terça-feira, 3 de junho de 2014

De segunda a treze anos: a vinda de Cage ao Brasil


Ano de 1985.

O compositor erudito, poeta, filósofo, design e artista plástico norte-americano John Cage (1912-1992) veio ao Brasil para participar da 18ª Bienal de São Paulo e do lançamento da tradução do seu livro De segunda a um ano, publicado pela Editora Hucitec

A obra reuniu textos dele pinçados, principalmente, de dois livros: Silence e A year from monday.
John Cage

A tradução e organização foi do maestro brasileiro Rogério do Duprat (1932 –2006), compositor erudito e arranjador dos melhores que nossa música popular já teve.

Para quem não o conhece, Duprat foi um carioca da gema que viveu a maior parte de sua vida em São Paulo, onde atuou no movimento Música Nova, braço musical que se estendeu para favorecer o surgimento da poesia concreta em meados dos anos 1950.

Duprat teve formação de gente de primeiro time. Foi aluno de Karlheinz Stockhausen (1928-2007) na Alemanha, junto com o músico norte-americano Frank Zappa.

Ao lado de Júlio Medaglia, Damiano Cozzella, Gilberto Mendes, Willy Correia de Oliveira  e outros se juntos ao mestre dos mestres da música contemporânea no Brasil, Hans-Joachim Koellreuter (1915-2005).

No final dos anos 1960, personalizou o som do então emergente movimento tropicalista com arranjos bem elaborados, criativos e perfeitamente antenados com as tendências internacionais da época.

Duprat (à esq. da foto, segurando um penico)
no disco-manifesto do tropicalismo

Foi arranjador de alguns dos principais discos de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes, Chico Buarque, Walter Franco e do grupo O Terço.

Esse é um rápido perfil do tradutor do livro De segunda a um ano. Há muito mais o que ser dito sobre ele.

Voltemos ao autor dos textos vertidos para o português, o californiano John Cage. Aquele foi o primeiro e único livro dele até hoje publicado no Brasil.

Duprat escolheu o que viria a traduzir com o apoio dos amigos Augusto de Campos, Damiano Cozzella e Décio Pignatari...

Eram conferências, poemas, textos teóricos (sobre música, ecologia, política, tecnologia, religião, filosofia, artes visuais), cartas e parábolas nos moldes da linguagem na qual só Cage escrevia.

Dentre os quais estavam duas criações da série Diário: como melhorar o mundo (Você só tornará as coisas piores), um mosaico que traz à tona inquietações existenciais e estéticas do norte-americano.

Recheadas com ótimos comentários sobre músicos como Charles Ives e Henry Cowell, artistas plásticos como Marcel Duchamp, Miró, Jasper Johns, Rauschenberg e pensadores como Henry Thoreau, Daisetz Suzuki, Buckminster Fuller e Marshall McLuhan.

Buck Fuller ao fundo de uma de suas geodésicas

O lançamento da obra em 1985 fora precedido por 13 anos de batalha para publicá-la. Nenhuma das editoras se interessou durante esse período, até que a Hucitec topou a parada, com a condição de que o autor estivesse no lançamento.

Para fazer justiça à preocupação que Cage sempre teve com a qualidade gráfica de suas obras, Duprat e Augusto de Campos brigaram muito para que todas as páginas, qual os originais de onde foram tiradas, tivessem diagramações e tipos de letras diferentes.

Como a tiragem era limitada, logo tratei de obter meu exemplar quando chegou às livrarias.

Mais tarde o livro foi reeditado pela Editora Cobogó, com novo prefácio de Campos e profusão de escritos estruturados em variadas disposições gráficas.

Capa da edição da Cobogó

Aquela fora a segunda vez que Cage viera ao Brasil. Sua primeira estadia por aqui ocorreu em 1968 (em plena ditadura militar), a convite de integrantes do extinto Centro Internacional de Pesquisas sobre o Anarquismo.

