sábado, 26 de julho de 2014

No país que já não joga futebol, Nelson Rodrigues finalmente é admirado

Houve época em que formávamos três seleções de futebol competitivas. Dizia-se até que tínhamos craques em excesso.

As discordâncias com relação ao selecionado escolhido pelo técnico de plantão se concentravam nos grandes jogadores que ele tinha de deixar de fora.


Este artigo é sobre ele: Nelson Rodrigues

Hoje não conseguimos formar nem uma seleção. Craque: só Neymar.

Nossos técnicos são uma calamidade. Intuitivos e gargantudos. Conhecem futebol só pela experiência profissional. Nada estudam. São escolhidos por conveniências políticas, sobretudo as que interessam à máfia que domina a CBF.

Esta é uma entidade forte, com muita grana. Algumas federações estaduais também têm grana.

Mas os clubes nacionais estão pobres, endividados.

Alguns, como o Guarani de Campinas, correm o risco de perder o patrimônio: o Estádio Brinco de Ouro quase chegou a ser leiloado para cobrir os rombos de caixa.

Brinco de Ouro, estádio do Guarani, quase foi a leilão

Por consequência, esses times formam equipes fracas, cujo objetivo, mais que vencer campeonatos, é não cair de categoria.

Não investem na formação de jogadores. Limitam-se às catas de boleiros maduros feitas por olheiros por todos os estados brasileiros e países vizinhos...



Em maior ou menor grau, todos os clubes brasileiros, sejam grandes ou pequenos, estão mal das pernas. Idem os jogadores, que são submetidos a rotinas de jogos incessante e pouco interessantes,  principalmente para o público.

Se poucas pessoas têm interesse pelo futebol, e os que têm passam inclusive a torcer para times melhores que os nossos de outros países, é óbvio que esse esporte passa por um decréscimo de praticantes.

Tupinambá é o nome de um vilarejo rural do município de Indiaporã, noroeste paulista, onde tenho lavoura de seringueiras. Um campo improvisado de provas e treinamentos de peões do vilarejo atrai mais os jovens que o bom campo de futebol local.

Indiaporã já teve três clubes amadores fortes, um deles em Tupinambá. Hoje o único clube que sobrevive a duras penas.

O pior reflexo do decréscimo do interesse pelo futebol no país, que vem se dando há anos e deve se aprofundar após o fiasco recente na Copa do Mundo, é a diminuição de jovens praticantes, o que fatalmente levará à diminuição de craques revelados.

Se esse desinteresse não for contido, seus efeitos desastrosos para o futebol nacional só tendem a se aprofundar.

Pior: o futebol de outros países da América do Sul vem melhorando e corremos o risco de nem conseguir se classificar para alguma das próximas copas. 

Em outros esportes nunca fomos grande coisa. Vôlei, somente fomos vitoriosos nas últimas décadas. Automobislismo, houve uma fase de grandes pilotos que não volta mais. Tênis, somente o Guga, e por curto período.

Nos Jogos Olímpicos de 2016 aqui hospedados – como a Copa do Mundo – somaremos mais fiascos, já que nada foi investido nas várias modalidades esportivas que justifique uma reviravolta em comparação às más performances em eventos anteriores.


Custará muito a Galvão Bueno, no alto dos seus arrombos de patriotismo, gritar a plenos pulmões pela TV Globo na Vila Olímpica: “Brasilllll!”


Ainda assim manterei neste artigo o Brasilllll com cinco eles. É uma homenagem ao penta – que até a próxima copa ainda será patrimônio nosso.


Mas no embalo que está a Alemanha, oposto ao desleixo no qual subsiste o futebol nacional, é bem provável que tenhamos novo penta em 2018. Será Alllllemanha!


Somos imediatistas. Não temos tolerância de preparar gerações que apresentem resultados dentro de décadas, como fizeram os dirigentes teutos.


Nossa ânsia é pelo aqui agora, sobretudo aquilo que dê resultados políticos visíveis.


Nos satisfazemos por ter recebido boa nota pela Fifa pela organização desta Copa, embora nosso futebol tenha sido vergonhoso.

