sábado, 28 de junho de 2014

O artigo que Capote não escreveu sobre os Stones

Em 1972, a revista norte-americana Rolling Stone contratou os serviços de Truman Capote para cobrir a turnê Exile on main street (1972), dos Stones, pelos EUA.
 

Capote ficou semanas com o grupo. Pernoitou nos mesmos hotéis, viajou no avião deles, participou das fuzarcas pós, antes e durante os shows.


Capote ao lado de Jagger no avião dos Stones

Mas na hora de pôr tudo isso no papel, travou.

Os editores cobraram o texto várias vezes e nada. Capote passou então a evitá-los.

Dado o hábito dele e de seu amigo Andy Warhol de se entrevistarem, a revista contratou o artista plástico para sabatiná-lo sobre os motivos que o levaram a amarelar.

Warhol, por sua própria conta, decidiu que a entrevista seria em forma de “áudio documentário”, com menções de detalhes do que se passava em torno enquanto papeavam, dos ruídos, das conversas paralelas com as pessoas e com marcações de tempo de cada parte da conversa, identificadas no gravador pela voz do entrevistador.

Para começar, chamou Capote para realizarem um passeio pelo jardim zoológico de Nova York. O que, de certa forma, já era uma ironia implícita à pauta.

Capote, até então, não sabia que quem estava por trás daquilo eram os editores da revista com a qual estava em dívida. 

Os papos que rolaram entre os dois e as pessoas em torno foram hilariantes, assim como ocorria com toda “entrevista” Warhol/Capote ou Capote/Warhol.


Capote e Warhol


Litogravura de Capote feita por Warhol

Já na entrada o entrevistador perguntou: “Vamos onde primeiro... direto à ala dos veados?” 

Capote: “Oh, dear, acho melhor passarmos antes pela jaula do iaque.”
 

Iaque é o nome do grande bovídeo norte-americano, o chamado “búfalo americano”, que não é um bubalino de verdade...



A certa altura, Capote passou a responder às perguntas com desconfiança, por achá-las um tanto artificiais.

Quando Warhol falou de teatro, se surpreendeu: “Mas, dear, você costuma não gostar desse tipo de coisa!”

Passaram a conversar sobre Timothy Leary (1920-1996), o papa dos ácidos, e toda babaquice hippie à qual sua imagem estava vinculada.


Timothy Leary

Leary, para quem não sabe, era um psicólogo que trabalhava para o governo em programas de prevenção às drogas. Pertencera, no início, a um grupo que pesquisava novas drogas, para desenvolver os tratamentos apropriados para cada uma delas.

Para saber como tratar os presumíveis dependentes, era preciso experimentá-las, a fim de conhecer os efeitos a fundo.

Acontece que Leary passou a gostar mais das drogas do que de trabalhar para o governo.
Não só migrou para o outro lado, como se tornou um empenhado divulgador das drogas, por seu caráter “terapêutico”.

Tornou-se, assim, um símbolo da chamada geração flower Power, que pregava amor, paz (ocorreram manifestações gigantescas contra a Guerra do Vietnã), muita música e hedonismo total.

Leary chegou a ser perseguido pela polícia por um período.

Foi preso, tiraram-lhe a cidadania.

Mas era amigo de John Lennon e outros da corriola dos famosos. O governo foi obrigado a engoli-lo como mais uma figura folclórica pop. Ainda por cima, mantinha uma postura acadêmica, de intelectual comprometido com algo.

Warhol passou para outro assunto: o bloqueio a Cuba. Mas Capote não se interessou.

A conversa quase desandou quando o entrevistador disse ter conhecido a mãe do entrevistado e ainda acrescentou que a achara “adorável”.

Capote ficou espantado “Como você pôde achar minha mãe adorável?! Ela era uma mulher doente, uma doida, uma alcoólatra...”

Warhol sentiu que pegara pesado e mudou de assunto outra vez.

Que tal se, em memória à mãe dele, fossem ambos tomar uns drinques?

Capote se entusiasmou rápido com a sugestão e até falou sobre uma série de bebidas que gostaria de tomar naquele momento.

Já no bar, Warhol finalmente falou dos Stones e caiu-lhe a casaca.

Capote: “Sua víbora! Eu bem que percebi que alguma coisa estava por vir. Foram eles (os editores da revista) que te mandaram, não é?”

Warhol não disse sim nem não.Continuou conversando, como se a insinuação não lhe dissesse respeito.

O próprio Capote começou, espontaneamente, a falar dos Stones, primeiramente de Mick Jagger.
 

Jagger, Richard e Gram Parsons
 “Ele é curioso. Não sabe cantar, não sabe dançar, não sabe quase nada de nada. Mas tem aquele seu jeito andrógino natural... como o Marlon Brando... que lhe dá uma confiança nata para conduzir o espetáculo.”
 

