sábado, 26 de julho de 2014

Poesia com forma e paixão ardentes

A poesia que prioriza os aspectos construtivos, formais, de linguagem, tem vários exemplos na era moderna.

Aliás, os principais poetas modernos foram os que optaram por essa via. Somente nesta edição do blog há artigos sobre dois deles: Ezra Pound e Fernando Pessoa.


Mas a lista é bem mais representativa, incorporando os mencionados poetas russos cubofuturistas Velimir Klebnikov e Vladimir Maiakovski.


Retrato do poeta barroco alemão Quirinus Kuhlmann

No entanto, essa poesia que se vislumbra por uma estreita correlação forma/conteúdo é tão antiga (e ambígua) quanto a própria poesia.

Encontramos exemplos de épocas remotas das culturas greco-latina, japonesa, chinesa e hebraica.


Preponderou pelo longo período trovadoresco provençal (do século XI ao século XIII), durante o barroco (a partir do século XVI) e também foi a marca principal de toda a poesia simbolista (século XIX)...



Isso se assinalarmos apenas as escolas dominantes. Poetas independentes que a praticaram existiram desde que a poesia foi reconhecida como arte, em seus primórdios.

A poesia barroca, por exemplo, é essencialmente formalista. Em alguns aspectos até mais radical que os movimentos de vanguardas modernos.


Os poetas barrocos praticavam a arte pela arte, ipsis litteris. Paradoxalmente, associavam ao alto domínio construtivo certa predileção pelo estado extático, pelo sair de si.


A busca pelo êxtase se deu também em diferentes épocas e culturas. Não é um patrimônio das religiões afro-brasileiras, as quais são vistas, justamente por isso, com tanto preconceito.


Está no kardecismo, no islamismo sufi, em algumas correntes cristãs evangélicas e, também, em correntes do próprio catolicismo.


O barroco tem duas vertentes preponderantes, ambas associadas ao cristianismo: a católica (majoritária) e a protestante (reformista).


As duas cultuavam a precisão formal e, ao mesmo tempo, o sair de si extático.


Não só. Havia, em ambas, certa tentação de inserir o profano no sagrado. As alegorias carnavalescas, por exemplo, se originaram do barroco veneziano, num contexto ainda assim religioso (diga-se, católico).


Um dos maiores escultores do século XVII foi Gian Lorenzo Bernini (1598-1680).


E uma de suas principais obras – Êxtase de Santa Teresa – representa a experiência mística de Santa Teresa d'Avila trespassada por uma seta de amor divino por um anjo.

 
A escultura Êxtase de Santa Teresa, de Bernini


O escultor aplicava em suas obras o uso de corpos alongados, gestos expressivos, expressões mais simples, mas emocionadas. Similares às de Aleijadinho (1730-1814), o grande escultor do tardio barroco brasileiro.

Cena da Paixão de Cristo esculpida por Aleijadinho

Fundadora da ordem das Carmelitas Descalças, a sexualidade – de uma abnegada “esposa” de Cristo" – é latente na obra da poetisa e teóloga espanhola Teresa d’Avila (1515-1582).

Mais ainda no também poeta espanhol Juan de La Cruz (1542-1591), que lhe era muito próximo.


O Cântico espiritual de La Cruz é uma écloga na qual a noiva (representando a alma) procura um noivo (representando Jesus). Ambos se regozijam (sexualmente falando) ao se reencontrarem.


Noite escura narra a jornada da alma de sua casa corpórea até sua união com Deus.


Tal jornada ocorre durante a noite, representando as agruras e dificuldades que ela encontra ao se desprender do mundo e alcançar a luz da união com o Criador.


Novamente sexo e mais sexo, embora a ideia principal do poema seja a dolorosa experiência pela qual as pessoas passam em suas tentativas de amadurecer espiritualmente para se unirem a Deus.


Chama viva do amor (veja o título!) descreve uma intimidade maior conforme a alma responde ao amor divino.


Retrato de Juan de la Cruz

As obras de Juan de La Cruz e Teresa d’Avlia influenciaram profundamente o poeta moderno de origem norte-americana T.S. Eliot (1888-1965).

Mas a poesia barroca da vertente reformista não deixou por menos. Um dos seus poetas mais expressivos e interessantes foi o alemão Quirinus Kuhlmann (1651-1689).


Torturado e queimado vivo em 1689, é hoje considerado uma das figuras mais originais do barroco. E, segundo o poeta brasileiro Augusto de Campos, precursor da poesia digital.