E, certamente, nos contentaremos com os futuros elogios à organização dos Jogos de 2016 – mesmo que o contingente de medalhas, qual o futebolzinho apresentado na Copa, seja pífio.

Mas não vou insistir nisso. Parece papo de pessimista...


No Brasilllll de agora, francamente progressista, não há espaço para urucubacas e opiniões do contra. A presidenta diz que temos de torcer pelo que dá certo. Sempre!


O Brasilllll mudou para valer nas últimas décadas, sob inumeráveis aspectos. Cito um, pelo menos um: hoje temos conflitos, muitos. Cada vez mais intensos. Muitos dizem que isso é bom. Mostra que estamos mais politizados, participativos.


Tínhamos, antes, preconceito racial. Hoje temos conflito racial para valer.


Tínhamos concentração de terras nas mãos de poucos em algumas regiões do país. Hoje o campo vive em pé de guerra constante, por todo território nacional.


Trucidávamos, silenciosamente, as várias etnias indígenas. Hoje, não, são eles pegam alguns dos nossos como exemplo, para deixar claro que não estão mais na condição de levar porradas, mas de dar porradas.

Outros conflitos surgem a cada dia. Principalmente os de rua, no pau a pau entre manifestantes e polícia.


Até os criminosos andam mais politizados e participativos. E mais organizados! Começamos com o Comando Vermelho. Hoje temos Terceiro Comando, Amigos dos Amigos, PCC e outros "comandos".


Atentados, tivemos uma tentativa recente, que gorou. Logo haverá quem faça a coisa bem feita, "certa" (como diz a presidenta), para demonstrar que no Brasilllll também temos terroristas competentes.


Isso se a Al Qaeda, além da já alardeada sucursal arrecadadora de fundos por aqui,  já não abriu uma sucursal de preparadores de bombas.


Já pensou o efeito de mandar um jato lotado sobre o Cristo Redentor fantasiado com as cores nacionais, como o exibiram no encerramento da Copa?!


No geral, as pessoas veem essas mudanças no Brasilllll de hoje com muito otimismo e acham que fazemos de vero as coisas certas. Também acho. Longe de mim demonstrar pessimismo!


Por outro lado, ódios existentes no passado perderam todo o sentido nos nossos dias.


Nesta Copa até que fomos bonzinhos com os argentinos. Machucamos bastante um deles numa briga no Rio, esfaqueamos outro na fronteira do Rio Grande do Sul e matamos um jornalista deles num acidente de carro na Grande São Paulo.

Mas no geral saíram satisfeitos e inteirinhos. Só não saíram mais felizes porque não puderam levar o caneco.


Fomos também muito educados com os alemães e holandeses. Decerto ficaram com uma ótima impressão a nosso respeito.


Depois de levar uma ensacada dos alemães, torcemos por eles na final. Isso um dia depois de levantamos o moral dos holandeses na disputa pelo terceiro lugar.

Os alemães, em agradecimento pelo nosso apoio, no campo e na arquibancada, dançaram à moda pataxó em torno da taça (que poderia ter sido nossa, se fôssemos cadinho mais competentes).

Ao ser indagado sobre os selecionados nos quais se inspirou, o técnico alemão Joachim Löw citou as seleções brasileiras de 1970 e 1982 e a seleção espanhola da última Copa, na África do Sul.

Joaquim Löw se inspirou num futebol que já não temos


Depois da dança pataxó e da afirmação de Löw, chegamos a pensar: será que os alemães são mais brasileiros que nós?

Enfim, deixamos essa gente toda muito satisfeita.


Agora que tudo isso acabou, que os estranjas já não estão mais por aqui para que possamos agraciá-los, podemos voltar à nossa rotina de conflitos e quebrar o pau entre nós, como já vínhamos fazendo.

Por favor, cadê a Sininho e o Game Over?! Está na hora dos black bloc assumirem suas funções.  Há vidraças à beça para serem quebradas nas grandes capitais.


As coisas mudaram tanto no Brasilllll que personalidades antes odiadas, como o dramaturgo, romancista e cronista Nelson Rodrigues (1912-1980), são hoje adoradas.


