sábado, 28 de junho de 2014

Robert Mapplethorpe, the boy's skull

No artigo Erotismo sadomasoquista na moda, publicado neste blog em 31/12/2013, abordei o trabalho do fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004) para a revista Vogue.

Newton fotografava belas mulheres com enfoque sadomasoquista heterossexual, que mais tarde foi imitado por vários fotógrafos de revistas de moda. Inclusive brasileiros.

A estética do fotógrafo e artista plástico norte-americano Robert Mapplethorpe (1946-1989) era também voltada para o sadomasoquismo. Porém sobre o universo homossexual masculino.

Mopplethorpe, assim como Newton, só fotografava preto e branco.

Mesmo quando não retratava pessoas – registrou imagens de flores, objetos, cenários públicos, animais – a sensualidade sadomasoquista estava presente.

Essa foi sua escolha para tudo que realizou durante seus 42 anos de vida. Uma escolha ousada, que lhe trouxe muitos problemas.


Autorretrato de Mapplethorpe de 1980


Autorretrato próximo do fim, em 1989,
com seu símbolo preferido: a caveira


Passados 25 anos de sua morte, ainda hoje parte de suas fotografias ainda é proibida de ser exibida nos EUA.

Em 1990, a polícia invadiu uma exposição póstuma em Cincinnati (Ohio) e processou o museu Contemporary Arts Center criminalmente pela mostra – um caso único nos EUA.

Numa das campanhas eleitorais norte-americanas, um senador ultraconservador sulista exibiu suas fotos de crianças como exemplo de pornografia infantil.


Honey (1976)
De acordo com o próprio Mapplethorpe, a opção pela temática da sexualidade não era para exibir sexo, mas para desmistificá-lo, despi-lo do peso da hipocrisia e torná-lo digerível como qualquer outro assunto sobre a condição humana.


As referidas fotos com crianças são belas, anticonvencionais, expondo a sensualidade infantil como fizera século antes – também de forma bastante ousada e criticada pelos contemporâneos – o escritor e matemático inglês Lewis Carroll (1832-1898)...



Em sua época, Carroll também foi apontado por conservadores de seu país como pedófilo. O que, ao que tudo indica, nunca foi.

Alice Liddell, que inspirou seu personagem principal e foi por ele várias vezes fotografada na infância, com a óbvia autorização dos pais, foi amiga e protetora do escritor quando adulta. Não só ela, como seu marido.

Alice Liddell posa como mendiga
para foto de Carrol de 1859

Carrol fotografou Alice e suas irmãs quando crianças e, mais tarde, os próprios filhos de sua modelo preferida.

Nunca houve qualquer insinuação por parte dos familiares das várias meninas retratadas por Carroll que justificasse as acusações a ele imputadas.

Carroll e Mapplethorpe foram, cada qual a seu modo, criadores altamente inventivos e sensíveis. Perniciosa foi, sim, a avalanche de opiniões moralistas que pesou sobre ambos.

A poetisa e compositora Patti Smith, principal amiga de Robert Mapplethorpe, em seu livro Só garotos (publicado pela Companhia de Letras) declarou que o fotógrafo era avesso às controvérsias.

O que desejava com sua obra não era chocar, mas desmistificar aspectos da sexualidade pouco conhecidos ou mantidos à margem.

Segundo Patti, quando Mapplethorpe mostrava em suas fotos homens se beijando ou um mijando na boca do outro, era para vislumbrar os vários lados da sexualidade.

Mas sem qualquer intuito pornográfico. Assim como fotografava tais cenas, fotografava crianças em poses sensuais, flores, etc.

Não estava sugerindo coisa alguma além das próprias imagens. Ou seja, que tais cenas existem no mundo real dos homossexuais sadomasoquistas e precisam ser vistas como tais.

O livro de Patti é sobre o período que ela deixou sua pequena cidade no interior e veio para Nova York.

Crescida numa família modesta, trabalhara em uma fábrica e entregou seu primeiro filho para adoção, antes de se mandar para a metrópole, com 20 anos, um livro de Rimbaud na mala e nada no bolso.

Era final dos anos 1960. Teve de se virar como pôde. Foi então que conheceu o rapaz que seria sua primeira grande paixão: o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever o livro, antes que ele morresse de Aids, em 1989.


