sábado, 26 de julho de 2014

Música erudita rumo à ruptura

Música clássica ou música erudita é o nome dado à principal variedade de música produzida ou enraizada na tradição da música secular ocidental, que abrange um período de mais de quinze séculos até o presente.

Tem como origem referencial a música litúrgica cristã, embora suas raízes se estendam à cultura grega antiga (1100 aC a 146 aC), da qual provém a maior parte de suas tonalidades e escalas, e da cultura romana (146 aC a 476 dC).



Notação musical da Grécia antiga

O desenvolvimento inicial da música clássica se deu durante a Idade Média, que começa com a queda do Império Romano do Ocidente, no século V, e termina no Renascimento, no século XV, o qual representa a passagem para a chamada Idade Moderna.

No período medieval surgiu o canto monofônico, também conhecido como canto gregoriano, e a música polifônica (com múltiplas vozes).


Exemplo de canto monofônico:


Quanto às características musicais, durante o período medieval – a partir do século XI – começa-se a repetição de melodias inteiras e surge a notação métrica, baseada no canto trovadoresco, na Occitânia ou Provença (sul da França).

Mostra de canções trovadorescas provençais:


Data desta época o surgimento de uma rudimentar escrita musical, documentada em pergaminhos e códices, com base na qual puderam ser recuperadas várias canções trovadorescas.

O período renascentista, que durou aproximadamente de 1400 a 1600, foi caracterizado pelo uso cada vez maior da instrumentação e de linhas melódicas que se entrelaçam.

A pauta e outros elementos da notação, como os conhecemos hoje, começaram a se definir a partir do Renascimento.


A invenção da prensa de tipos móveis, no século XV, teve grandes consequências na conservação e transmissão da música a partir da escrita musical.


Em substituição ao sistema modal são desenvolvidas as tonalidades maiores e menores. Define-se no período o conceito de cromatismo.


O cromatismo musical se constitui na utilização das notas da escala cromática (composta de 12 semitons) no contexto de uma composição tonal.


Segue, a rigor, a estrutura do enredo – criada na Grécia antiga – para a literatura.


Qual seja, é estruturado por frases musicais, com a intenção de gerar tensão melódica ou harmônica, prolongando-se o desenvolvimento até chegar à resolução melódica.


Ou seja, como um romance, um conto, uma novela ou, mesmo, um texto jornalístico.


Assim como existem diferentes formatos de roteiros e argumentos, embora todos partam do mesmo padrão, há na música diferentes formas de cromatismo.


Embora o cromatismo tenha sido utilizado como uma forma dramática de prolongar a tensão tonal, também foi utilizado para romper com a estrutura hierárquica da escala diatônica.


Possibilitou, assim, a criação de composições que não tinham um centro tonal nem atingiam nunca um repouso, no sentido utilizado pela música tonal.

A utilização cada vez mais acentuada do cromatismo levaria, séculos depois, a uma crise na música.


Sua saturação é apontada como a causa principal do rompimento com a tonalidade pelos compositores do final do século XIX e início do século XX, que levou ao desenvolvimento da música dodecafônica, da música serial e de outras correntes de música erudita moderna.

O cromatismo continua preponderando em toda música popular ocidental: jazz, blues, rock, samba, choro e outros gêneros.


Mas voltemos à evolução da música erudita...



A música renascentista foi sucedida pela música barroca, que se caracteriza pelo uso de complexos contrapontos tonais e de uma linha contínua de baixo.

O barroco foi o estilo predominante na cultura ocidental a partir do final do século XVI. Até hoje sua influência se faz presente na literatura e em outras artes.


O discurso e linguagem cinematográfica de Glauber Rocha, por exemplo, são fortemente influenciados pela vertente reformista (protestante) do barroco.


Durante o barroco, as músicas tocadas em instrumentos de teclado, como o cravo e o órgão tornaram-se gradativamente mais populares, e a família de instrumentos de corda do violino assumiu a forma pela qual é conhecida hoje.


A ópera, drama musical sobre o palco, começou a se diferenciar das outras formas musicais e dramáticas nesse período.


Grupos instrumentais passaram a ficar cada vez mais diversificados, e suas formações foram se padronizando. Surgiram as primeiras orquestras e a música de câmara, composta para grupos menores de instrumentos.


O concerto, como veículo para uma performance solo acompanhada de uma orquestra, tornou-se extremamente difundido.


As teorias em torno do temperamento começaram a ser postas em prática, na medida em que possibilitavam uma amplitude maior de possibilidades cromáticas em instrumentos de teclado de difícil afinação.


Johann Sebastian Bach (1685-1850) foi um dos compositores símbolo do período.


