sábado, 26 de julho de 2014

República dos literatos alcoólatras

Até meados do século XX Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Henry Miller, Paul Bowles, Willian Faulkner, Edmund Wilson e outros proporcionaram essa fama aos EUA na França.

Sobretudo os três primeiros, que viveram sob constantes farras por Paris nas primeiras décadas do século.


Mas tal atribuição preconceituosa, se voltarmos no tempo para meados do século XIX, poderia ser destinada à própria França, já que os poetas simbolistas foram igualmente eméritos biriteiros.


Edmund Wilson

No romantismo, algumas décadas antes do simbolismo, eram os ingleses os campeões dos porres, tendo à frente Lord Byron (1788-1824).

No próprio século XX, outro inglês, o poeta e romancista Malcolm Lowry (1909-1957), nos legou a mais genial das obras embriagadas que tenho conhecimento: Under the Vulcano, que se passa no México, tendo como personagem um cônsul inglês.


Mas a impressão que os franceses tinham, conforme descrito no início do artigo, é de que nos EUA somente os esvaziadores de copo trilhavam o caminho das letras.

No tocante a Edmund Wilson (1895-1972), vale um porém: bebia e fornicava como ninguém – desde prostitutas a damas da high society – mas foi o melhor crítico literário ocidental do seu tempo...




Referente à sua fixação pelos coitos, seu romance Memoirs of hecate country, publicado na década de 1940, foi recolhido das livrarias norte-americanas em 1950, por medida judicial, devido às picantes descrições de órgãos genitais femininos.

Um exemplo de pudor característico do provincianismo protestante que persiste ainda hoje na mais liberal das sociedades do planeta.


A França, por exemplo, não impediu que as cartas de um de seus mais importantes escritores – Gustave Flaubert (1821-1880) – fossem publicadas.


Flaubert

Nelas Flaubert escancara seus tours por bordéis e casas de banho no norte da África, para onde se deslocava com frequência à procura de sexo com meninas e meninos.

Diferente da maioria dos escritores alcoólatras, Wilson bebia rotineiramente enquanto trabalhava. Por longas décadas tomou todas, todos os dias, e ainda assim chegou aos 77 anos.


Por isso, dizia-se que ele tinha um cérebro à altura do seu fígado.


Quando ia ao bar que frequentava nas primeiras horas da manhã, tomava, religiosamente meia dúzia de martines enquanto lia os jornais do dia.

Mas gostava que o bar man servisse os seis copos de uma vez, enfileirados. Conforme digeria as notícias, esvaziava-os um a um.


No entanto, foi altamente produtivo e estudioso até seus últimos dias.


Embora também tenha sido ficcionista, não foi esta sua principal seara.

Seu empenho maior foi o de separar o joio do trigo acerca da produção literária norte-americana e de outros países dos séculos XIX e XX. E o fez de forma brilhante, por intermédio dos vários jornais e revistas (norte-americanos e europeus) com os quais colaborou.


Wilson fazia jornalismo literário com estilo e texto de alta qualidade, não para ser ensinado, como a produção acadêmica, mas para ser lido – com prazer – e instigar questionamentos.


Também tivemos no Brasil bons críticos não-acadêmicos, na linha de Wilson.

Dentre eles Antônio Cândido (fez carreira no jornalismo e só mais tarde migrou para a academia), Otto Maria Carpeaux, Anatol Rosenfeld, José Lino Grünewald, Mário Faustino, Paulo Emílio Salles Gomes (crítico de cinema), Sábato Magaldi e Décio de Almeida Prado (ambos críticos de teatro).

Nosso último grande crítico de arte foi J.Jota de Moraes (1943-2012), que escrevia principalmente sobre música.


Hoje prepondera absoluta a crítica acadêmica, chata, sem estilo, para ser ensinada – ou seja, imposta. Se nossos escritores se limitarem a segui-la, nossa produção literária, que já anda paupérrima, tende a perseguir a qualidade do nosso deprimente futebol.


Mas vamos a Edmund Wilson...


Não era bem visto nos EUA, por vários motivos, dentre eles o de ter uma vida nada convencional, recheada de episódios de bebedeiras e de promiscuidade sexual.


Debochava recorrentemente dos norte-americanos em seus artigos. Insistia em afirmar que a sociedade norte-americana, tanto a literária quanto a leiga, não tinha senso de humor.


Porém cometeu um deslize que pesou, decisivamente, para sua má fama: nutria simpatias pela principal inimiga do seu país, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e chegou a militar pelo Partido Comunista norte-americano.


Mas nem precisou das perseguições do macarthismo para mudar de ideia. Stalin e os demais dirigentes déspotas do mundo comunista o levaram à descrença quanto aos rumos da sonhada sociedade sem classes.


Ainda assim deixou a obra mais importante de um norte-americano sobre a Revolução Russa: To the Finland station (Rumo a estação Finlândia), que narra o retorno de Vladimir Lenin do exílio para assumir o posto de dirigente da rebelião bolchevique.


Lenin

Sua identificação com Lenin não era propriamente política.

Impressionava-se com a capacidade do líder soviético de expor seu pensamento e sua linguagem para um país de dimensões continentais como a Rússia, com tamanha diversidade cultural e tão alta proporção de analfabetos.

Wilson também deixou uma das obras mais importantes para entender a transição do simbolismo para os movimentos de vanguarda modernistas: Axel’s Castle (Castelo de Axel).


O livro aborda as obras dos simbolistas Arthur Rimbaud, Auguste Villiers de L'Isle-Adam (autor de Axel), Paul Valéry, Marcel Proust, W. B. Yeats e dos modernistas T. S. Eliot, James Joyce e Gertrude Stein.


Villiers de L'Isle-Adam

 Wilson era um autodidata, como nosso Paulo Francis (1930-1997). O que aprendeu não foi nas universidades, mas por esforço próprio.


Dominava francês, russo, alemão, italiano, espanhol, hebraico, português e mais uns tantos idiomas só para ler no original as obras que criticava.

Tinha explícito interesse pela literatura de alta elaboração e rigor na linguagem – no que estava muito próximo do seu antecessor Ezra Pound.


Declaração tipicamente poundiana de Wilson em uma de suas últimas conferências:


“Por mais minuciosa e detalhamente que examinemos as obras literárias, seja do ponto vista histórico, sociológico ou biográfico, devemos ser capazes de separar o que é bom do que é ruim, o que é de primeira categoria do que é de segunda categoria. Senão jamais escrevermos crítica literária que valha esse nome.”

Mas a época dos bons críticos literários passou e o que hoje prepondera é o pseudocientificismo acadêmico, inclusive na imprensa.


Professores carreiristas professam sistemas que nada têm a ver com a produção literária, com o mero propósito de amealharam trunfos para suas carreiras universitárias de “pesquisadores”.


Suas “críticas” de nada para coisa alguma são desinteressantes, vazias, qual o futebol burocrático da nossa seleçãozinha a reboque do charlatanismo da CBF.


Escritores de verdade jamais leem estudos acadêmicos sobre literatura, porque nada têm a acrescentar ao seu ofício.

Como diria o pessimista Flaubert: pior que o presente, só o futuro.


Enfim, não há ninguém que se proponha, com o espírito livre de Edmund Wilson, Carpeaux, Rosenfeld, Cândido, Gomes, Prado, Magaldi, Grünewald, Faustino e Moraes, a desvendar de forma objetiva, isenta, o que há de melhor no complexo (e real) “jogo” da literatura e das artes.

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