Rodrigues ridicularizava os esquerdistas pelas páginas dos jornais, identificando-os em suas crônicas com personagens pitorescos como a mocinha sectária de calcanhar sujo, o padre libertário, a freira da passeata e tantos outros.


Nos anos 1960, Nelson era tido como “cara de direita”, “reacionário”.


Nelson no papel do "dedo-duro" que ele nunca foi

Mas, incrível, Nelson se tornou um Chico Buarque para essa turma atual magnanimamente de esquerda, que expandiu seu domínio das universidades para todos os postos da administração pública nacional, passando inclusive pelos altos escalões dos três poderes, das empresas estatais e autarquias.

Qualquer esquerdista do momento conhece uma frase do Nelson Rodrigues e o considera “genialllll”.


Nelson Rodrigues se tornou, enfim, consensual. Fincaram-lhe na memória a condição de “óbvio ululante”. Enfim, se tornou um queridinho de todos, um chato, tal como o Chico Buarque.


Mas essa mudança tem lá suas razões. Uma das frases de Nelson é perfeitamente condizente com a avaliação da presidente Dilma à realização da Copa: “Na vida, o importante é fracassar.”


Outra frase dele que costuma deixar a presidenta com os pelos dos braços eriçados: “Todas as vaias são boas, inclusive as más.”


Um conselho dele que a presidenta segue com rigor: “O presidente que deixa o poder passa a ser, automaticamente, um chato.”


Por outro lado, o Serjão, pai do Chico, saiu de vez de moda. Costumava exaltar em cada um de nós o “homem cordial”. Ora, acabamos com esse tipo de bobagem. Hoje em dia: escreveu, não leu, o pau comeu.


Resolvemos nossos conflitos na força. Invadimos, tomamos conta, depois chamamos o governo e este atesta que temos razão. E se não nos dá razão, negamos nossos votos ou partimos para o enfrentamento.


Portanto, esqueçamos o Serjão, o Gilberto Freyre e o Darcy Ribeiro. Civilidade é coisa do passado!


O Brasilllll de hoje é participativo. Quando é para agradar, como na Copa, e será nos próximos Jogos Olímpicos, agradamos com competência. Quando não é, saímos direto para a porrada.


Mas, quem diria, o Nelsão foi cooptado pela esquerda. Quem diria!

Nelson é hoje tão unanimidade, que nosso futebol participativo passou a imitar um dos comentários recorrentes em suas crônicas: de que na hora H amarelamos e jogamos como “vira-latas”.


Foi o que ocorreu nas semifinais da Copa. E como fizemos isso bem!!!!!


Plantamos resultados magros nos jogos classificatórios. Quando a torcida achou que frente a uma grande seleção, como a alemã, finalmente iríamos desencantar e jogar de verdade, pusemos nossos rabos no meio das pernas e saímos de campo grunhindo chorosos.

Mas o Felipão, logo depois do fatídico 7 a 1, comprovou por A mais B que, desde que ele e o Parreira assumiram o comando, fomos muito bem. Eu concordo. Já disse que não sou do contra.


A Dilma e seus ministros também estavam exultantes na entrevista coletiva de balanço após o final da Copa. No  bom estilo "agenda positiva", ela comprovou que realizamos um excelente trabalho.


Mas quem é esse Nelson Rodrigues tão popular nos dias de hoje?


Bom, para começar o Nelsão sempre foi popular, mas por outros motivos. Tinha um dos melhores textos do jornalismo brasileiro entre os anos 1940 e 1970. Senão o melhor.


Não um texto beletrista, na “língua culta”, "correto", ou seja, com lead, sublead e outras porcarias no padrão feijão-com-arroz que tanto agrada aos editores.


O texto jornalístico do Nelsão era inventivo, imprevisível, envolvente, altamente eficiente, bem-humorado, irônico, mordaz e, ao mesmo tempo, sucinto, fluente, com um estilo incomparável ao de qualquer outro grande jornalista de sua época.


E olha que existiam vários bons jornalistas naquele tempo, muito mais que hoje em dia.


