sábado, 26 de julho de 2014

Modernistas brasileiros ignoraram Ezra Pound

A obra crítica e poética de Ezra Pound (1885-1972) foi determinante para a poesia europeia e norte-americana da primeira metade do século.

Pound construiu um corpus dos mais originais, capaz de oferecer opções aos poetas e escritores em geral.


Ezra Pound

Trata-se do seu paideuma, ou seja, “a organização do conhecimento para que o próximo homem ou geração possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar o mínimo tempo com itens obsoletos”.

Por meio do paideuma – síntese do que melhor foi produzido por autores de diferentes épocas e culturas – e de excelentes traduções dos autores nele referenciados, exerceu a “crítica por demonstração”. 


Participou de diversos movimentos modernistas, notadamente do imagismo (do qual foi líder e principal representante) e do vorticismo, no início do século XX, na Inglaterra.


Mas só exerceu influência sobre autores brasileiros décadas mais tarde, a partir dos anos 1950.


Curiosamente, esse grande poeta, que se encontra no mesmo patamar dos três melhores do século XX – o português Fernando Pessoa e os russos Velimir Klebnikov e Vladimir Maiakovski – foi ignorado pelos modernistas brasileiros, que foram seus contemporâneos...




Mário de Andrade, Oswald de Andrade e os demais modernistas preferiram rasgar seda para autores menores, como o poeta e novelista suíço Blaise Cendrars (1887-1961).

Pound foi “redescoberto” no país pelos poetas concretos – Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari e José Lino Grünewald – e pelo poeta e crítico piauiense Mário Faustino.


No final dos anos 1950, os irmãos Campos e Pignatari tentaram articular a vinda de Pound para o Brasil, quando este ainda se encontrava trancafiado em um sanatório dos EUA (St. Elizabeth Hospital) por motivos políticos.


A tentativa era para que ele viesse dar aulas numa tradicional universidade paulista.


Mas não encontraram respaldo. Os acadêmicos da referida instituição de ensino não viam o poeta com bons olhos.

Quando Pound foi solto, sua alternativa foi retornar à Itália para morar com sua única filha. Não havia mais espaço para ele nos EUA e nos países aliados (Inglaterra, França e outros).


Na Itália continuou a compor The Cantos, o grande poema épico da era moderna. Mensagem, o único livro de Fernando Pessoa publicado em vida, é sobre personagens e episódios históricos portugueses. Mas não se trata de poesia épica.

Como Pessoa, o poeta norte-americano incorporava personagens de poetas com diferentes características e estilos, sob o ponto de vista dos quais compôs vários dos seus poemas.


Mas os poetas de Pound eram todos reais, de diferentes épocas e culturas, e integravam seu paideuma. Alguns estão referenciados em seu livro Personae, outros em The Cantos.


Em seu livro Pequena história da música, Mário de Andrade, um dos líderes do modernismo, citou Pound como músico experimentalista.

De fato ele também foi compositor, como Anthony Burgess e Paul Bowles, ambos escritores músicos. Mas nem de longe a produção musical de Pound pode ser comparada à literária.


Ou seja, Mário de Andrade sequer sabia que o “músico” Pound era um dos principais poetas do seu tempo.



Entre os brasileiros, José Lino Grünewald foi quem mais se dedicou ao legado de Pound. Traduziu The Cantos na íntegra.


José Lino Grünewald

Jorge de Lima, entre os poetas modernos, foi o único que conheceu a obra do poeta norte-americano.

Foi por intermédio de Lima que o jovem Mário Faustino (1930-1962) teve os primeiros contatos com obra de Pound.


Mais tarde, Faustino se tornaria um dos principais divulgadores das ideias e produção poética do norte-americano no país, por intermédio do suplemento literário dominical do Jornal do Brasil, por ele editado.

Mário Faustino

Faustino vinha realizando série de estudos sobre Pound – alguns dos quais publicou no suplemento do JB – e pretendia reuni-los em livro. Mas o acidente de avião nos Andes que ceifou sua vida aos 32 anos abortou o projeto.

A obra de Pound é difícil. The Cantos é um poema hermético, altamente referenciado e fragmentário.


Como a obra de James Joyce, para conhecer a de Pound é preciso saber a que e a quem se refere.


A esquerda, que vem dominando o cenário cultural
brasileiro desde os 1960, da mesma forma que os modernistas também preferiu ignorar o poeta.

Dada às vinculações de Pound com o regime de Mussolini – motivo pelo qual foi preso pelas forças de seu país após a 2ª Guerra e trancafiado em um sanatório por 13 anos – nossos estetas esquerdistas o consideram um autor “de direita”.


Mas sua obra, como a de Louis-Ferdinand Céline – outro "de direita” – nada tem a ver com seus deslizes políticos.


Como Sergei Eisenstein no cinema, Pound propunha um método ideogrâmico de composição. Dizia que a técnica de criação de The Cantos era de “montagem”, qual uma obra cinematográfica.

Um dos aspectos marcantes do método ideogrâmico de Pound é a ruptura da linearidade lógico-discursiva do verso.

Natural do estado norte-americano de Idaho, Pound viveu a maior parte de sua vida na Europa.