Aos 20 anos publicou Himmlische libesküsse (Beijos de amor celestes), conjunto de 50 sonetos, dentre os quais Der wechsel menschicher sachen (A alternância das coisas humanas).


De acordo com Campos, trata-se de um exemplo de arte combinatória derivada das teorias do teólogo catalão Ramon Lull (1233-1316) e do jesuíta alemão Athanasius Kircher (1602-1680).


Kuhlmann foi fundador e pregador ambulante de uma seita messiânica que denominava “jesuélica”, pela qual perambulou por Londres, Paris, Amsterdã, Genebra e outras cidades, sempre perseguido pela fama de herético e agitador.


Em suas andanças, chegou a tentar converter, sem êxito, um sultão turco.


Na Rússia, após ter denunciado o czar como herege, foi preso, torturado e, por não renegar suas crenças, condenado à morte e queimado vivo.


Seu Beijos de amor celestes, de acordo com o próprio Kuhlmann, propicia milhares de combinações de significados, todos contidos embrionariamente em seus 12 primeiros versos.


Ao serem permutadas as 13 palavras centrais, deixando intactos, em suas posições, os primeiros e os últimos vocábulos de cada verso, são, segundo ele, possíveis até 6.227.020.800 combinações.


O escriba mais zeloso que se dispusesse a colocar no papel mil desses versos por dia, teria trabalho para mais de um século.


Segundo Augusto de Campos, que traduziu o referido poema, Kuhlmann foi um precursor da poesia informático-combinatória surgida no final do século XX.


Augusto de Campos

Campos assinalou:


“Mas há algo que me interessa especialmente no soneto de Kuhlmann. No original, todas as palavras internas são monossílabos, uma imposição que se faz necessária para manter a estrutura rítmica do texto. Isso dá ao poema uma liberdade gramatical e uma sonoridade peculiar, staccato-percussiva, que é raro encontrar em poemas de antes e depois.”

O poeta barroco teria também antecipado procedimentos do expressionismo alemão, em particular as infrações linguísticas de August Stramm (1874-1915), e até práticas mais avançadas do experimentalismo modernista.


Sua exaltação não tem limites. Altera funções gramaticais, arrisca neologismos e chega a aglomerados de palavras em liberdade pelos caminhos da arte combinatória, com grande impacto emocional e poético.



A seguir, o referido poema de Khulmann vertido por Augusto de Campos:

41º Beijo de amor


A alternância das coisas humanas


Pós noite/ pez/ ardor/ gelo/ som/ mar/ sol/ sal/ gris/ raíz/ trom/ praga/ fogo/ e horror,
Vêm dia/ blau/ frio/ flux/ psiu/ cais/ sul/ sede/ cãs/ flor/ fim/ dom/ água/ e canção.
Pós cris/ breu/ ruir/ medo/ guerra/ ais/ cruz/ luto/ ira/ mal/ pena/ ruim/ vaia/ ou dor,
Já sol/ alba/ fruir/ suor/ paz/ rir/ graal/ gala/ amor/ bem/ dó/ bom/ loa/ estão.

Qual lua/ grou/ rio/ um/ mar/ pó/ val/ voz/ pá/ pé/ cão/ mó/ rã/ com calor
Atrás de luz/ voar/ foz/ par/ nau/ ar/ flor/ tom/ chão/ lã/ mão/ grão/ rio/ irão,
Tal nó/ mãe/ mau/ nau/ meu/ réu/ vir/ rei/ clã/ frei/ juíz/ sem/ Deus/ e valor
Pedem mão/ pai/ pau/ vau/ teu/ lei/ lar/ ás/ grei/ sé/ fás/ mais/ fé/ e ação.

Quem vai/ fiel/ são/ ter/ ir/ lá/ com/ cal/ três/ sim/ sus/ ar/ céu/ amar
Buscam vem/ cruel/ pus/ ser/ vir/ cá/ sem/ pez/ mil/ não/ sub/ chão/ rés/ em vão.
Nem têm cem/ prol/ tez/ nu/ vez/ mor/ bom/ léu/ jus/ rir/ voz/ lis/ mel/ lugar
Onde só/ dor/ giz/ véu/ viés/ pior/ vil/ lio/ caos/ guai/ pio/ noz/ fel/ são.

Tudo muda; tudo ama; tudo quer tudo combater:
Só quem medita neste lema alcançará o saber.

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