A partir de tal marca pessoal (sobretudo de humor) se tornou tão popular que passou a realizar um jornalismo de ficção ou uma ficção jornalística.


Antes mesmo da turma do new journalism: Truman Capote, Hunter Thompson, Tom Wolfe, Gay Talese e Norman Mailer.

Nelson antecipou o new journalism de Wolfe

A qualidade da prosa de ficção de Nelson, toda espelhada em suas coberturas diárias como repórter de polícia, é muito superior a qualquer das boas obras dos citados acima.

Nelson era um grande admirador do futebol. Mas não do futebol “vira-latas”, diga-se de passagem. Leiam suas maravilhosas crônicas e entenderão.


A obra deixada pelo homem: 17 peças teatrais, 9 romances, 5 livros de contos e 14 livros de crônicas – a maioria sobre futebol.


Nelson Rodrigues era filho do jornalista e político pernambucano Mário Rodrigues. Cresceu nas redações. Aos 12 já trabalhava num dos jornais do pai.


Era também um grande apaixonado por cinema, assíduo frequentador dos cineclubes cariocas.


Gostava, sobretudo, do cinema expressionista alemão: Fritz Lang (1890-1976), Robert Wiene (1873-1938) e Friedrich Wilhelm Murnau (1888-1931).

Era fascinado pelas técnicas de distorções de cenários e personagens, recursos cênicos e de fotografia do cinema expressionista.

Cena de O gabinete de Dr. Caligari, de Wiene

Cenário com ações simultâneas de Vestido de Noiva

Começou a utilizar certas sacadas do cinema expressionista em seus primeiros romances, que também trazem forte influência do português Eça de Queirós – cuja obra também influenciou Graciliano Ramos, sobretudo quanto à objetividade do texto.

Nelson teve então contato com as obras de dois autores de teatro próximos do expressionismo: o sueco August Strindberg (1849-1912) e o norueguês Henrik Ibsen (1828-1906). Ambos jornalistas como ele.


Nelson e Gláuber Rocha adoravam Ibsen

Em 1941, escreveu sua primeira peça, A mulher sem pecado, e iniciou a mais importante revolução da dramaturgia brasileira.

Nos anos 1070, consagrado como jornalista e teatrólogo, a saúde de Nélson começou a decair, por causa de problemas gastroenteorológicos e cardíacos de que era portador.


O período coincide com os anos mais duros da ditadura militar, que Nelson apoiou inicialmente.


Nos bastidores, conforme a violência do regime recrudescia, ajudou vários colegas de esquerda, escondendo alguns em sua própria casa.


Depois teve conflitos com os militares quando seu filho Nelson Rodrigues Filho, que militava em uma organização de esquerda, foi preso e torturado.


Obras de Nelson Rodrigues


As 17 peças de teatro:


A mulher sem pecado, Vestido de noiva, Valsa nº 6, Viúva porém honesta, Anti-Nélson Rodrigues, Álbum de família, Anjo negro, Senhora dos afogados, Doroteia, A falecida, Perdoa-me por me traíres, Os sete gatinhos, Boca de ouro, O beijo no asfalto, Bonitinha mas Ordinária ou Otto Lara Resende, Toda nudez será castigada e A serpente.


Os nove romances:


Meu destino é pecar, Escravas do amor, Minha vida, Núpcias de fogo, A mulher que amou demais, O homem proibido, A mentira, Asfalto selvagem: Engraçadinha, seus pecados e seus amores e O casamento.


Os cinco livros de contos:


Cem contos escolhidos – A vida como ela é..., Elas gostam de apanhar, A vida como ela é — O homem fiel e outros contos, A dama do lotação e outros contos e crônicas e A coroa de orquídeas.


Os 14 livros de crônicas:


Memórias de Nélson Rodrigues, O óbvio ululante: primeiras confissões, A cabra vadia, O reacionário: memórias e confissões, Fla-Flu...e as multidões despertaram, O remador de Ben-Hur, A cabra vadia – Novas confissões, A pátria sem chuteiras – Novas crônicas de futebol, A menina sem estrela – memórias, À sombra das chuteiras imortais – Crônicas de futebol, A mulher do próximo, Nélson Rodrigues, o profeta tricolor, O berro impresso nas manchetes e O quadrúpede de vinte e oito patas.