Só garotos tem como pano de fundo essa história de amor, até que o parceiro assumiu de vez a homossexualidade

Curiosamente, Mapplethorpe sempre manteve laços com a moralidade católica sob a qual foi educado.

Seu portfólio de fotos sadomasoquistas, publicado sob o sugestivo nome de X (apenas isto) tinha a indicação – determinada pelo autor – de que deveria ser visto por pessoas adultas, acima dos 18 anos.

Enquanto viveram juntos, Patti e Robert sobreviveram de bicos. Robert chegou a se prostituir por algum tempo no métier homossexual para conseguir alguma grana.

Trabalhavam o tempo todo. A vida de ambos começou a mudar quando conseguiram uma vaga no Hotel Chelsea, onde residia a nata underground noviorquina.

Patti (1973)

Entre seus vizinhos estavam Janis Joplin, Bob Dylan, Charles Bukowski e, entre outros, o ator e dramaturgo Sam Shepard, com quem Patti manteve um caso. Drogas eram fornecidas diretamente nos apartamentos.

Os dois eram assíduos frequentadores da Factory, sede dos projetos performáticos em múltiplas plataformas do artista plástico Andy Warhol e um dos pontos out mais efervescentes de Manhattan.

Patti e Robert eram considerados sofisticados nos meios pelos quais circulavam.

As principais referências de Patti eram os poetas simbolistas franceses – em especial Arthur Rimbaud – e os ingleses Shelley e Byron.

Robert tinha como referência Marcel Duchamp e Max Ernest. Warhol, que era vidrado em Duchamp, logo se encantou por ele.

A carreira de Robert decolou antes da de Patti.


Até a década de 1970, não usara a fotografia. Trabalhara principalmente com montagens de diversos objetos (roupas, bijuterias e pedaços de tecidos) sobre tela.

Leatherman (colagem de 1970)

Passou a se interessar por fotografia influenciado por John McEndry, curador da coleção gráfica do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque. McEndry o presenteou com sua primeira máquina fotográfica, uma Polaroid SX-70.


Foto para a capa do primeiro disco da amiga (1975)

Em 1972, Robert conheceu seu mais importante mecenas, Sam Wagstaff – quem se tornaria seu mais efetivo amante – e começou a trabalhar com câmeras de grande formato.

Montou seu próprio estúdio em 1976, já com sua principal ferramenta de trabalho, uma Hasselblad, e uma pequena teleobjetiva que servia basicamente para retratos, além de fundos neutros e flashes.

Ganhou fama e popularidade ao contribuir para revistas como Vogue e Esquire, mas consagrou-se na cena cultural quando chegou aos museus.

Em 1977, realizou duas importantes exposições: uma dedicada a fotografias de flores, outra de nus masculinos e iconografia sadomasoquista.

Ken and Lydia and Tyler (1985)

Mapplethorpe explorou ora com delicadeza, ora com brutalidade, o nu masculino e o sexo sadomasoquista entre homens.

Suas imagens – isto era mencionado nos catálogos das exposições – apresentavam o fotógrafo em duplo papel: no do retratista como observador e no de participante das cenas registradas.


Snakeman (1985)

Todas as suas fotos têm incontestável apuramento estético e rigor técnico.

Dizia odiar as flores. Então por que fotografou tantas?! Resposta sucinta: “Eu fotografo flores como quem fotografa uma pica.”


Rose (1977)

Basta olhar para a maioria de suas fotos de flores para se ter uma ideia da justeza dessa afirmação.


Calla Lily (1988)

Robert Mapplethorpe sempre foi um estranho em seu próprio meio. Vinha de uma família católica de origem irlandesa.

Ainda criança, mostrara grande interesse em desenhar a Virgem Maria. Mas o fazia decompondo o rosto da Virgem, de tal forma que quase sempre seus desenhos eram vistos como grosseiros e mal elaborados.

Durante toda a vida foi fascinado por temas religiosos, que iam da magia à astrologia, da adoração ao demônio ao catolicismo mais fervoroso.

O artista mantinha um altar em seu quarto, onde se viam imagens de Cristo crucificado, vários crânios e figuras de caveiras, demônios e símbolos esotéricos.