Apresenta, a seguir, uma imagem do cantor oposta à que aparentava.

Disse que Jagger era extrovertido só no palco ou em locais públicos, visíveis, onde precisasse aparecer, mas fora dali era discreto, introspectivo, tímido até.

“Acho que ele guarda toda sua energia para os momentos de se exibir.”

Acrescentou que Charlie Watts também era discreto fora do palco.


Jimmy Hendrix e Charlie Watts

Warhol quis saber se ele não gostara de estar com Stones.

Capote respondeu que tinha gostado dos Stones individualmente, de todos, mas os abominou em grupo, principalmente quando entravam no “auge da selvageria”.

“Eles não têm o mínimo respeito pelo público, dear! Acham pouco as pessoas esperarem de pé de 27 a 30 horas para ouvi-los.”

Capote então interrompeu a conversa para pôr Warhol na parede:

“Vamos ser objetivos, dear? Faça logo as porras das seis perguntas que os caras te mandaram. É sempre assim... eles nos pedem pelo menos seis perguntas...”

Warhol: “Então vamos à primeira... Qual foi o teu problema?”

Capote: “Não escrevi o artigo por dois motivos. Primeiro, porque à medida que a coisa progredia e eu só lia besteiras atrás de besteiras nos jornais sobre a turnê. Aquilo foi me enojando...”

“Em segundo, porque só escrevo com tesão quando sinto que há um mistério por trás do assunto. O problema é que os Stones não têm mistério algum. O que eles são é só aquilo mesmo que você vê.”

Suas críticas se estenderam à “nuvem” Stones, ou seja, à multidão de malucos que trabalhava para eles.

Para Capote, o pior membro da trupe era o médico do grupo, um californiano.

Mais que cuidar da saúde da trupe, sua função era descolar drogas e garotas para todos. As drogas eram servidas numa bandeja, com os devidos paramentos.

Por praticidade, as garotas eram aliciadas entre as fãs que iam se despedir do grupo nos aeroportos, mediante a proposta irrecusável: “Você foi escolhida para viajar com os Stones até... (e citava o nome do próximo destino).”

A “escolhida” não pensava duas vezes e embarcava. Dentro do avião transava com vários e era solta a esmo no aeroporto seguinte.

“Eles fotografavam essas garotas sendo curradas. Fotografavam-nas por dentro, até os intestinos!”

Warhol pergunta a respeito de Keith Richards. 

Capote: “Quando não estava chapado, estava hostilizando as pessoas.”

Conta detalhes de um episódio ocorrido num dos hotéis onde se hospedaram. Bateram à porta do seu quarto. Foi atender e era ele, Richards.

“Ele me disse: ‘Estamos dando uma festa e quero que você venha ver como os caras do rock’n’roll se divertem.’ Eu disse a ele: ‘Acho que você não está num bom estado para se divertir e deveria, sim, ir para a cama.’ Ele então fez aquilo: me deu um banho de ketchup.”

Richards e o saxofonista Bobby Keys

Warhol: “Deve ter sido divertido.”

Capote: “Queria ver você no meu lugar, melecado de vermelho dos pés à cabeça!”

Warhol: “Ah, eu amo ketchup. Sou capaz de comer puro.”

Capote: “O quê?”

Warhol: “Ketchup.”

Capote: “Oh!”

Warhol disse que, pelo que ouvira, havia material suficiente que Capote produzir um bom artigo.

Capote: “Muito suficiente... ah, eu não acho! Não é que eu queira esquecer aquilo por ter sido desagradável. O problema é que não houve nenhum eco. Nada! Em nenhum lugar dessa história dos Stones eu pude encontrar algo simpático. Esse negócio das meninas dando e gritando, histéricas, o tempo todo... ‘Eu quero! Eu quero!’ Nada disso é verdadeiro, dear.”

Warhol: “Digamos... quem é a pessoa número um? O número um é mesmo o Jagger?”
Capote: “Mmmm. Hummm. O público quer ouvir música. Mas ele só fica naquilo... rebolando, rebolando.”

Warhol: “Por que você não escreveu o artigo?”

Capote: “Eu tenho minhas próprias ideias a respeito das coisas, como qualquer um... e não era algo que eu realmente tivesse entusiasmo de fazer.”

Uma senhora passa pelos dois e dá a Capote um broche sobre algum tipo de campanha.
A tal senhora: “Da próxima vez que o senhor for a uma festa, faça seus amigos usarem isso.”
Capote: “Oh, que doçura...”

Warhol (depois que a mulher se foi): “O que é isso?”

Capote: “Vá saber!”

E jogou o broche na primeira lixeira que encontrou.

Capote como capa da Rolling Stone

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