terça-feira, 3 de junho de 2014

“Maestro” Pixinguinha

Até o final dos anos 1950 havia um arranjador soberano na música brasileira: Alfredo da Rocha Vianna Filho, conhecido como Pixinguinha (1897-1973).

Sua linguagem orquestral, por muitos qualificada de "ponte entre o erudito e o popular", foi preponderante até que o samba-canção, entre os anos 1940 e 1950, passasse a exigir uma sonoridade mais centrada nas cordas, menos percussiva, ao estilo do maestro Radamés Gnattali (1906-88), que se tornou o grande arranjador da MPB até a bossa nova.

Pixinguinha ao saxofone
 Depois da bossa nova, o time de arranjadores diversificou-se ainda mais. Vieram Tom Jobim, Edu Lobo, César Camargo Mariano, Rogério Duprat, Júlio Medaglia e outros tantos.

Pixinguinha somou cerca de 500 arranjos para gravações de vários cantores e instrumentistas na primeira metade do século XX, nas quais também costumava tocar flauta ou saxofone.

Deixou 194 composições próprias de vários gêneros (sambas, choros, marchinhas, sambas-canções, valsas e até músicas sertanejas) em discos e mais de 100 em partituras. Sem contar as dezenas de obras suas vendidas ou surrupiadas por espertalhões.

Carinhoso (1917) e Lamento (1928) foram suas composições mais conhecidas. Mas ambas estão longe de serem as mais importantes.

Há dezenas de outras canções de Pixinguinha que merecem encabeçar a lista de suas melhores obras. Só para exemplificar, ouçam seu Samba do urubu. A flauta, tocada pela próprio compositor, nos remete aos movimentos do voo da ave.

A seguir, Carinhoso com Paulinho da Viola e Marisa Monte:


Pixinguinha foi um dos poucos músicos populares brasileiros de sua época que escreviam partituras com perfeição...


Mas de um modo muito especial. A exemplo dos arranjadores das bandas de jazz norte-americanas, não escrevia a "grade" – nome da partitura que traz a transcrição de todos os instrumentos.

Escrevia diretamente as "partes cavadas", ou seja, folhas nas quais os pentagramas trazem apenas as notas a serem lidas individualmente por cada músico.

Suas brochuras expunham as partes de cada instrumento, que hoje os músicos podem reproduzir, mesmo que precisem, no solfejo, imaginar a sonoridade dos demais instrumentos que entram no mesmo arranjo para construir a complexidade sonora.

Uma das peculiaridades de Pixinguinha era na multiplicação das "vozes" (cada instrumento ou grupo deles tinha uma "voz" própria dentro do arranjo).

Os violinos, por exemplo, podiam, nos arranjos dele, se dividir em até três ou quatro “vozes”. Ou seja, entravam com melodias diferenciadas umas das outras, reforçando o grupo de solistas ou o acompanhamento.

Os músicos de seu tempo ganhavam mal. O pagamento de direitos autorais era sempre um problema. Somado a tudo isso, Pixinguinha não era nada ambicioso. Sua felicidade era fazer música e tomar seus drinques com os amigos.
 
O compositor em seu ambiente preferido: o bar

Entre as centenas de arranjos por ele escritos estão os da maioria das gravações nacionais de Carmem Miranda e os compassos sincopados e amplamente conhecidos das marchas de Lamartine Babo.

Ouçam O teu cabelo não nega (1932) e Chegou a hora da fogueira (1933), ambas de Babo. Na última, há uma sucessão de notas cada vez mais agudas para representar a ascensão do balão. 

Escreveu a maioria dos arranjos para gravações de Francisco Alves (o cantor brasileiro mais popular da primeira metade do século XX), Mário Reis e Orlando Silva.

Foi arranjador da RCA Victor e depois de outra gravadora americana, a Columbia Records. Trabalhou nas rádios Mayrink Veiga, Nacional e Tupi.

Também viajou muito com os grupos dos quais fez parte: Caxangá, Oito Batutas e Regional de Benedito Lacerda.

