terça-feira, 3 de junho de 2014

Martin Codax, mestre das cantigas d’amigo

A literatura da Idade Média deve grande parte de sua vitalidade e inventividade à cultura trovadoresca mediterrânea da Provença, que abrangia o sul da França e uma vasta região, parte da qual se encontra hoje em territórios vizinhos da Itália e da Espanha.

Na Itália, a lírica ocitana foi influência preponderante na poesia de Dante Alighieri (1265-1321) e Guido Cavalcanti (1255-1300). Não só sob aspectos técnicos, como também temáticos.

Tanto Alighieri quanto Cavalcanti importaram da Provença o culto metafísico à mulher. Cada qual tinha sua musa idealizada. A de Alighieri era a Beatriz citada em várias de suas obras, inclusive na Divina Comédia.

A temática de veneração incondicional à mulher influenciaria também os poetas goliardos, do século XIV, os chamados fideli d'amore, bem como a poesia pastoril do final do barroco e, por fim, o romantismo.

Vale salientar que, ainda hoje, a poesia cantada dos trovadores subsiste na cultura popular de vários países, dentre eles o Brasil.

Temos tradição trovadoresca não só nos estados do Nordeste, mas também no Rio Grande do Sul e na chamada "música caipira de raiz", que abrange os estados de São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso do Sul.

Imagem de uma apresentação de trovadores medievais

A imagem acima mostra o poeta músico tocando instrumento antiquíssimo chamado rabeca, que daria origem ao violino e à viola caipira nacional.

No interior de Minas Gerais e de Pernambuco ainda temos fabricantes de rabecas (o instrumento é cavado diretamente na madeira), que são usadas principalmente nos acompanhamentos às cantorias de Folia de Reis.

Na Espanha a influência trovadoresca abrangeu principalmente a Catalunha. Mas teve também um matiz andaluz, associado ao imaginário da cultura islâmica que ainda predominava naquela região.

Foram trovadores, em idioma árabe, os poetas andaluzes de ascendência persa Marwan Ben Abd Al-Rahman, Ben Hazm e Safwan Ben Idris

Mas a lírica dos trovadores ocitânicos – escreviam em provençal, idioma românico cuja acentuação é mais próxima do nosso português e do catalão que do francês – teve ainda grande influência sobre as culturas germânica e portuguesa...


As obras do minnesang, gênero de poesia cantada alemã que imita a trova provençal,  chegaram até nossos dias por meio dos códices, que datam da metade do século XII em diante.

Seus autores pertenciam à nobreza guerreira feudal. Minne tem sentido de amor, saudade, carinho, desejo, dentre outros. E sang é canto.

Códices (ou codex) eram manuscritos gravados em madeira, que existiram até por volta do século XVI, quando foram aos poucos substituídos por textos em papéis, graças ao desenvolvimento da prensa por Johannes Gutenberg (1398-1968).

O códice é um avanço do rolo de pergaminho, ao qual gradativamente substituiu como suporte da escrita. E foi, afinal, substituído pelo livro impresso.



Pergaminho

Códice
Primeiro livro impresso por Gutenberg: a Bíblia


No tempo dos códices a autoria tinha pouca importância. Eles eram registrados por escribas religiosos cristãos, árabes e judeus, cujos nomes eram mantidos no anonimato. Os códices tinham caráter de documentos.

Como os provençais, os poetas alemães eram compositores e intérpretes das próprias canções.

Dois dos mais importantes trovadores da minnesang foram Kurenberg e Walther Von Vogelweide, ambos do século XII.

Partitura e letra de minnesang de Vogelweide em códice

De Kurenberg restaram as 15 estrofes do drama épico-lírico sobre um falcão cuidadosamente amestrado pelo poeta que teria desaparecido, tendo numa das patas o anel destinado à sua amada.

Os votos do poeta é reencontrar sua ave e, graças a ela, reconquistar a amada, que teria ido para terras distantes.  Kurenberg refere-se, no poema, ao Anel de Nibelung, história da mitologia nórdica que influenciou várias obras da literatura germânica.

