dravídicas da Índia poderiam fazer parte de uma superfamília, chamada então nostrática.

Até os anos 1940, acreditava-se que o berço dos idiomas indo-europeus estava situado no norte da Alemanha e da Polônia. Mas tal teoria era amparada pela ascensão do regime totalitário nazista, que se declarava ariano.

Ou seja, a hipótese era meramente política. E como quase tudo que diz respeito à política é falso, não se sustentou por muito tempo.

Evolução de letras do alfabeto fenício hoje utilizado
Estudiosos da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) apontaram o berço do indo-europeu como o planalto da Anatólia, uma região que vai da Turquia à República da Armênia.

Dali, movidos pela busca de terras férteis e de novos campos de caça, os indo-europeus teriam migrado, há uns cinco milênios, seja para a Europa, seja para a Ásia, na qual ocuparam os territórios que hoje compreendem o Afeganistão, o Paquistão e a Índia.

Mas tal teoria também teve amparo meramente político, para comprovar a predominância do então regime comunista sobre o mundo, inclusive no que diz respeito à origem dos idiomas. Também não vingou.

Pesquisas mais recentes afirmam que um suposto idioma proto-indo-europeu era falado há cerca de seis mil anos na Ásia e não na Europa Central.

Mas tais teorias se esbarram em dúvidas que cada vez mais vêm à tona, conforme os próprios estudos sobre os vários idiomas ganham profundidade.

Como se explica, por exemplo, a semelhança de palavras entre as línguas indígenas da América pré-colombiana e idiomas falados por povos do Mediterrâneo e do Oriente Médio?

Escrita pré-histórica
Enfim, a origem das línguas está repleta de hipóteses carentes de elucidação científica. Só falta surgir um filólogo à la Erich von Däniken para afirmar que nossas línguas primitivas foram cá introduzidas por seres extraterrestres.

Nenhum comentário:

Postar um comentário