A seguir, Jesus alegria dos homens, de Bach, com o violonista brasileiro Baden Powell:
 

As grandes transformações ocorridas durante o barroco foram sucedidas pela calmaria e ponderação do chamado período classicista, que vai de meados do século XVII a meados do século XVIII.

O classicismo na música é caracterizado pela claridade, simetria e equilíbrio. Seu período coincidiu com o do iluminismo, que enfatizava a razão e a lógica.


O piano se torna o principal instrumento de teclado. As forças básicas necessárias para uma orquestra foram padronizadas.


A música de câmara passou a abranger grupos com 8 ou até 10 músicos.


A ópera continuou seu desenvolvimento, com estilos regionais evoluindo paralelamente na Itália, na França e nos países de língua alemã.


A sinfonia despontou como forma musical e o concerto se consolidou como veículo para demonstrações de virtuosismo técnico dos instrumentistas.


Os instrumentos de sopro também se tornaram mais refinados.


Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) foi o compositor símbolo do período.


Clique na seleção de composições de Mozart da Rádio UOL para ouvir algumas de suas composições.


O período classicista foi sucedido pelo romântico, que vai aproximadamente da segunda década do século XIX ao início do século XX.

A música romântica se caracterizava por uma atenção cada vez maior a uma linha melódica extensa, assim como elementos expressivos e emotivos, em nítido paralelo com o romantismo nas outras formas de arte, em especial na literatura.


As formas musicais começaram a se distanciar dos moldes usados (mesmo aqueles que já haviam sido codificados), e surgiram peças em forma livre como noturnos, fantasias e prelúdios.


O cromatismo se tornou mais dissonante, com tonalidades mais coloridas e um aumento nas tensões (no que diz respeito às normas aceitas pelas formas anteriores) envolvendo as armaduras tonais.


Surgiram as óperas de proporções épicas, a chamada da grand opéra, que culminam com o Ciclo dos anéis, de Richard Wagner (1813-1883).


Ouça, a seguir,
Der ring des Nibelungen, de Wagner:



No século XIX, as instituições musicais saíram do controle dos patronos ricos, à medida que os compositores e músicos começaram a constituir carreiras independentes da nobreza.

Houve um crescente interesse pela música por parte da ascendente burguesia por toda a Europa ocidental.


Estruturaram-se pelas principais cidades europeias as organizações dedicadas ao ensino, performance e preservação da música.


O piano tornou-se imensamente popular e surgiu um grande número de fabricantes do instrumento.


Alguns músicos e compositores da época – como Franz Liszt (1811-1886) e Niccolò Paganini (1782-1840) – tornaram-se as primeiras grandes estrelas da música.


A seguir,
Hungarian rhapsody nº.2, de Liszt:



A família de instrumentos utilizada na música clássica cresceu.

Um número maior de instrumentos de percussão apareceu e os metais assumiram papeis de maior relevância.


O tamanho da orquestra, que no período classicista era composta tipicamente por 40 músicos, foi expandido, chegando a mais de 100 indivíduos.


A Sinfonia dos mil, de Gustav Mahler (1860-1911), por exemplo, chegou a ser executada por uma orquestra com mais de 150 instrumentistas e um coro de mais de 400 cantores.


A referida sinfonia de Mahler:



As ideias e instituições culturais europeias passaram a seguir a expansão colonial para diferentes partes do mundo.

Houve aumento, especialmente no final do período, das ideias nacionalistas na música (ecoando, em alguns casos, os sentimentos políticos da época).

Compositores russos e de outros países da Europa Oriental, bem como das colônias nas Américas, ecoaram a música de suas pátrias em suas composições. O brasileiro Carlos Gomes (1836-1896) foi um deles.


O chamado período moderno se iniciou com a música impressionista, de 1910 a 1920, dominada por compositores franceses, em oposição ao domínio até então existente dos alemães na música.


Compositores impressionistas como Erik Satie (1866-1925), Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937) usavam escalas pentatônicas, um fraseado longo e ondulante, e ritmos livres.


A seguir, Clair la lune, de Debussy:



No final do século XIX havia vários indícios do mal-estar da música erudita que levaram à subdivisão das correntes tradicionalistas: pós-romantismo, pós-impressionismo, expressionismo e neoclassicismo.

O desejo de ruptura se dava, aqui e ali, inclusive nas obras de alguns compositores consagrados: Claude Debussy, Alexander Skriabin (1872-1915) e Richard Strauss (1864-1949).

Na Rússia, na esteira do movimento multiartístico construtivista, surgiu a “objetividade musical”, tendência cujo compositor mais conhecido foi Igor Stravinski (1882-1931).


Sagração da primavera, de Stravinski:



Os compositores modernos passaram a rejeitar determinados valores adotados durante séculos, como a tonalidade, a melodia, a instrumentação e a estrutura convencionais.

