sábado, 28 de junho de 2014

La música de nuestro tiempo

A denominação que separa os dois universos da música – erudita e popular – é arbitrária, superficial e restritiva. Mas é a que existe.

Música erudita ou clássica – termo que piora ainda mais as coisas – é o nome dado à principal variedade de música produzida ou enraizada nas tradições da música secular e litúrgica ocidental, que abrange um período amplo que vai aproximadamente do século IX até o presente.


Em princípio, tal música – com parâmetros e rigores construtivos superiores à popular – segue os cânones estabelecidos no decorrer da história desta arte.


Ou seja, as normas centrais desta tradição que, como tal, foram codificadas. Ou seja, documentadas.


A verdade é que a música popular, mesmo quanto ao rigor construtivo, em vários momentos se aproximou da erudita (e vice-versa).


Isso ocorreu na Idade Média com a grande tradição da poesia trovadoresca provençal.


Idem com a música popular barroca do século XVI.


Na era moderna, com as operetas, o jazz norte-americano, nosso choro, nossa bossa nova, etc.


A rigor, não há como negar que as grandes inovações que repercutem no âmbito da música popular provêm daquelas introduzidas por compositores eruditos, clássicos ou outra caracterização que se queira dar.


Uma das mais significativas mudanças se deu a partir do início do século XX, com o surgimento da música atonal.

A música atonal, em sentido bem amplo, é desprovida de um centro tonal, ou principal, não tendo, portanto, uma tonalidade preponderante.

Na música atonal, as notas da escala cromática sucedem-se independentemente umas das outras.


Arnold Schöenberg

Anton Webern

Alban Berg

Rompe, assim, com o sistema de hierarquias que caracteriza a música tonal erudita europeia, produzida principalmente entre os séculos XVII e XIX.

Essa importante revolução se deu a partir da chamada Segunda Escola de Viena, iniciada pelo compositor Arnold Schöenberg (1874-1951) e aprofundada por seus alunos Anton Webern (1883-1945) e Alban Berg (1885-1935)...




Claro que Schöenberg não a inventou do nada, assim como Albert Einstein (1879-1955) não chegou à teoria da relatividade por acaso.

A mudança foi ensaiada por outros músicos ao longo de séculos.


Entre o fim do século XIX e o início do século XX, compositores como Alexander Scriabin (1872-1915), Claude Debussy (1862-1918), Béla Bartók (1881-1945), Paul Hindemith (1885-1963), Sergei Prokofiev (1891-1953), Igor Stravinsky (1882-1971) e Edgard Varèse (1883-1965) escreveram música que, no todo ou em parte, também pode ser tida como atonal.


Edgard Varèse

Ao longo das próximas edições deste blog apresentarei artigos sobre a revolução atonal na música.

Este primeiro é sobre a obra teórica e musical do mais renovador dos músicos sul-americanos do século XX: o argentino Juan Carlos Paz (1901-1972), cujo livro Introducción a la música de nuestro tiempo é um dos mais importantes, inclusive no cenário internacional, para entender esse processo.


Daí o título do artigo, em reverência a Paz.


Juan Carlos Paz

O segundo artigo abordará os primórdios da música atonal, digo, os compositores que antecederam Schöenberg, Webern e Berg.

O terceiro será sobre a revolução atonal, propriamente, e seus três protagonistas.


O quarto será sobre as tendências resultantes da revolução atonal: microtonalismo, música concreta, eletrônica, aleatória, etc.


O último será sobre o compositor francês Pierre Boulez (1925), que representa a síntese e continuidade do que houve de mais essencial nessa transformação radical.


Pierre Boulez

A ideia de abordar o tema veio de conversa com Pedro Manuel Rivaben Salles (arquiteto, produtor cultural e professor universitário) há duas semanas.

Salles me sugeriu, inicialmente, escrever sobre Boulez. Mas achei conveniente apresentar o beabá que o antecedeu.


Quanto ao homenageado por este artigo, Juan Carlos Paz, foi um dos compositores que antecedeu à revolução atonal e também o primeiro latino-americano a adotar as técnicas dodecafônicas da Segunda Escola de Viena.


A carreira de Paz, que sempre viveu em Buenos Aires, foi das mais difíceis. Lutou muito para expor suas teorias e obras em meio a um ambiente dominado pelo provincianismo e oportunismo político – sempre respaldados no apoio oficial.


Infelizmente seus livros continuam mais conhecidos que sua obra musical.


Paz, como Jorge Luis Borges, era amigo de Macedonio Fernandez (1874-1952) – sobre o qual tratei aqui no artigo Borges y yo.


Juan Carlos Paz não escrevia só sobre música. Foi um importante crítico de artes plásticas, literatura, cinema e política.


Foi um arguto crítico do peronismo – o que, por si só, já se vislumbra por que nunca foi bem-visto por parcela significativa dos leitores dos jornais e revistas platenses para os quais escrevia.


Em seus artigos criticava os músicos nacionalistas e seu “folclorismo patrioteiro mesclado a realismo escolar”.


Posicionava-se totalmente contra o conceito de “cultura nacional”, que prepondera no pensamento de esquerda por toda a América Latina (principalmente no Brasil).


Para ele, cultura é uma só, múltipla, internacional, para toda a humanidade, independente de onde e por quem seja produzida. Para a esquerda, cultura é uma questão de classe (como tudo).


Em 1930, liderou a criação do Grupo Renovación, concebido para divulgar a música contemporânea de vanguarda em seu país.


Em 1937, criou a Agrupación Nueva Música, agremiação ainda mais radical que só admitia mostrar ao público o que fosse realmente novo.


Desse segundo agrupamento saíram compositores platenses importantes, como Carlos Roque Alsina (1941), Mario Davidovsky (1934) e Maurício Kágel (1931-2008).


Sua produção musical foi por ele mesmo dividida em quatro períodos.


De 1921 a 1927, dominada por obras voltadas para as formas clássicas e barrocas, com linguagem tonal cromática. Pertence a essa fase algumas canções, duas sonatas para piano e o Canto de natividad (para orquestra).


De 1928 a 1931, sob influência de Stravinsky, orientou-se em direção à politonalidade e ao neoclassicismo. Produziu Movimento sinfônico e Variationes politonales, ambas para orquestra.


De 1934 a 1950, foi sua fase mais radical, quando empregou as técnicas dodecafônicas de Schöenberg e Webern, e gerou a obra revolucionária Passacaglia (para orquestra) e dez peças para piano.


Teve grande interação com Hans-Joachim Koellreuter (1915 –2005), compositor, professor e musicólogo brasileiro de origem alemã, radicado no Brasil em 1937, que se tornou um dos nomes mais influentes na vida musical do nosso país no século XX.


Hans-Joachim Koellreuter

Manteve também constante diálogo com os integrantes do Grupo Música Nova, formado por compositores influenciados por Koellreutter, como Rogério Duprat e Damiano Cozzella.

Em seus vários livros, além do que cito no título deste artigo (Introducción a la música de nuestro tiempo, de 1955), destaco: La musica em los Estados Unidos (1952), Arnold Schöenberg o el fin de la era tonal (1958) e Alturas, tensiones, ataques, intensidades (1972).

Duas obras de Juan Carlos Paz para ouvirem: Ritmica ostinata e Tres movimientos de jazz

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