Nelson com as camisas do Fluminense e do Flamengo

82 frases de Nelson Rodrigues

“O Marx é uma besta.”


 “O brasileiro é um feriado.”


 “O Brasil é um elefante geográfico. Falta-lhe, porém, um rajá, isto é, um líder que o monte.”


“O grande acontecimento do século foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.”


“A Europa é uma burrice aparelhada de museus.”


 “Hoje, a reportagem de polícia está mais árida do que uma paisagem lunar. O repórter mente pouco, mente cada vez menos”.


“Daqui a duzentos anos, os historiadores vão chamar este final de século de ‘a mais cínica das épocas’. O cinismo escorre por toda parte, como a água das paredes infiltradas”.


“Sexo é para operário.”

“O socialismo ficará como um pesadelo humorístico da História.”


“Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos.”


“As grandes convivências estão a um milímetro do tédio.”


“Todo tímido é candidato a um crime sexual.”


“Sou um suburbano. Acho que a vida é mais profunda depois da praça Saenz Peña. O único lugar onde ainda há o suicídio por amor, onde ainda se morre e se mata por amor, é na Zona Norte.”


“O adulto não existe. O homem é um menino perene.”


"O óbvio também é filho de Deus."


"O dinheiro compra até amor sincero."


“A adúltera é a mais pura porque está salva do desejo que apodrecia nela.”


“A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual.”


“A dúvida é autora das insônias mais cruéis. Ao passo que, inversamente, uma boa e sólida certeza vale como um barbitúrico irresistível.”


“A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.”


“A liberdade é mais importante do que o pão.”


“A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: – o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão.”


“A pior forma de solidão é a companhia de um paulista.”


“A plateia só é respeitosa quando não está a entender nada.”


“A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira.”


“A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos.”


“Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.”


“Amar é dar razão a quem não tem.”


“Amar é ser fiel a quem nos trai.”


“Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.”


“Copacabana vive, por semana, sete domingos.”


“Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.”


“Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.”


“Em muitos casos, a raiva contra o subdesenvolvimento é profissional. Uns morrem de fome, outros vivem dela, com generosa abundância.”


“Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.”


“Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.”


“Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.”


“Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.”


“Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.”


“Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.”


“Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário.”


“Invejo a burrice, porque é eterna.”


“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos…”


“Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.”


”Não existe família sem adúltera.”


“Não há nada que fazer pelo ser humano: o homem já fracassou.”


“Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.”


“Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.”


“Num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.”


“O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É abjeto que um homem deseje a mãe de seus próprios filhos.”


“O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.”


“O asmático é o único que não trai.”


“O boteco é ressoante como uma concha marinha. Todas as vozes brasileiras passam por ele.”


“O Brasil é muito impopular no Brasil.”


“O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.”


“O casamento é o máximo da solidão com a mínima privacidade.”


“O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: — um ministro. Não é nada, dirão. Mas o fato de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.”


“O morto esquecido é o único que repousa em paz.”


“O marido não deve ser o último a saber. O marido não deve saber nunca.”


“O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes.”


“O sábado é uma ilusão.”


“O ser humano, tal como imaginamos, não existe.”


“Os homens mentiriam menos se as mulheres fizessem menos perguntas.”


“Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.”


“Perfeição é coisa de menininha tocadora de piano.”


“Quem nunca desejou morrer com o ser amado nunca amou, nem sabe o que é amar.”


“Se Euclides da Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo a Canudos para contar a história do povo brasileiro.”


“Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém.”


“Sem paixão não dá nem para chupar picolé.”


“Só acredito nas pessoas que ainda se ruborizam.”


“Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva.”


“Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata.”


“Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo podia-se andar nu.”


“Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.”


“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante.”


“Toda coerência é, no mínimo, suspeita.”


“Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É uma ressentida contra si mesma.”


“Toda mulher bonita tem um pouco de namorada lésbica de si mesma.”


“Toda unanimidade é burra.”


“Todo desejo é vil.”


“Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.”


“Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.”

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