sábado, 28 de junho de 2014

Quem não gosta do Chico Buarque?

Em junho, Chico Buarque de Holanda, o mais consensual dos compositores brasileiros, chegou aos 70 anos.

Os grandes jornais, revistas e sites noticiosos já tinham suas matérias frias prontas há um bocado de tempo.

Qual ocorre quando alguém eminente está em vias de bater as botas.

Felizmente não é o caso de Chico. Embora com a face sulcada pela idade, esbanja saúde, continua compondo, escrevendo e... namorando firme. Alguns veículos até expuseram imagens de sua namorada algumas décadas mais jovem.

Chico aos 70, em junho de 2014

Tudo que é consensual traz algum lastro de chatice. Razão pela qual Chico é visto por alguns também como o consensual chato da música popular brasileira.

Inclusive por conta do seu posicionamento político acrítico ao partido que apoia, desde que este se instalou nas várias instâncias do poder por todo o Brasil, ao que tudo indica com pretensões ad aeternum.

Diferente dos tempos da ditadura, quando era um dos principais símbolos da luta contra o poder, o Chico da era PT é estritamente alinhado.

Óbvio que isso tem pouco a ver com seu precioso acervo de composições.

Porém de alguma forma acaba batendo lá, já que a imagem do autor, no caso dele, é inseparável da obra, inclusive por ser dela o principal intérprete...


Dado o seu alinhamento político um tanto cartesiano, coerente com aquilo que se espera dele agora – pelo que representou no passado – é pouco provável que Chico ceda ao conglomerado Globo para um daqueles especiais comemorativos cacetes.

Quase ninguém se dobra às cifras sesmaria Marinho.Vejamos o que ocorrerá após a Copa.

Se Chico ceder, evidente que seu lado consensual chato ganhará um poderoso reforço para os que já o veem dessa forma.

Certamente alguns esquerdistas que já não oram no mesmo altar dos petistas, e os veem como uma nova face do conservadorismo político, farão coro com esse contingente de admiradores às avessas.

Seu partido, que já representou a "nova esquerda", isso entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, caminha, a passos largos, para se consolidar como a "nova direita" do cenário político nacional.

Em meu último trabalho fixo viajei por cerca de oito anos de Campinas a São Paulo, ida e volta todos os dias, num ônibus executivo fretado, velho e fedido.

Nas idas, de madrugada, o busum parecia um sarcófago. Vidros fechados. Luzes apagadas. Ai de quem fizesse algo que não fosse dormir! Como quase nunca durmo, chegava a me sentir culpado em meio a tantos roncos.

Todos os passageiros eram pessoas como eu, que estavam ali forçados, para poder descolar a graninha de cada mês. Nas voltas, de tarde, havia assuntos desembestados a dar no pau.

Entre as várias figuras pitorescas que transitavam pelo busum havia um garoto que dizia ser estagiário de numa empresa de softwares para jogos.

Figurinha muito falante, procurava se dar bem com todos. A maioria dos enjaulados do busum lhe era receptiva, apesar da persistente simpatia e empenho por agradar.

Às vezes o rapazinho era inconveniente. Mas até suas pequenas transgressões eram perfeitamente assimiladas pelos passageiros.

Numa das viagens saiu com um papo de que toda mulher, se pudesse, daria para o Chico.

Houve um princípio de tumulto feminista. Ele logo abafou a revolta quando saiu com esta: “Até minha mãe daria para o Chico Buarque!”

Todas as moçoilas e senhoras tiveram de se calar. O garoto havia batido pesado e era preciso reconsiderar que em parte podia estar com a razão. Afinal, até a própria mãe dele...

Chico é o compositor mais benquisto pela classe média bem-pensante, que se autoprocla "de esquerda" e, por consequência, acha que todos que pensam diferente são "de direita".

Qualidades é o que não lhe faltam para ser unanimidade nacional.

É bonito, de boa família, filho do Sergião do Raízes no Brasil e pensa como nosostros, os presumíveis bem-pensantes.


Chico e Caetano são vistos como opostos por alguns

Em resumo, Chico tem ene vantagens para congregar todos os jargões positivos possíveis. De modo que ninguém, mesmo os que pensam o contrário, é capaz de dizer com confiança que não gosta dele.

Certa vez Paulo Reda, jornalista de Campinas, saiu com uma brincadeira num boteco lotado por bebuns dos dois gêneros. Todos bem-pensantes, óbvio. Ou seja, ninguém "de direita" infiltrado por perto.