O termo "música contemporânea" passou a ser utilizado para descrever a música composta do século XX até os dias de hoje, procurando, assim, estabelecer um nítido divisor de águas com o passado.


Como o esgotamento do sistema tonal no início do século XX, os compositores buscaram maneiras alternativas de organização das notas musicais, em uma busca genericamente denominada atonal.


Ou seja, buscavam alternativas que não fossem baseadas na polarização de um eixo harmônico central como ocorria no tonalismo.


A figura preponderante para a grande transformação foi um alemão de origem húngara: Arnold Schöenberg (1874-1951).


A seguir, Pierrot lunaire, de Schöenberg:



Suas primeiras obras, apesar de ligadas à tradição pós-romântica, já prenunciavam um método composicional inovador, que evoluiu para a atonalidade.

Schoenberg compôs algumas peças desta maneira, porém logo considerou o atonalismo demasiadamente sem regras.
 

Construiu, então, um método para organizar os doze tons da escala cromática igualmente. 

Essa técnica foi apresentada como "sistema dos 12 tons", que logo ficou conhecida como dodecafonismo serial.

No dodecafonismo as 12 notas da escala cromática são tratadas como equivalentes, ou seja, sujeitas a uma relação ordenada e não hierárquica.

São organizadas em grupos de 12 notas denominados séries, as quais podem ser usadas de quatro diferentes maneiras; 1) série original, 2) série retrógrada (a série original tocada de trás para frente), 3) série invertida (a série original com os intervalos invertidos) e 4) retrógrado da inversão (a série invertida tocada de trás para frente).

Todo o material de alturas utilizado em uma composição dodecafônica, seja melódico (estruturas horizontais) quanto harmônico (estruturas verticais), deve ser originado com base na série.

A revolução dodecafônica foi aprofundada por um dos alunos de Schöenberg: Anton Webern (1883-1945).


Webern combinava o estilo e poética da música dodecafônica com a música expressionista ou música pontilhista (impressionista). Promoveu série de inovações rítmicas, timbrísticas e dinâmicas que ampliaram o estilo musical conhecido como serialismo.

A seguir, Symphonie op.21, de Webern:


Décadas depois, Pierre Boulez, a partir da obra de Webern, criou o serialismo integral.

No serialismo integral de Boulez todos os parâmetros musicais, como duração, timbre, altura e intensidade são ordenados segundo os princípios elaborados por Schöenberg e aprofundados por Webern.

Na década de 1950, Pierre Boulez (1925) passou a usar séries também de durações, intensidades e tipos de ataques.

A seguir, Piano Sonata No. 2 - I. Extrêmement rapide, de Boulez:


Os dois tipos de serialismo distinguem-se pelo uso dos termos mais específicos: serialismo dodecafônico para o primeiro tipo, e serialismo integral para o segundo tipo.

Por vezes também se usa simplesmente os termos dodecafonismo e serialismo - o que se presta a confusões, por não se levar em conta que o dodecafonismo é também serialismo.

A diferença entre os dois sistemas está em que o serialismo integral baseia-se numa série para ordenar todos os parâmetros do som em uma peça.

Desse modo, duração, timbre, altura e intensidade são, todos eles, definidos a partir de uma série, que pode ser representada por sequências numéricas.

A ideia do serialismo integral foi aplicada na música eletrônica por intermédio de Karlheinz Stockhausen (1928-2007).

A seguir, Stimmung, de Stockhausen:


No Brasil, o dodecafonismo foi introduzido pelo compositor Hans Joachim Koellreutter (1915-2005).

E foi amplamente utilizado por diversos compositores como Guerra Peixe, Edino Krieger, Cláudio Santoro, José Penalva, entre outros.

A seguir, versão popular de Mourão, de Guerra Peixe, com a Orquestra Armorial de Pernambuco:


O serialismo integral foi objeto de estudo de Clodomiro Caspary no livro Serialismo integral - parâmetros, além de ter sido utilizado em obras do compositor.

Na música popular, um dos compositores que mais flertaram com o serialismo foi o norte-americano de origem grega Frank Zappa (1940-1993) e, no Brasil, o paranaense Arrigo Barnabé.

Zappa gravou, sob a batuta de Boulez, o álbum com composições contemporâneas The perfect stanger:


Em 1992, Zappa gravou com a orquestra alemã Essemble Modern, por ele própria regida, o álbum Yellow shark, também com peças contemporâneas por ele compostas.


Zappa e Essemble Modern em concerto ao vivo de Yellow shark:



Tubarões voadores, com Arrigo e grupo:


Nas próximas edições deste blog serão postados artigos com mais detalhamento sobre os compositores e tendências da musica erudita "contemporânea".

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