terça-feira, 3 de junho de 2014

Hölderlin: o estigma da loucura na busca pela perfeição

Um dos mais importantes tradutores da poesia grega antiga de todos os tempos foi o alemão Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770-1843).

Também foi um dos primeiros a teorizar sobre a função da tradução. Para Hölderlin o que se deve traduzir, antes de tudo, não é o poema, mas a poesia. Ou seja, o tom geral, a impressão que domina o todo.

O que requer senso crítico do tradutor. Pois, dizia ele, sem boa crítica não há boa tradução.


Retrato de Friedrich Hölderlin
Traduzir, para ele, é buscar o estado nirvânico do original, para transpô-lo qual assimilado pelos leitores ou ouvintes em meio aos quais a obra em questão foi consagrada.

Somente no século XX, as duas peças de Sófocles por ele traduzidas – Édipo Rei e Antígona – foram celebradas como um modelo de tradução poética, que deixou visíveis as singularidades do texto original.

Um bom exemplo da excelente recepção da obra de Hölderlin na modernidade foi a adaptação de Bertolt Brecht (1898-1956) de Antígona, de Sófocles, baseada em sua tradução...


As ideias de Hölderlin reformataram a compreensão da cultura grega antiga para os europeus e anteciparam o simbolismo.

O primado de sua relação profunda com a cultura grega antiga se deu não só com as traduções, mas com sua obra principal, o romance em versos Hipérion.

Trata-se de um romance lírico sobre a resistência heroica dos gregos à destruição dos escombros da sua antiga cultura pela dominante invasão turca.

Hipérion tem os dois lados da duplicidade que caracteriza toda a grande poesia de Hölderlin: a transcendência, que vê na natureza o sumo bem e o sumo belo, e a renúncia ao contemplativo, em que se luta por uma redenção moral da humanidade.

A personagem principal do romance, Diotima, é o arquétipo platônico que vem a ser a vítima trágica dessa duplicidade.

Hölderlin conseguiu sintetizar na sua obra o espírito da Grécia antiga, os pontos de vista românticos sobre a natureza e uma forma não-ortodoxa de cristianismo, alinhando-se entre os maiores poetas germânicos de todos os tempos.

Em 1788, ele iniciou seus estudos em teologia na Universidade de Tübingen, como bolsista. Lá conheceu Friedrich Hegel (1770-1831) e Friedrich Schelling (1775-1834), que mais tarde se tornariam seus amigos.



Retrato de Friedrich Schelling
Devido aos recursos limitados da família e de sua recusa em seguir uma carreira clerical, Hölderlin trabalhou como tutor para crianças de famílias ricas.

Em 1794, frequentou a Universidade de Jena, a fim de ouvir as palestras de Johann Fichte (1762-1814).

Lá ele conheceu as principais figuras do romantismo alemão: Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), Friedrich Schiller (1759-1805) e Friedrich Von Hardenberg Novalis (1772-1801).


Retrato de Johann Wolfgang von Goethe
Em junho de 1795 ele abandonou a cidade universitária e retornou a Nürtingen.

Em 1796 foi professor particular de Jacó Gontard, um banqueiro de Frankfurt, cuja esposa, Susette, viria a ser seu grande amor. Susette Gontard serviu de inspiração para a composição de Diotima, protagonista do romance Hipérion.

Hölderlin se encontrava em uma situação financeira difícil (mesmo tendo alguns de seus poemas publicados ocasionalmente com a ajuda do seu patrono, Schiller). Ainda dependia financeiramente do apoio de sua mãe.

Nessa altura, já sofria de transtornos mentais, condição que pioraria depois de seu último encontro com Susette Gontard, em 1800.

Quando em 1802 recebeu a noticia da morte de Susette, Hölderlin voltou para a casa da mãe em Nürtingen e dedicou-se ao trabalho das traduções de obras de Sófocles e Píndaro.

Em 1805 sua insanidade foi diagnosticada. No entanto, essa caracterização de seu estado mental como loucura é até hoje vista de forma incerta.

Em 1807, foi deixado aos cuidados de Ernst Zimmers, um carpinteiro que vivia em Tübingen e grande admirador de Hipérion.

Sob o pseudônimo de "Scardanelli", Hölderlin escreveu, no período, seus poemas de maior rigor formal.

Tentou retomar o convívio social, mas já havia sido estigmatizado pela preconceituosa sociedade alemã da época como “louco”.

Durante os próximos 36 anos permaneceu isolado em um quarto numa torre, às margens do rio Neckar, até 1843, ano de sua morte.

Os primeiros poemas de Hölderlin, quando jovem, são geralmente hinos que versam acerca de objetos abstratos.

Na maturidade, trabalhou com as formas antigas da ode e da elegia. Em particular, suas odes são marcadas pelo domínio completo de um formato métrico muito difícil.

Dos grandes poemas de sua fase de isolamento, já estigmatizado como doente mental, alguns foram escritos em forma de elegias, outros em verso livre.

Ocasionalmente é possível encontrar nesta fase poemas em outras formas, como hinos em hexâmetros. Um exemplo é a obra chamada O arquipélago.

A compreensão de Hölderlin acerca da cultura grega antiga, tal como expresso em suas cartas a Casimir Ulrich Boehlendorff e de suas observações sobre a tradução tardia de Sófocles, é diferente da imagem ideal de muitos de seus contemporâneos.

Hölderlin enfatiza as características anticlássicas da cultura grega. Já no início de seu romance Hipérion, representa a sua ideia de destino trágico, como ele a concebia, ou seja, a partir de sua percepção de como via a cultura grega antiga.

A poesia de Hölderlin, que hoje é considerada de grande destaque dentro dos estudos germânicos, permaneceu desconhecida até a metade do século XIX.

Ele não foi reconhecido entre os escritores de sua época. Para os seus contemporâneos, Hölderlin era um jovem romântico e melancólico, mero imitador de Schiller.

O grande reconhecimento veio na era moderna, sobretudo a partir do simbolismo.

Convém salientar que, apesar de ter sido praticamente incompreendido durante todo um século, leitores ilustres como Friedrich Nietzsche (1844-1900) e Stefan George (1868-1933), entre outros, acolheram e fizeram reverberar sua poesia.



Friedrich Nietzsche
O que fez com que Hölderlin não fosse reconhecido se deve ao fato de que sua poética não estava em consonância com o que vinha sendo produzido em sua época.

Devido a isso, Hölderlin encontrou o desdém até mesmo de pessoas próximas como Schiller, Hegel e Schelling.

A incompreensão do público e da crítica levou à estabilização do entendimento de sua obra como a de um admirador dos gregos que não atingiu a serenidade de Goethe e Schiller, a de um romântico juvenil e de um poeta patriótico.

Hölderlin, poeta do sagrado, descobriu na Grécia antiga o lado dionisíaco, que foi ignorado por Goethe e mais tarde foi exaltado por Nietzsche.

É hoje considerado um dos maiores poetas alemães de todos os tempos, no mesmo patamar do seu contemporâneo Goethe.

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