Mas Robert também não se encontrava nas coisas da religião. Na verdade, as drogas foram suas companheiras inseparáveis. Maconha, cocaína, LSD, mescalina e anfetaminas fariam parte de seu cotidiano.

Em seu relacionamento com Patti Smith, lutou o quanto pode contra a atração pela homossexualidade.

Patti, apesar de se declarar heterossexual, se vestia com roupas masculinas e, fisicamente, se parecia com Robert, que tinha aparência andrógina.


Robert e Patti em 1970

Como principal porto de desembarque das tropas americanas que haviam lutado no pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, São Francisco (Califórnia), contava com uma grande população homossexual, originada do contingente de expulsos das forças armadas após o fim dos combates.

Foi para lá que, em 1968, Robert decidiu fazer uma viagem de alguns dias para ver “de uma vez por todas” se era mesmo gay.

Do final da década, de 1960 para o início dos anos 1970, Robert entrou em contato com a cultura gay sadomasoquista.

Havia uma glamourização dessa estética, retratada principalmente nas revistas de moda – vide a referência a Helmut Newton.

Conforme mencionei no início, em tais revistas o sadomasoquismo era representado por Newton e outros fotógrafos sempre em sua versão heterossexual.

Mapplethorpe passou, então, a frequentar regularmente (coisa que faria até seus últimos dias) os bares gays sadomasoquistas, em busca de parceiros ocasionais para transas e, após as surubas, sessões de fotografias.

Sua adesão à fotografia, a partir de 1970, coincide com o início do duradouro e tumultuado relacionamento com Sam Wagstaff.

Frequentemente, abandonava Wagstaff e saía à noite à procura de parceiros sexuais que compartilhassem suas fantasias, que por sua vez estavam relacionadas ao seu trabalho.

Nunca estava saciado. Transava com vários homens numa noite.

Essa era a forma de encontrar seus modelos. Suas fotos de conteúdo sadomasoquista foram feitas durante ou logo após o ato sexual, do qual evidentemente participava.


Sausalito (1977)

Por toda a década de 1970 lutou tanto com a rejeição relativa ao conteúdo de suas fotos quanto com a própria dificuldade de a fotografia se estabelecer como arte.

Ele foi um dos grandes responsáveis pela mudança do status da fotografia ocorrido, principalmente, a partir dos anos 1980, época em que obteve reconhecimento mundial, apesar das frequentes censuras a cada uma de suas exposições.

Apenas em 1981, Mapplethorpe faria dez exposições individuais em cinco países diferentes. Nos últimos 10 anos de sua vida, fez 69 (número sugestivo) exposições individuais, participou de cinco livros e de 15 catálogos.

Foi nesse período que surgiu a GRID (Gay-Related Immune Deficiency), mais tarde conhecida pela sigla Aids.

Vários amigos e parceiros sexuais de Mapplethorpe estavam morrendo e não se sabia muito bem a razão.


Thomas (1987)

Em 1982, internou-se pela primeira vez por um quadro que hoje teria sido diagnosticado como consequência da infecção pelo vírus da Aids.


Autorretrato de 1982

Depois do diagnóstico, em uma espécie de tentativa de remissão, Robert passou a fotografar temas de uma erótica heterossexual.

Contudo, tais fotografias jamais alcançaram o sucesso de sua temática principal.

Patti Smith e Robert Mapplethorpe sempre estiveram próximos, mesmo no período em que as agendas de ambos andavam repletas.

Quando a Aids derrubou o amigo, Patti ficou extremamente abatida e deu uma nova reviravolta em sua vida: abandonou o estrelato e buscou o anonimato, junto com o marido, o guitarrista Fred Sonic Smith.

Os dois passaram décadas morando em hotéis baratos, só criando os filhos e produzindo seus trabalhos sem qualquer propósito comercial. Até que Smith foi fulminado pelo câncer.    

Mapplethorpe morreu de Aids no auge de sua carreira de fotógrafo, em 16 de março de 1989, aos 42 anos, tendo aproveitado pouco de sua fama.

Apenas em dezembro de 1988, cerca de três meses antes de sua morte, vendeu algo em torno de U$ 500 mil em fotografias.


Para finalizar, um vídeo com sequências de fotos de Robert Mapplethorpe:


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