Oito Batutas: Pixinguinha é o primeiro à esquerda

Na década de 1940 passou a integrar o regional de Lacerda como saxofonista. Algumas das suas principais obras daquele período foram registradas em parceria com o líder do conjunto, mas hoje se sabe que Lacerda não era o compositor e pagava por elas.

Nos bons tempos, quando esbanjava saúde, ia todos os dias ao Bar Gouveia, no centro velho do Rio de Janeiro, onde tinha uma garrafa de uísque e mesa cativa com placa de bronze em seu nome.

Em 1946, abandonou em definitivo a flauta e passou a tocar apenas saxofone. Uns dizem que perdeu a embocadura do instrumento por causa da bebida. Outros que optou pelo saxofone devido à forte atração pelo jazz.

Pixinguinha e Louis Amstrong

Foi muito criticado entre os anos 1930 e 1940 porque os músicos cariocas o consideravam um músico de jazz. Crítica que ele próprio fez, no final dos anos 1950, a Antonio Carlos Jobim e a toda turma da bossa nova.

Chegou a afirmar em entrevista para um jornal da época: “Essas cantoras da bossa nova são as noivas do Drácula. Quando cantam parecem que estão desmaiando, sem sangue, sem vida, molengas. Bossa nova é casa desarrumada. Ninguém entende ninguém. É coisa de americano.”

Mas Tom Jobim o levou a um encontro com o grupo, no qual teve excelente recepção. 


Pixinguinha então notou que aqueles jovens brancos de classe média, que via como uma ameaça a seu legado, eram justamente os que mais valorizavam sua obra e os avanços por ele introduzidos como arranjador.

Tom Jobim e Pixinguinha
Ele e Jobim acabaram amigos, inclusive de tomar altos porres juntos. Jobim só se referia a ele como “maestro”. A discórdia acabaria de vez quando um dos principais letristas da bossa nova, Vinícius de Moraes, pôs letra em seu choro Lamento

Vinicius e Pixinguinha

Pixinguinha gostava de beber a água de santo de origem escocesa com cerveja, cujos goles eram entremeados por água mineral (de verdade). Golinho aqui, papinho ali, ia longe nesse ritual, sempre cercado por muitas pessoas.

Foram muitos anos nessa combinação diária (uísque/cerveja/água mineral). Aos 60 anos, seu médico – que também era boêmio – deu o alerta após o primeiro enfarte: “Não dá mais!”

Pixinguinha não mudou nadinha a rotina. Continuou batendo ponto no Gouveia, na mesma mesa cativa, sempre cercado por muitas pessoas. Só que o uísque e a cerveja pedia para os amigos e mantinha-se só na água.


Melhor dizendo, no chá mate com gelo para parecer uísque. Tinha vergonha de ficar no bar só tomando água mineral. Seu prazer era ver os outros fazerem o que já não podia. “Pede mais uma, meu filho. Eu pago!”

Um dos seus comparsas frequentes de boteco era o cantor Almirante, que no início dos anos 1930 formara o Bando de Tangarás com Noel Rosa (violão e vocal), Braguinha (violão e vocal), Henrique Brito (violão) e Alvinho (violão e vocal).


Almirante

João da Baiana, Donga e Heitor dos Prazeres eram parceiros eventuais. Invariavelmente, passava por lá, todos os dias, um rapaz branco que vinha ver como ele estava.

Depois de lhe dar um beijo na testa, o rapaz se retirava, pois retornara de uma noitada de trabalho e precisava dormir durante o dia para se recompor.

Tratava-se do seu filho adotivo, o pianista Alfredinho, que cuidou de Pixinguinha durante a velhice e, após sua morte, organizou o imenso acervo por ele deixado.

Pixinguinha era filho de outro Alfredo – o também músico Alfredo da Rocha Vianna, funcionário dos correios, flautista e chorão dos primeiros.

Aprendeu música em casa, fazendo parte de uma família com vários irmãos músicos, entre eles Otávio Vianna, mais conhecido no meio artístico como China.