Antes de lançar a peta, Reda nos cantou a bola em tom de molecagem: “Querem ver a mulherada ficar pê da vida?”

Disse, a seguir, para que todas as frequentadoras das mesas próximas ouvissem: “Eu conheço um cara que comeu o Chico Burque!”

Quase apanhou. Os protestos femininos foram dos mais indignados. “Mentiroso!”, “Idiota!”, "Pau d'água insano!", “Como pode dizer uma besteira dessas!”, “Chico é mais homem que você!”

Algumas das canções de Chico estão entre as melhores que já ouvi. Principalmente as compostas para teatro, sob forte influência da dupla Bertolt Brecht/Kurt Weill.

Minhas preferidas: O que será? (com o parceiro Milton Nascimento), A história de Lilly Braun e Geni e o Zeppelin.

A seguir, Geni e o Zeppelin com o próprio Chico:




O que será?, com Milton e Chico, e as demais músicas do ótimo álbum Meus caros amigos (1976):




Há várias outras belas canções dele, mas estas três são as que se encontram na seleta lista que ouço nas indas e vindas para o interior paulista, onde agora trabalho como agricultor, sempre viajando de busum.

Entre as canções do Chico que não ouço nunca e detesto para valer estão Pedro Pedreiro, A banda, Quem te viu, quem te vê e Olê, olá. Até Acorda amor é mais suportável que as quatro.


O melhor disco, de longe, é Construção (1971), com arranjos do maestro do tropicalismo Rogério Duprat. Não só. A concepção do disco – que trouxe Chico para o universo da vanguarda – é toda de Duprat.


 
Duprat fez os arranjos dos melhores discos de Gil, Caetano, Gal, Os Mutantes, Walter Franco e O Terço.


Gil, Caetano e Gal tiveram outro revival de qualidade quando produziram álbuns sob a batuta de Jards Macalé, que incluía na bagagem os ótimos Lanny Gordon (guitarrista e baixista) e Tuti Moreno (baterista).

Depois disso os três baianos fizeram bons discos, mas nada que se compare ao auge sob as batutas de Duprat e Macalé.

Mas o assunto da vez é o bom Chico, admirado por todos (ou quase todos).

O compositor que em sua primeira entrevista – para a revista O Cruzeiro, em 1967 – declarou que seus compositores preferidos eram Ataulfo Alves, Noel Rosa e Dorival Caymmi, compôs desde então cerca de 400 músicas e lançou 38 discos originais.

Não bastasse, também escreveu romances e peças de teatro. Comprei alguns dos seus livros. Não consegui ler nenhum. Prefiro-o dramaturgo e, claro, compositor e intérprete. 

De suas peças e musicais (um deles com Edu Lobo) saíram algumas de suas melhores canções.

Minha primeira incursão no palco, em 1972, se deu por meio de numa montagem amadora de Morte e vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, com trechos musicados pelo Chico para uma montagem do Tuca (grupo de teatro do espaço com mesmo nome da PUC-SP), de 1965.


No final de uma palestra de João Cabral num anfiteatro da Universidade de Brasília (UnB), creio que em 1975, perguntei ao poeta o que achara das músicas do nosso consensual compositor para o seu conhecido poema dramático.

“Não as ouvi”, foi a resposta de João, tão seca e objetiva quanto sua poesia.

Cara do Cabral na época que o ouvi na UnB

Vale salientar que o grande poeta pernambucano não estava num bom dia. Sua palestra não fora grande coisa. Respondeu às perguntas do público (professores e universitários) com frases curtas, como se estivesse aflito para dar o fora.


Ao conversar com ele mais de perto senti um bafo danado de bebida. O motivo não podia ser outro: o bom João Cabral estava com mau humor de ressaca.

Por outro lado, é possível mesmo que o autor de Morte e vida Severina, embora Chico tenha se empenhado tanto para musicar partes do poema, esteja no estrito grupo dos que não gostam do compositor.

Como bem dizia Paulo Leminski: não se deve nunca confiar nos poetas. Não falo do Chico. Este, já disse, é consenso inclusive entre os que, por natureza, não gostam de poetas.

Segundo Leminski, poeta é aquele filho de uma puta que ao ser convidado para um piquenique (ou uma comemoração da Copa do Mundo), não leva nada e ainda joga merda no ambiente festivo.

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