De Vogelweide chegaram aos nossos dias oito longas canções. Algumas elegíacas, remetendo à poesia latina de Ovídio (43 aC).

Outras de suas canções são moralistas, com propósitos educacionais, tratando de temas como a importância de se preservar os costumes (a cultura), com críticas ao acúmulo de riquezas e à falta de moderação.

Já na época, o poeta chamava a atenção dos senhores feudais para a necessidade de se combater a miséria e se posicionava contra a tradição germânica de transformar os inimigos capturados nas batalhas em escravos.

Como o provençal Bertran de Born, Vogelweide foi um poeta guerreiro.

O grande trovador galego-português Martin Codax tinha a palavra códice no sobrenome, como indicativo de que chegou a exercer a profissão de escriba.

Martin Codax viveu em meados do século XIII. Foi um jogral (artista itinerante de origem popular, típico da Idade Média) nascido onde hoje fica a Galícia, em território espanhol.

Pouco se conhece acerca da sua biografia, a começar pela origem. Acredita-se que seja oriundo da região de Vigo, uma vez que em seus poemas há numerosas referências a esta cidade.

Suas composições são consideradas as mais importantes da lírica trovadoresca galego-portuguesa.

No formato das cantigas d’amigo, sua obra figura em dois códices sobre a cultura trovadoresca em língua portuguesa antiga – o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional – e ainda no Pergaminho Vindel.

A descoberta desse pergaminho foi casual: em 1914, o bibliógrafo Pedro Vindel o encontrou em uma biblioteca servindo de folha de guarda de um volume da obra De officiis, do autor latino Cícero

Os poemas de Martim Codax que figuram no pergaminho estão entre os mais perfeitos na categoria de melopeia, ou seja, conjunto de técnicas de poesia aplicadas para criar efeitos acústicos por meio da palavras.

Foram encontradas sete canções de Codax no Pergaminho Vindel: Ondas do mar de Vigo, Mandad'ey comigo, Mia yrmana fremosa treides comigo, Ay Deus se sab'ora meu amado, Quantas sabedes amar amigo, En o sagrad' em Vigo e Ay ondas que eu vin veer.

O pergaminho traz também as notações musicais dessas cantigas.

Letra e partitura de Ondas do mar de Vigo


Ondas de mar de Vigo foi dissecado pelo linguista e foneticista russo Roman Jakobson no livro Linguística, poética e cinema, publicado no Brasil pela Editora Perspectiva.

Em 1990, a estas canções veio juntar-se um outro testemunho musical, o das sete cantigas de amor do rei poeta D. Dinis (1261-1325), conservadas no chamado Pergaminho Sharrer, encontrado pelo professor H. Sharrer na Torre do Tombo, em Lisboa.

Segue a transcrição de Ondas do mar de Vigo, cantiga por meio da qual se sente as ondas indo e vindo a partir dos fonemas, em perfeita consonância com a temática da mulher que aguarda em vão o retorno do seu amado marinheiro:

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo!
E ai, Deus!, se verrá cedo!

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
E ai Deus!, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
E ai Deus!, se verrá cedo!

Se vistes meu amado,
por que hei gran cuidado!
E ai Deus!, se verrá cedo!

Ouçam as belíssimas cantigas d’amigo de Martin Codax em gravação do grupo francês Ensemble Triphone:



A cantiga d'amigo é uma composição breve e singela posta na voz de uma mulher apaixonada. Deve-se o nome ao fato de que na maior parte delas aparece a palavra amigo, com o sentido de pretendente, amante ou esposo.

Martin Codax utiliza o ponto de vista feminino nas suas canções, que têm como tema o erotismo e os conflitos resultantes da ausência do "amigo".


Todas as cantigas d'amigo, inclusive as de Codax, caracterizam-se formalmente pela repetição e paralelismo.

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