Pixinguinha prosseguiu a tradição iniciada por Anacleto de Medeiros (1866-1907) de criar uma música popular instrumental de qualidade que se dissociasse do simplismo folclórico, não precisasse ser cantada e não servisse necessariamente para dançar.

Ainda garoto, começou a trabalhar como músico de caberés da Lapa e, depois, como instrumentista de orquestras de cinema (os filmes mudos não tinham som e vinham com partituras, para que o acompanhamento musical fosse feito ao vivo).

Ernesto Nazareth (1863-1934) foi outro que tocou em cinemas.

Nos anos seguintes, Pixinguinha continuou atuando em salas de cinema, ranchos carnavalescos, casas noturnas e no teatro de revista.

Seu apelido derivava de pizingin, sinônimo de "menino bom", e foi dado com base no idioma da avó, trazida da África como escrava.

No início do século XX, quando sua carreira teve início, nas casas dos brancos eram tocadas polcas e valsas. Música europeia.

Em casas de pretos as festas eram na base do choro. Nas salas de jantar, mais para o interior das residências, rolava o samba em seus primórdios.

O samba da geração de Pixinguinha, João da Baiana, Sinhô, Heitor dos Prazeres e Donga era ainda com balanço, cheiro e cor baiana, recém-migrado do Recôncavo Baiano para o Rio de Janeiro.

João da Baiana
Sambas de partido alto ou sambas de roda – muitos dos quais trazidos diretamente da Bahia – nos quais cada um se exibia, mostrando seus passos. João da Baiana, companheiro de Pixinguinha nos Oito Batutas, era um dos hábeis sapateadores.

No fundo dos quintais das casas funcionavam os terreiros, para outro tipo de batucada, a da macumba. As mesmas pessoas que participavam das festas movidas a chorinhos e sambas reverenciam a dona da casa na função de mãe de santo do terreiro.

Tia Ciata, que era mãe de santo, tinha uma das maiores casas. Suas festas duravam dias. Havia até cômodos para que os mais exaltados na birita se recuperassem nas redes com prolongadas sonecas.

Nessa época os morros ainda não eram ocupados por favelas. Os negros moravam na planície. Só subiam os morros quando precisavam fugir da polícia ou fazer trabalhos específicos para suas entidades do candomblé.

Os primeiros sambas surgiram de desafios entre sambistas. Alguém lançava um trecho da melodia e um mote (um ou dois versos) e os demais iam acrescentando trechos.

Pelo telefone, o primeiro samba gravado – em 1916 – surgiu assim, numa roda da qual faziam parte Pixinguinha, Donga, João da Baiana e João Pernambuco. Teve vários autores. Mas Donga foi mais rápido e o registrou como seu no dia seguinte.


Como na época ninguém dava muita bola para essa questão da autoria, nenhum dos três coautores perderam a amizade com Donga por isso.

Donga
Várias composições de Pixinguinha foram parar nos nomes de outros. Algumas ele vendeu para sobreviver em momentos de aperto, outras foram mesmo surrupiadas por espertinhos como Donga.

Carinhoso foi composto como peça instrumental influenciada pelo jazz. O dono de uma gravadora, um norte-americano, convenceu Pixinguinha a incluir a letra de João de Barro e a adaptá-lo a um choro com andamento de samba-canção.

Era para ser gravado por Francisco Alves, que declinou do convite, por achar que a música não faria sucesso. Foi, por fim, gravada por Orlando Silva e se tornou a composição mais conhecida de Pixinguinha.

Pixinguinha e Heitor Villa-Lobos (1887-1959) eram muito amigos.

Villa-Lobos

Em 1940, o compositor erudito levou seu companheiro popular a bordo de um navio atracado no porto do Rio para apresentá-lo ao maestro americano de origem britânica Leopold Stokowski, celebridade mundial na época, que ficou impressionado com o que Pixinguinha era capaz de fazer com uma simples flauta.

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