sábado, 26 de julho de 2014

Fernando pessoas

Nenhum grande poeta teve tantas faces quanto o português Fernando Pessoa (1888-1935).
Ainda, nenhum grande poeta de língua portuguesa foi tão referenciado, citado e superficialmente conhecido quanto ele.


Seu nome sempre vem à tona nas entrevistas atuais de celebridades sobre seus autores preferidos, ao lado de Paulo Coelho, do autor e ilustrador Antoine de Saint-Exupéry e outros que são ou foram moda.


Mas poucos desses seus autoproclamados admiradores o leram de verdade. Se leram alguma coisa dele, foram os poemas mais simples (e populares) atribuídos ao seu heterônimo Alberto Caeiro.

 
Retrato de Fernando Pessoa


A maior parte de sua obra foi conhecida em Portugal – e fora dele – após a morte.

Em vida publicou três pequenos livros de poemas em inglês: 35 sonnets e Antinous, ambos em 1918, e English poems, em 1921. E em português, apenas Mensagem, de 1934, após vencer um concurso literário.


Fernando Pessoa é, a meu ver, o mais importante e complexo dos poetas modernos.


Foi um autor (não só poeta) de estruturação, de construção, como seus contemporâneos Velimir Khlébnikov (1885-1922), Ezra Pound (1885-1972) e James Joyce (1882-1941).


Pelas suas próprias palavras:



“Uma obra sobrevive em razão de sua construção, porque, sendo a construção o sumo resultado da vontade e da inteligência, apoia-se nas duas faculdades cujos princípios são de todas as épocas, que sentem e querem da mesma maneira, embora sintam de diferentes modos.”

Definia-se como “poeta dramático”. Não porque se dedicasse à dramaturgia. Como seus contemporâneos Ezra Pound e Jorge Luís Borges, se dividiu em personas e, como tal, sua obra se desdobra por meio das diferentes máscaras que adotou...



Dizia realizar a “despersonalização do dramaturgo”. Ao afirmar isto, referia-se à complexidade estrutural dos conjuntos de sua obra atribuídos aos personagens poetas que inventou, os chamados heterônimos.

Além da poesia que assinou em seu próprio nome, criou poetas imaginários com estilos, biografias e pensamentos próprios. Dentre os quais Alberto Caeiro e os discípulos deste: Ricardo Reis, Álvaro de Campos e o poeta Fernando Pessoa.


Ou seja, também atribuía àquilo que assinava em seu próprio nome as características de um heterônimo. Digo, o poeta Fernando Pessoa é também um personagem do autor Fernando Pessoa.


Pessoa está no topo da classificação de autores, por ordem de importância, de Ezra Pound.


Era, como Joyce, um escritor “inventor”, ou seja, aquele que descobre um processo em particular ou mais de um modo ou processo realmente determinante para a evolução da literatura.


O Fernando Pessoa real foi um competente administrador de empresas na área de exportações. Sua obra técnica sobre economia, contabilidade e comércio exterior é igualmente respeitável.


À parte suas atividades rotineiras, durante décadas, como alto funcionário de uma companhia de importação e exportação na área de transportes navais, manteve-se à frente das mais avançadas correntes literárias portuguesas de sua época.


Pessoa como atarefado executivo

Alguns meses antes de sua morte, escreveu ao o poeta/crítico/novelista Adolfo Casais Monteiro (1908-1972) sobre como criou os três “poetas” sob cujas personalidades e características organizou a maior parte de sua obra em versos.

“Fiz aquilo nos moldes da realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi dentro de mim as discussões e divergências de critérios. E em tudo isso parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve.”

Toda sua obra, seja assinada por ele próprio ou pelos heterônimos, se associa a recursos de metalinguagem, mas sob os diferenciados perfis correspondentes às personas adotadas.


O primeiro heterônimo por ele inventado, Alberto Caeiro, era um poeta de índole pagã.


Caeiro era o “mestre ingênuo” dos demais heterônimos. Um poeta ligado à natureza, mas cético, que desprezava qualquer tipo de corrente filosófica ou política.


“Pensar é estar doente dos olhos”, dizia. Ou seja, pensar é entrar num mundo complexo e problemático onde tudo é incerto e obscuro.


Por isso optava pela objetividade visual, qual Cesário Verde (1855-1886), citado muitas vezes nos poemas de Caeiro por seu interesse pela natureza, pelo verso livre e pela linguagem simples e direta.


Cesário Verde

Dentro da classificação de poesia grega antiga ressuscitada por Ezra Pound, o heterônimo Alberto Caeiro se dedicava à fanopeia – poesia cujos significados são atribuíveis às imagens ou à imaginação visual.

A esse “guardador de rebanhos”, que só se importava em ver as coisas de forma objetiva e natural, poeta de presumível simplicidade, que considerava a sensação a única realidade, o autor atribuiu a função de mestre dos demais.


A poesia de Caeiro está muito próxima da temporalidade estática que vigorou no importante período da cultura medieval japonesa, que propiciou uma poesia formalista de alta objetividade e rigor técnico.


São desse período os gêneros de poesia sincrética haikai e haiku.