Meio que clandestinamente, viera proferir uma palestra em um curso sobre anarquismo. Abordou o pensamento e a obra de Henry Thoreau (1817-1862)  e sua desobediência civil.
“Política consiste em afirmar a dominação e procurar alcançá-la. A verdadeira vida é a poética, ao passo que a política consiste em suprimir a poesia, em suprimir a própria vida que a ela se mostra contrária.”

No ano seguinte, após a prisão de alguns organizadores e participantes do curso, Cage foi citado num dos relatórios de um órgão de segurança como responsável por um curso de caráter subversivo oferecido no Brasil.

Sua identificação com o anarquismo de Thoreau está relacionada aos seus estudos sobre a condição humana. Embora tenha afirmado coisas como as que seguem abaixo, nunca foi um estrito militante.
"Sem políticos, nem polícia. Não ao governo, apenas educação. A anarquia é pratica. Nós devemos realizar o impossível, nos desfazer do mundo das nações, introduzindo o jogo da inteligência anárquica no mundo. Nós sabemos que o melhor governo é não existir governo.”
Seu anarcoindividualismo tinha vários aspectos em comum com a antropofagia do modernista brasileiro Oswald de Andrade.

Oswald de Andrade

Cage também era partidário das utopias tecnológicas postuladas pelo engenheiro/arquiteto Buckminster Fuller, em defesa do “homem natural tecnizado”.

Afirmava seus conceitos qual os filósofos zen orientais, por meio de piadas com teor irônico. Ou seja, compreendendo a necessidade da dúvida, da discordância por parte dos que viessem a se interessar por eles.

A influência de Cage foi preponderante nas artes. Extrapolou em muito a música, sua principal área de criação. Entre os que amaram (e amam) sua obra e ideias estão poetas, escritores, músicos populares e artistas plásticos de vários países.

Dedicou-se, principalmente por meio dos livros e palestras, a desestruturar pensamentos estritamente ordenados, bem-pensantes, voltados para agradar e refletir o senso comum.

Como músico, defendeu a abolição das estruturas e priorizou o acaso.
"A música é um jogo sem propósito, que é uma afirmação da vida – não uma tentativa de trazer a ordem ao caos nem sugerir aperfeiçoamentos na criação, mas simplesmente um jeito de acordar para a vida."

Contrapondo-se a seu professor Arnold Schöenberg (1874-1951), rompeu com as escalas tradicionais e ignorou as distinções entre música e ruído, som e silêncio.

A ruptura com Schöenberg se deu quando o mestre, notando sua pouca aptidão pela harmonia, vaticinou que o aluno seria incapaz de compor. Fato idêntico ocorreu no final dos anos 1970 com nosso Arrigo Barnabé, quando ainda era aluno de música da ECA/USP.

“Você vai bater de frente com um muro e não vai poder atravessá-lo”, disse Schöenberg a Cage. 

“Então, vou devotar a minha vida a bater a cabeça contra esse muro”, respondeu de forma impertinente o aluno.

E assim o fez.

Cage foi um pioneiro da música aleatória, da música eletroacústica, do uso de instrumentos não convencionais, bem como do uso não convencional de instrumentos convencionais, sendo considerado uma das figuras-chave das vanguardas artísticas do pós-guerra.

Além das aulas com Henry Cowell e Arnold Schoenberg, ambos conhecidos por suas inovações radicais na música contemporânea, suas maiores influências são provenientes da filosofia oriental.

Através de seus estudos de filosofia indiana e zen budismo nos anos 1940, Cage chegou à ideia de música aleatória, que começou a compor em 1951.

O I Ching, livro clássico chinês, tornou-se uma de suas importantes ferramentas de composição.

Foi um investigador incansável. Sua matéria-prima era o óbvio, o cotidiano – tudo o que já existia mas que passava despercebido às pessoas em geral. Entre outras coisas, elevou o barulho-ruído ao status de música, fazendo o mesmo com o silêncio.

Buscou novas estruturas musicais, até descobrir que não precisava delas.