Em 1908 imigrou para a Inglaterra, onde travou conhecimento com alguns dos mais importantes escritores da época: Ford Madox Ford, James Joyce, Wyndham Lewis, W. B. Yeats e T. S. Eliot, entre outros.


T.S. Eliot

Em 1909 publicou Personae e Exultations, a que se seguiu um volume de ensaios críticos intitulado The Spirit of Romance, de 1910. Entre 1914-1915 foi coeditor da revista do movimento vorticista, a Blast.

Em Londres teve ainda a seu cargo a edição da revista de Chicago Little Review (1917-1919) e, a partir de 1920, tornou-se correspondente da publicação The Dial na capital francesa, para onde se mudou em 1921.

Datam de 1920 as publicações de um segundo volume de textos críticos, Instigations, e de Hugh Selwyn Mauberley, uma de suas obras-primas. O poema Homage to Sextus Propertius – uma de suas várias personae – foi publicado no ano anterior.

Profundo conhecedor das literaturas europeia e oriental, associou-se desde cedo ao imagismo.
 

Os adeptos desta corrente poética, fundada em 1912 sob inspiração das ideias de T. E. Hulme (1883-1917), pretendiam explorar de forma disciplinada as potencialidades da imagem e da metáfora, consideradas a essência da poesia.
 

Pound na Inglaterra em 1912

O movimento imagista, que Pound abandonou em 1914, teve a sua expressão na revista inglesa The Egoist (iniciada em 1912) e na revista norte-americana Poetry (a partir de 1914).

As raízes do imagismo encontravam-se fundamentalmente na poesia chinesa e japonesa, mas o movimento se inspirou também na poesia latina, em poemas da tradição medieval inglesa, nas composições poéticas dos trovadores provençais e em alguns poetas italianos do período medieval.

Nos seu livro The Cantos, Pound procurou elaborar uma versão moderna da Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321).



Edição brasileira de The Cantos

Em 1924, Pound mudou-se para a Itália, onde as teorias político-econômicas que defendia o aproximaram do fascismo, tal qual ocorreu com outro grande poeta moderno: Fernando Pessoa.

Mas Pound foi além: proferiu discursos contra os países aliados na rádio italiana durante a 2ª Guerra Mundial.

Nos seus tratados econômicos e históricos, Pound comprometeu-se publicamente com o fascismo.

Com a morte de Mussolini e a queda do fascismo, Pound foi preso em 1945 pelas tropas norte-americanas e transportado para o seu país em uma jaula.

Pound na jaula na qual foi transferido para os EUA

Dizem que durante a travessia os soldados, em clima festivo e revanchista, urinavam e jogavam excrementos sobre ele.

Nos EUA foi julgado e condenado como “traidor”.

Considerado incapaz mentalmente, foi internado durante 13 anos no St. Elizabeth Hospital, no estado de Washington, de onde saiu em função de protestos de artistas de vários países.


Pound no sanatório

A acusação de traição foi retirada em 1958 e Pound voltou à Itália, onde trabalhou nos The Cantos até 1972, ano da sua morte.

Sua obra crítica e poética é indiscutivelmente uma das mais importantes do século XX.

A influência de Ezra Pound e do seu projeto de renovação da linguagem poética foi essencial para Joyce, Yeats, William Carlos Williams e, particularmente, para T. S. Eliot, que submeteu o manuscrito de seu grande poema The waste land à sua apreciação antes de publicá-lo em 1922.

Pound riscou à caneta uma parte considerável do texto inicial e Eliot aceitou os cortes sem titubear.

Os "aperfeiçoamentos" (ponto de vista de Eliot) feitos por Pound mereceram a dedicatória de Eliot: "For Ezra Pound, il miglior fabbro" (A Ezra Pound, o melhor artífice).

Sendo o primeiro líder do modernismo dos EUA, a influência de Pound fez-se sentir inclusive na poesia da geração beat, que levou aos extremos suas ideias de que o poema deve reproduzir a ordem natural da sintaxe de uma língua (falada) e não se afastar da música.

Na teoria, Pound aproxima-se da ideia de Harold Bloom de que existe um conjunto de obras que representam momentos de maior elevação de uma cultura (a alta cultura).

Pound classificou os poetas (de maneira semelhante a Maiakovski) numa escala que ia do inventor ao diluidor, estabelecendo verdadeira hierarquia entre eles, e fixando cânone (o já mencionado paideuma) próprio, não excludente de outros possíveis, nas suas próprias palavras, incluindo as obras que considerava o ápice da produção poética.

As “maneiras de escrever” teriam basicamente três tendências: uma voltada para as qualidades sonoras da poesia (melopeia), outra para as qualidades representativas sensoriais-imagéticas, especialmente visuais (fanopeia), e a terceira para o jogo semântico que ele chamava de “a dança das ideias” (logopeia).

A influência de Pound permanece forte hoje em dia, tendo se alastrado inclusive para as culturas orientais, tal como ocorreu com o também norte-americano Ernest Fenollosa (1846-1908), grande conhecedor e divulgador da literatura japonesa.

No Brasil, além dos poetas concretos e de Mário Faustino, também beberam nas fontes poundianas poetas como Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão.

Torquato Neto

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