Cada instante, para Caeiro, tinha igual duração ao dos relâmpagos, ou do ciclo de uma flor, do pôr do sol ou coisa que o valha. “Tudo o que se vê é eterna novidade”, dizia. Para o heterônimo, a natureza era a única verdade absoluta.


O misticismo era completamente banido do universo de Caeiro. No entanto, em seu próprio nome Fernando Pessoa escreveu tratados místicos e traduziu obras de Helena Blavatsky (1831-1891).


Helena Blavatsky

Madame Blavatsky foi um misto de escritora, filósofa e teóloga da Rússia, responsável pela sistematização da teosofia e cofundadora da Sociedade Teosófica, à qual Pessoa pertenceu.

Mas Fernando Pessoa não é só um.


Lembrem-se que, para o autor, a obra assinada como "de Fernando Pessoa" era também de um heterônimo. O místico Fernando Pessoa era, portanto, mais uma de suas personas.

Ricardo Reis, outro heterônimo inventado por Pessoa, era latinista por formação clássica e “semi-helenista”.


Sua poesia contava com muitas alusões mitológicas. Praticava uma linguagem culta e precisa, avessa à pretendida espontaneidade de Alberto Caeiro.

Tinha um estilo neoclássico. Dizia-se influenciado pelo poeta latino Horácio (65-8 aC). Usava vocábulos cultos e alatinados e reincidia com frequência ao hipérbato.


Hipérbato é uma figura de linguagem que consiste na troca da ordem direta dos termos da oração (sujeito, verbo, complementos, adjuntos) ou de nomes e seus determinantes. Exemplo: “Essas vólucres amo, Lídia, rosas.”


Empregava verbos no gerúndio e no imperativo com caráter exortativo, para ressaltar as frequentes passagens moralistas de seus poemas.


Álvaro de Campos tem mais a ver com o Fernando Pessoa real: era um técnico (engenheiro), negociante e boêmio. E, paradoxalmente, o Fernando Pessoa autor tem pouco a ver com o Fernando Pessoa real.


Como o Pessoa real, Campos foi educado em um país de língua inglesa.


O heterônimo também tinha muito de um amigo pessoal de Pessoa: Mário de Sá-Carneiro (1890-1916). Além de boêmio,
Campos era usuário de ópio e se declarava bissexual.

Sá-Carneiro era homossexual e suicidou-se em Paris aos 25 anos. Levava uma vida desregrada e mundana. Como Campos.


Mário de Sá-Carneiro

Sá-Carneiro, o gordinho doidão do modernismo português, foi um dos mais arrojados e inquietos integrantes da chamada “Geração da Orpheu” – em referência à revista Orpheu, que publicava as obras, manifestos e textos críticos dos jovens autores modernistas.

A revista era editada e mantida por Fernando Pessoa, com o dinheiro que ganhava como executivo.


Pessoa criou outros heterônimos, mas os quatro citados acima – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Fernando Pessoa (o próprio) – são os mais importantes.
 

Bernardo Soares, “ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa”, autor do Livro do desassossego, confunde-se um pouco com a personalidade e características das obras de Álvaro de Campos.

Numa carta ao seu amigo mais próximo, Adolfo Casais Monteiro, Pessoa afirmou que entrava na personalidade de Álvaro de Campos quando sentia “um súbito impulso para escrever”.


Adolfo Casais Monteiro

Além de competente no meio empresarial, de ter comandado o modernismo português, de ter editado a revista Orpheu e da diversa e complexa obra literária deixada, Fernando Pessoa foi importante jornalista.

Durante décadas escreveu crítica literária e política para jornais portugueses e ingleses.

Alguns dos poemas atribuídos aos heterônimos e publicados na Orpheu escandalizaram a sociedade portuguesa da época.

Em especial Ode triunfal e Opiário, ambos atribuídos a Álvaro de Campos. Fernando Pessoa foi chamado de louco e muito criticado.

O poeta morreu em Lisboa, aos 47 anos, por complicações decorrentes do alto consumo de álcool.


Pessoa tomando umas


As obras literárias relacionadas a seguir foram todas publicadas após sua morte:

Poesias de Fernando Pessoa (1942)

Poesias de Álvaro de Campos (1944)

A nova poesia portuguesa (1944)

Poesias de Alberto Caeiro (1946)

Odes de Ricardo Reis (1946)

Poemas dramáticos (1952)

Poesias inéditas I e II (1955 e 1956)

Textos filosóficos, dois volumes (1968)

Novas poesias inéditas (1973)

Poemas ingleses publicados por Fernando Pessoa (1974)

Cartas de amor de Fernando Pessoa (1978)

Sobre Portugal (1979)

Textos de crítica e de intervenção (1980)

Carta de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões (1982)

Cartas de Fernando Pessoa a Armando Cortes Rodrigues (1985)

Obra poética de Fernando Pessoa (1986)

O guardador de rebanhos de Alberto Caeiro (1986)


Primeiro Fausto (1986)

Livro do desassossego (1982)

Acesse ao site Domínio Público para fazer download da obra poética de Fernando Pessoa.

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