Para melhor entendê-lo é preciso entender o dadaísmo, de onde provém seu senso de humor anárquico. Foi muitíssimo mais avançado que a geração beat de Guinsberg, Kerouac & cia, que provém do surrealismo.

Sua vertente criadora e teórica segue a tradição desconstrutiva que o interliga a Gertrude Stein, Ezra Pound e, sobretudo, Marcel Duchamp.

Duchamp e Cage jogam xadrez em uma performance

Cage e o grande coreógrafo canadense Merce Cunningham (1919-2009) foram amigos inseparáveis, parceiros de vários trabalhos, moraram juntos por décadas e, dizem, foram amantes.

De início, coabitavam no mesmo apartamento Cunningham, Cage e a então esposa deste, Xênia. Talvez já numa ménage à trois. Xênia o deixou, provavelmente porque se viu preterida.

O apartamento onde residiam tinha livros, instrumentos, telas, esculturas e instalações por toda parte. Conforme as obras presenteadas por amigos iam se acumulando, restringia-se o espaço para os moradores.

Cage e Merce Cunningham
O apartamento tinha dois banheiros, mas apenas um funcionava. O outro passou a abrigar obras plásticas do próprio Cage. Um dos quartos também foi transformado em depósito de obras e o outro, em estúdio.

Os dois dividiram então a sala ao meio com estantes de livros, onde cada qual constituiu seu espaço. Dormiam sobre tatames, os quais eram recolhidos para que pudessem receber os vários amigos que por lá passavam.

Os frequentadores mais assíduos eram os artistas plásticos Bob Rauschenberg e Jasper Johns, o escritor Norman Mailer e o compositor Philip Glass.

Jasper Johns
Dormiam pouquíssimo, em horários opostos.

Cada qual tinha uma rotina de trabalho de 12 a 14 horas contínuas. Vida e arte, sem separação. Cage trabalhava durante as noites e Cunningham durante os dias.

A amizade duradoura teve início quando Cunningham convidou Cage para compor uma peça para uma coreografia sua. A partir daí fizeram vários trabalhos juntos.

Por se dedicarem a uma produção experimental de vanguarda, para público estrito, Cage e Cunningham tinham pouquíssimo dinheiro. Os amigos várias vezes os socorreram para ajudar a pagarem as contas.

Pelo fim dos anos 1980, o diretor Elliot Caplan fez o documentário Cage/Cunningham, no qual ambos aparecem falando das pessoas, coisas que gostavam (dentre elas beber vinho) e, sobretudo, a respeito de plantas e animais.

Cena do documentário Cage/Cunningham
Cage era apaixonado por cogumelos. Sabia tanto sobre o assunto que, para ganhar dinheiro, concorreu a um concurso de televisão sobre cogumelos na Itália e acertou todas as respostas.

No filme, Cage exibe suas habilidades de cozinheiro. O hábito rotineiro de beber vinho o levou a ter sérios problemas de fígado.

John Lennon e Yoko Ono o levaram a um médico chinês com quem se tratavam. Esse médico teria salvado a vida de Cage na ocasião.

Cage estava sempre interessado no som e Cunningham nos movimentos. Ambos eram atinados ao acaso, esse "exercício maravilhoso de atenção".

O que os paus do I Ching, os dados ou uma moeda ao ar decidissem seria sempre mais ilimitado do que a decisão humana. Pois podia libertar a criação para direções inesperadas.

Nenhum dos dois estava interessado em emoções. As emoções, dizia Cage, estão no público.

Para Cunningham tratava-se de mergulhar no vazio, tal como para Cage se tratava de mergulhar no silêncio.

Cage era mais célebre, mas Cunningham era mais consensualmente respeitado, mesmo pelos padrões clássicos.

O mais importante para os dois era o trabalho. No dia seguinte à morte de Cage, Cunningham foi trabalhar, como sempre. Cage provavelmente teria feito o mesmo.

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