sábado, 28 de junho de 2014

HQs amorais com muito, muito sangue

O desing gráfico, roteirista e desenhista Stefano Tamburini (1955-1986) foi o criador de duas das mais importantes revistas italianas de histórias em quadrinhos, uma nos anos 1970 (Cannibale) e outra nos anos 1980 (Frigidaire).

Não só. Também foi o criador da HQ que revolucionou esta arte nas duas décadas: Ranxerox.

Ranxerox é este cabra com cara de mau


Do seu grupo faziam parte Tanino Liberatore (que dividiu com Tamburini a autoria das principais histórias de Ranxerox), Massimo Mattioli, Filippo Scozzari e Andrea Pazienza.

Na Cannibale saíram os primeiros episódios de Ranxerox, ainda em preto e branco, todos bolados e até então desenhados só por Tamburini.


Ranxerox com desenhos de Tamburini para a Cannibale

Quando Cannibale faliu, em outubro de 1979, Tamburine se dedicou, junto com seu grupo, à fundação da Frigidaire, onde foram publicadas histórias de Ranxerox com outro estilo, o de Liberatore, em cores berrantes e recursos gráficos revolucionários para a época.


Com desenho de Liberatore para a Frigidaire

Stefano Tamburini morreu em Roma, em abril de 1986, vítima de “um imprevisto e desconhecido mal”, escreveram os jornais.

A verdade: sucumbiu a uma overdose de heroína.


Ele próprio conta como surgiu seu personagem:



“A ideia de Ranxerox nasceu em um ônibus, quando eu voltava de uma batalha campal contra a polícia no centro de Roma, em 1977. Vi na rua uma fotocopiadora usada sendo chutada por vários estudantes. Veio-me à mente que ela poderia ser transformada em uma coisa mais ativa, bélica. Poderia dar lugar a um robô criado por um delinquestudante de microeletrônica. Foi exatamente assim que comecei a criar as primeiras histórias para a Cannibale.”

Desde o seu lançamento, em 1978, Ranxerox causou polêmica.


Batia em bebês, fazia sexo com uma menina de 12 anos e se drogava o tempo todo...



As críticas vieram de todos os lados, sobretudo da própria esquerda, que considerava o personagem amoral, violento, alienado e alienante.

Era mais ou menos isso o que se falava do grupo inglês Sex Pistols, da mesma época.

Vida doméstica de Ranxerox e sua piveta Lubna

Ranxerox tinha uma tampa de panela na cabeça que lhe escondia os circuitos cerebrais e distribuía porradas a torto e a direito.


Era um robô ultraviolento, apaixonado por uma ninfeta mal-humorada que o fazia de escravo, seja sexual, seja para mandá-lo conseguir heroína.


O desenho foi ainda mais influente, amado e odiado quando sua versão em cores berrantes chegou às bancas nos anos 1980.


Internacionalizou-se rapidamente, sendo publicado por revistas de HQ de vanguarda de vários países, inclusive do Brasil (Animal).

Tanino Liberatore, a certa altura, passou a cuidar da maioria dos desenhos e Tamburini dos textos e da arte final.


Tanino Liberatore (esq.) e Stefano Tamburini

Liberatore criou para as histórias de Tamburini uma arte ultrarrealista, cheia de sombras e tons pasteis, inédita para a época.

Mas o cérebro de Ranxerox, com sua violência exacerbada (um bebê mostrava-lhe a língua no metrô e ele achatava-lhe a cara com um soco) vinha da mente conturbada, extremamente criativa e radical de Tamburini.


Com a morte de Tamburini, em 1986, a derradeira história da dupla ficou pela metade e o personagem permaneceu suspenso por cerca de uma década.


Somente em 1997 Liberatore se uniu ao roteirista francês Alain Chabat para dar um fim à trajetória infame do anárquico personagem.


Em 2010, a Conrad Editora, do Brasil, fez um edição de luxo de todas as histórias de Ranxerox, a qual pode ser comprada pelas livrarias (físicas ou virtuais).


Capa da edição da Conrad

Ranxerox surgiu num período complicado para a juventude.

Os sonhos de paz, amor, igualdade e liberdade da década de 1960 tinham descambado em uma retirada humilhante da guerra despropositada e sangrenta no Vietnã.


Uma chacina horrenda fora comandada por um líder hippie psicótico (Charles Manson) acabando de vez com a imagem paz e amor da geração flower power.


O comunismo mostrava, cada vez mais, o quanto fora desastroso nos países que o adotaram.


O poder da flor e da esperança dava lugar ao ódio e ressentimento dos punks.


Na Itália, um governo direitista mantinha laços escusos com a máfia, tudo coordenado por uma grande loja maçônica.


A juventude italiana via seus gritos de protesto sufocados na base da porrada.


E encontrava como únicas válvulas de escape para seu descontentamento a reação clandestina e armada de organizações paramilitares de extrema esquerda como a Brigate Rosse.


A heroína era a droga da moda.


Nesse contexto de falta de perspectivas, agressão indiscriminada e niilismo permeando tudo é que nasceria o grande anti-herói dos quadrinhos italianos.


A violência de Ranxerox não era, portanto, gratuita.


Era um protesto, uma deliberada manifestação contrária aos “bons princípios” da família italiana que se confundiam e eram apropriados por uma ideologia política opressora e corrupta.


As vítimas de Ranxerox: boas pessoas de família, playboys elitistas, policiais “cumprindo seu dever” e os otários costumazes.


Ranxerox aplica corretivo em Lubna

A partir da união de Tamburini e Liberatore, as aventuras de Ranxerox adquiriram um escopo maior e mais complexidade, embora a trama principal permanecesse a mesma.

Alguma coisa sempre separava Ranxerox de sua namorada, Lubna (na maior parte das vezes por vontade dela própria) e o robô passava então a massacrar tudo e todos em seu caminho, para se reunir novamente a ela.


Tamburini aproveitava as tramas de cada episódio para criticar, sacanear e, catarticamente, esmagar um sem-número de personagens que representavam a caretice regularmente aceita em seu país.

Intelectuais acadêmicos bem-pensantes.


Artistas populares babacas.


Representantes da classe média intelectualizada metidos a analistas de tudo.


Oligarcas corporativos.


E, sobretudo, religiosos.


No mundo de Ranxerox, a hipocrisia era a moeda corrente e a violência, de todos contra todos, era não só exclusiva do anti-herói robótico.


Nas suas histórias ninguém prestava e todos estavam fazendo apenas o que interessava a si próprio, frequentemente visando satisfazer fantasias de poder, ganância ou luxúria.


Mesmo a mocinha “em perigo” Lubna era tão dissimulada, traiçoeira e duvidosa quanto os personagens que o robô brutamontes enfrentava para protegê-la.


Lubna manipula seu gigante

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